A imponência dos novos Edifícios do centro histórico de São Paulo aponta para um ideal de modernização da cidade, que com sua linguagem eclética revelava o desejo por uma identidade moderna que se projetava para o futuro, mas que ainda traduziam as idéias arquitetônicas e urbanísticas europeizadas do século XIX.24
Foi neste plano histórico de grandes transformações que Flávio de Carvalho, ainda desambientado e “inglesado”, observava atento toda a movimentação cultural e urbanística ao seu redor. Decidindo iniciar sua carreira de engenheiro civil, em 1923, foi calculista de barragem do escritório Barros Oliva & Cia, em 1924 iniciou um trabalho de três anos no escritório de Ramos de Azevedo.
Flávio trabalhou no Escritório Ramos de Azevedo no período de 1924 a 1926.25 Sua passagem rápida pelo escritório foi relatada na palestra realizada na FAU/USP em 1965 e publicada na Folha de São Paulo em 1975 na série “Flávio de Carvalho, por ele mesmo I”, no qual o artista pontua suas dificuldades em se adequar ao perfil do escritório e às novas demanda da construção paulista na época.
Na firma Ramos de Azevedo funcionava como calculista de
Patetta, Luciano. “Considerações sobre o Ecletismo na Europa” in Org. Fabris, Annateresa. Ecletismo na arquitetura brasileira, São Paulo: Nobel/Edusp, 1987, p. 13.
24 Tomando como exemplo ainda esta aparente distorção de modernidade idealizada pela elite e pelo governo de São Paulo, o engenheiro e arquiteto Luiz de Anhaia Melo, representando a Escola Politécnica de São Paulo, promoveu uma campanha divulgada no Diário da Noite em 1928/29 cujo lema era “São Paulo maior e melhor”. Defendendo o tema de que a cidade era um problema de governo, Anhaia pretendia conquistar a opinião pública em prol de São Paulo, que segundo ele, necessitava de um planejamento técnico urbanístico que assimilasse quatro problemáticas específicas da cidade: habitação, trabalho, circulação e recreio, sendo o governo responsável pela aplicação de tais soluções. Segundo Geraldo Ferraz, o Professor Luiz de Anhaia Melo, em 28 de Setembro de 1928, proferiu uma conferência no Rotary Clube sobre os problemas urbanístico da cidade de São Paulo. O Diário da Noite se interessou pela campanha “São Paulo maior e melhor” de Anhaia Melo, tendo colaborado nas várias publicações da campanha em seu Jornal, e tendo o próprio Geraldo como repórter encarregado das entrevistas, redação e edição das matérias, que foram publicadas até o início de 1929, quando o Professor, a convite do Instituto de Engenharia, publicou o ciclo de suas conferência no volume “Problemas de Urbanismo”. Ferraz, Geraldo. Depois de tudo, São Paulo: Secretaria de Cultura, 1983, p. 36/37.
25Neste período o escritório construía o Banco do Comércio e Indústria, o Mercado Municipal, os escritórios centrais da São Paulo Light and Power, o Clube Comercial, o Palácio da Justiça e a Barragem do rio das Velhas.
estruturas metálicas e concreto armado... Na minha atividade sofri muito porque era incumbido de colocar estruturas e arcabouços na arquitetura que me era entregue. E sempre tive uma luta muito grande com os arquitetos da firma e sempre devolvi as plantas. Não é possível colocar uma estrutura dentro desta arquitetura. Mas não pode mudar a arquitetura, diziam... Tive uma luta realmente muito grande e foi o início de minha revolta contra o estado existente na arquitetura.26
No mesmo ano em que saiu do Escritório Ramos de Azevedo, Flávio abriu seu próprio escritório, junto ao Instituto de Engenharia, onde investiu na carreira pública através da participação em concursos.27 No tempo em que morou no Instituto, alcançou notoriedade no meio intelectual e na imprensa com seus projetos arquitetônicos, mas não pelo sucesso dos projetos e sim pela recusa sistemática dos mesmos nos concursos oficiais.
O Projeto para o Palácio do Governo de São Paulo de 1927 marca a entrada tumultuada e polêmica de Flávio no cenário artístico paulista e começa a esboçar a afirmação de sua identidade com o modernismo.
Apesar da perspectiva histórica e da pouca modéstia com que relata sua trajetória na entrevista à FAU/USP, Flávio nos sugere uma aproximação do projeto para o Palácio do Governo de São Paulo com a proposta modernista de Le Corbusier. Afirma ter se impressionado pelas idéias teóricas do arquiteto ao definir a casa como uma máquina de habitar. Segundo Flávio, sua saída do Escritório Ramos de Azevedo se deu na mesma época em que teve acesso aos
26 Aqui Flávio faz uma referência à dificuldade técnica das estruturas arquitetônicas criadas pelo escritório: “Sempre tive as maiores dificuldades com os arquitetos da rima, por que eles não davam altura suficiente para encaixar. A estrutura não era racional, era uma estrutura encaixada, uma estrutura falsa, que entrava dentro de uma coisa que não tinha nada a ver com a época.Faziam-se prédios de 10,8 andares, era mais ou menos o gabarito da época e sem preocupação nenhuma com a estrutura que tinha que entrar ali para sustentar esse prédio. O arquiteto só pensava na parte exterior, na ornamentação, e não dava altura para as vigas, não dava”. KNESSE, Eduardo. “Flávio de Carvalho, por ele mesmo I”, Folha de São Paulo, São Paulo, 27 de julho de 1975. 6º Caderno – Folha Ilustrada/Artes visuais
27 J. Toledo nos conta que neste período Flávio já estava em desavença com o Pai Raul de Rezende Carvalho, um dos grandes fazendeiros do café de São Paulo. Raul pretendia, com sua influência na elite cafeeira paulistana, iniciar o filho numa carreira promissora na área da Engenharia e arquitetura. Porém, levando uma vida boêmia e instável, Flávio não correspondia aos ideais do Pai, o que levou o rompimento, inclusive financeiro dos dois. Toledo, J. Flávio de Carvalho - O comedor de emoções, Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
livros de Le Corbusier.
Le Corbusier tinha razão ou quase totalmente razão em dizer que a casa era efetivamente uma máquina de habitar. “A minha revolta começou aí. Eu vivia brigando com os meus chefes na firma. Eu saí de lá, transferi-me para outras firmas. Trabalhei com construtora comercial e em outros lugares. Em 1927, apoiando- me nesse sentimento de revolta antigo eu projetei a primeira manifestação de arquitetura moderna no Brasil, o palácio do governo do Estado de São Paulo.
Reitera-se, entretanto, que o presente estudo não tem a intenção de analisar o protejo para o Palácio do Governo de Flávio de Carvalho, assim como sua proposta arquitetônica à luz da proposta de Le Corbusier, até porque a influência modernista de Le Corbusier não foi exclusividade de Flávio no Brasil. Outros arquitetos modernistas em São Paulo como Gregóri Warchavich e Reno Levi já se inspiravam nas propostas corbusianas, principalmente após sua visita ao Brasil em 1929, quando o próprio Flavio de Carvalho foi convidado pelo Diário da Noite para entrevistá-lo. (FERRAZ, 1983). Este capítulo pretende apontar, independente da influência de estilo arquitetônico que Flávio se inspirava, a intenção do artista em promover um debate, a partir da arquitetura, em prol de uma renovação artística para São Paulo, focando, portanto, o interesse pelo conceito do projeto para o Palácio do Governo de São Paulo. Não é propósito deste capítulo também, discutir as inovações técnicas da arquitetura de Flávio de Carvalho.28
Segundo depoimento de Geraldo Ferraz, Flávio de Carvalho procurou a redação do Diário da Noite para divulgar o seu projeto de arquitetura para o Palácio do Governo de São Paulo. Convicto de que não iria ganhar o concurso, pretendia incitar uma discussão pública sobre a idoneidade do júri, argumentando que se o júri fosse honesto e bem informado seu projeto seria aceito. Geraldo e o
28 Para conhecer melhor as inovações técnicas da arquitetura de Flávio, assim como ter uma visão mais detalhada de todos os projetos na área de arquitetura criados pelo artista, sugiro a leitura da Dissertação de Mestrado do arquiteto Luiz Carlos Daher,. DAHER, Luis Carlos. Arquitetura e Expressionismo: notas sobre a estética do projeto expressionista, o modernismo e Flávio de Carvalho. Dissertação de mestrado em Arquitetura da FAU/USP, 1979.
Diário da Noite se interessaram por essa discussão pública e abriram espaço para que Flávio publicasse o memorial descritivo de seu projeto. (FERRAZ, 1983).
A iniciativa de promover um debate público aponta para o interesse de Flávio em provocar e polemizar os concursos públicos de arquitetura da época através do Projeto para o Palácio do Governo. Corrobora também a intenção de Flávio em se inserir de forma moderna no debate artístico da cidade.29
O memorial descritivo do Projeto para o Palácio do Governo de São Paulo (Figura 59 e 60), nos dá bastante idéia do espírito e do tom provocativo de Flávio:
“[...] eu projetei o Palácio que era uma fortaleza, em grande parte uma fortaleza, armado com metralhadoras, local para canhões e catapultas e coisas assim, campos de descida para helicópteros”.(CARVALHO Apud DAHER, 1979).
29 A apropriação da imprensa escrita para propaganda de um projeto moderno para São Paulo, não foi iniciativa pioneira de Flávio. A historiadora Annateresa Fabris aponta a problemática quando afirma que os modernistas que fizeram a Semana de 22 foram unânimes em utilizar a imprensa escrita como veículo de propaganda da Semana: “... os modernistas tornaram-se ativos propagandistas da causa da arte moderna, ocupando jornais e um espaço consagrado com o teatro, exibindo o gesto antes do que a obra, promovendo a polêmica antipassadista com tons de escárnio e de ironia feroz”.FABRIS, Annateresa, “Estratégias modernistas” in BASTAZIN, Vera (org) A Semana de arte Moderna 1922-1992, São Paulo: Educ, 1992. Significativo, também pensar no interesse de Flávio pelos jornais exatamente no momento em que São Paulo acabava de sair da Lei da Imprensa, a censura aos jornais imposta por Artur Bernardes. Nesta época ainda, Flávio tornou-se colaborador do Diário da Noite e estendeu seu interesse pelo debate público publicando vários artigos relacionados à arquitetura e às artes visuais, se tornado colaborador de vários jornais como o Diário Nacional, Correio de Tarde e Folha de São Paulo. Toledo, J. Flávio de Carvalho - O comedor de emoções, Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
Na segunda ilustração vê-se uma versão noturna do projeto que aponta o seu caráter bélico: fachos de luz indicam os holofotes que orientariam as naves que sobrevoariam São Paulo. No projeto, o grande hall de entrada do Palácio está representado em forma semicilíndrica. Nas laterais se encontram a Casa Militar e a Casa Civil. No nível superior Flávio projetou uma área para bailes e banquetes. No nível acima, se encontra a residência do presidente do Estado e salas de
62- Projeto para o Palácio do Governo de São Paulo, Vista aérea, 1927