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2.3.2 Wind Turbine Wakes

Dentre as obras relacionadas à inserção do negro e ou da temática negra na TV pública, destaca-se o livro “O negro na TV pública”, organizado pelo cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo (2012), ex-integrante do Conselho Curador da EBC, extinto por meio da Medida Provisória nº 744, de 1º de setembro de 2016.

O trabalho de Araújo (2012) representou um marco importante nos estudos sobre o negro na televisão, pois trouxe uma reflexão sobre representatividade negra na TV pública, a partir da perspectiva de pesquisadoras e pesquisadores, cineastas e artistas negros que estudam e militam em questões como mídia, racismo e representatividade negra. Contudo, o interesse central era contribuir com uma nova proposta de abordagem e conteúdo da TV pública, como aponta o autor, “que não repita antigos erros no que diz respeito à negação de

multirracialidade e multiculturalidade, na caracterização do nosso país” (ARAÚJO, 2010, p. 28).

Araújo (2012) buscou analisar e compreender o universo das TVs públicas por meio de reflexões sobre as bases históricas e sociais do racismo no Brasil. Também foram realizadas análises quantitativas e qualitativas relacionadas à incorporação, representação e diversidade étnico-racial, além do papel da televisão pública na promoção da imagem, da cultura e do protagonismo negro.

As TVs analisadas foram a TV Cultura, TVE Brasil e TV Nacional/Sistema Radiobrás. Foram consideradas as programações ficcionais e não ficcionais, durante o período de uma semana. As primeiras conclusões de Araújo (2012) apontaram para dados que se aproximam do universo das TVs privadas, e que demonstram que existe uma presença minoritária de negros ou afrodescendentes como apresentadores e apresentadoras de diferentes programas e dos telejornais.

Exibir ao longo de uma semana de programação, eurodescendentes ocupando 86% do posto de apresentadores/as e 93% no posto de jornalistas, nos parece ser uma hiper-representação deste segmento racial. Este fenômeno é um reflexo da ausência de políticas públicas para assegurar o direito democrático de todo segmento populacional ter seus semelhantes, com as mesmas características étnico raciais ocupando postos relevantes e altamente valorizados, fonte fundamental da autoestima. (ARAUJO, 2012, p.36).

Diante dos dados, o autor assinala que é preciso tratar com mais seriedade a mensagem que uma televisão, marcada profundamente por pouca representação ou representações estenotipadas ou subalternas, significa para a construção da autoestima da população negra em geral. Também aponta para importância da TV pública como um espaço de mudança, por isto a seriedade de se refletir sobre as práticas atuais para propor novos caminhos, e propor sugestões que de fato contemplem a formação multirracial do país.

O pesquisador Hamilton Richard Alexandrino Ferreira dos Santos (2014), a partir do interesse pela história do sujeito negro, africano e afrodescendente na mídia brasileira e a diversidade étnico-racial nas empresas e grupos brasileiros de comunicação, realizou um estudo sobre o programa “Nova África”, exibido pela TV Brasil, que trata das diferentes relações e influências entre diferentes países da África e o Brasil.

Santos (2014) traz uma contextualização sócio-histórica do negro no Brasil e os processos que contribuem para construção de identidade, sobretudo aqueles mediados pela mídia. Também trata da presença negra na mídia, especialmente na TV pública,

estabelecendo, desta forma, um diálogo com o objeto de estudo desta pesquisa, sem afastar o aspecto crítico com relação à pluralidade e diversidade na televisão.

[...] é emergente a luta contra o alijamento identitário e cultural que os grupos dominantes secularmente impõem e pela cobrança do Estado para a promoção da pluralidade, através de seu canal de televisão. O incentivo à permeabilidade identitária na televisão é parte desta luta. (SANTOS, 2014, p.95).

Ao tratar da ausência de pessoas negras na mídia, da desindentificação do cidadão negro, que não enxerga nem a si, nem a seu grupo étnico-racial na televisão, Santos (2014) levanta hipóteses sobre os motivos desta ausência ou invisibilidade. Ele encontra bases na própria estrutura social que sustenta e reinventa novas formas de racismo. Neste aspecto, o autor compreende que a criação da TV Brasil representou um passo importante para diversificar o cenário televisivo, sobretudo ao considerar a hegemonia do modelo comercial vigente (SANTOS, 2014). Também contribuiu para “efetivação de um aparelho midiático público de proporção nacional” (SANTOS, 2014, p.95).

Entretanto, o autor faz algumas críticas à estrutura do programa “Nova África”. A mais contundente diz respeito à constituição do corpo de apresentadores, aspecto que inclusive foi confrontado com levantamento da composição dos demais programas da TV Brasil, locais de poder e estética dominante.

O “Nova África”, como um átomo analisado na compreensão da estrutura dialógica da TV Brasil, nos apresenta sinais do não rompimento dos paradigmas estabelecidos, conforme abordamos anteriormente. Acreditamos que a constituição de seu corpo de apresentadores e o tratamento diferenciado percebido, talvez, seja o mais factível de visualização desta manutenção paradigmática. [...] A constituição do quadro de apresentadores do programa coadunando com o perfil do quadro de apresentadores da emissora nos possibilita compreender a forma colocada ideologicamente. Ela nos faz perceber que o grupo dominante constrói a norma, todos devem reproduzir a sua estética e que qualquer coisa diferente não é normal. (SANTOS, 2014,p.97).

Uma vez que os trabalhos sobre a inserção dos negros e da temática negra foram contextualizados, apresentaremos agora um breve panorama dos programas da TV Brasil que trazem como temática central ou secundária temas relacionados às questões apresentadas até aqui.

Dentre os programas exibidos pela emissora alguns se destacaram por trazer a temática e o protagonismo negro, como o programa “Nova África: um continente, um novo

olhar”, que mistura a linguagem documental com o tratamento jornalístico dos conteúdos para apresentar países africanos, a fim de proporcionar ao telespectador uma visão diferenciada sobre o continente africano e proximidades culturais entre esses países e o Brasil. Também se destacou o programa “Mama África”, composto por uma série de documentários sobre o continente africano, onde são abordados temas do cotidiano e especificidades da região. E também o programa “Nação”, que, no formato de documentários, apresenta temas relacionados à história, à cultura e à diáspora africana, com a finalidade de desfazer visões equivocadas, como por exemplo, a ideia de que o Estado do Rio Grande do Sul não partilha de nenhuma herança cultural de matriz africana.

Em maio de 2011, foi ao ar pela primeira vez uma minissérie de teledramaturgia da TV Brasil, “Natália”, que conta a história de uma jovem negra, moradora do subúrbio do Rio de Janeiro, e retrata todo o processo de transformação na vida de protagonista desde o momento em que ela é descoberta pelo mundo da moda. A série apresenta os contrastes socioeconômicos entre a periferia e zona sul carioca, por meio de uma abordagem reflexiva, contemplando questões interessantes à jovem, como sexualidade, religião, drogas, homossexualidade, racismo e dependência de álcool.

No segundo semestre de 2015, a emissora incluiu em sua grade de programação o desenho animado “Guilhermina e Candelário”. De origem colombiana, o desenho mostra o cotidiano de uma família negra, cuja protagonista, Guilhermina, vive uma série de aventuras com seus irmãos e amigos. O desenho também conta com a presença do avô, que compartilha da sua sabedoria com as crianças.

Além desses exemplos, outros programas de enfoques diferenciados também tratam de forma esporádica temas relacionados a questões raciais ou à população negra, como, por exemplo, edições especiais realizadas em comemoração ao Dia da Consciência Negra. Nesta semana, foram exibidos programas como “Para todos”, “Programa Especial”, “Segue o Som”, dentre outros, que trataram de questões relacionadas às influências, história e cultura

negra no país. É importante destacar que, em 2014, a emissora transmitiu a novela “Windeck – Todos os Tons de Angola”, produzida em 2012 por uma produtora angolana, e cujo elenco contava com aproximadamente 90% de atores e atrizes negras, um fato inédito no Brasil, que tem grande tradição no campo das telenovelas.

Agora que revisamos as principais pesquisas na área, que dialogam com nossa investigação, e que passamos pela análise da programação da TV Brasil com relação à

temática negra, estamos prontos para a primeira das três etapas da hermenêutica da profundidade: a análise sócio-histórica.

- CAPÍTULO 3 - Análise sócio-histórica

Este capítulo se dedica à reconstituição das condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas da questão negra na radiodifusão pública brasileira. Abordaremos ainda a comunicação pública, a estrutura da Empresa Brasil de Comunicação e da TV Brasil, bem como sua importância para o processo de democratização da comunicação pública no país.