4. Internalism or externalism?
4.5 Williams and instrumentalism
As informações acerca do planejamento do uso das terras advêm, sobretudo, dos levantamentos de solos (SANTOS et al., 2015). O mesmo deve ser objetivo e conter finalidades específicas (RIBEIRO et al., 2012). Nesse contexto, Mulder et al. (2011) destacam a importância de se ter informações acerca do solo para orientar ações voltadas às políticas de planejamento que envolvam o manejo dos recursos naturais, assim como para guiar as ações de monitoramento de impactos ambientais. Os procedimentos utilizados para o levantamento pedológico tradicional correspondem a uma das principais ferramentas para caracterização do solo, em que se objetiva agrupar áreas heterogêneas em parcelas mais homogêneas, de maneira que se reduza, da melhor forma, a variabilidade; que se sigam parâmetros descritos no sistema de classificação do solo vigente e que compreenda os critérios de classificação utilizados para caracterização dos solos em função da escala de mapeamento (Embrapa, 2014).
Após estudos de viabilidade na fase de planejamento, o processo de levantamento e classificação dos solos passa para a etapa de atividades de campo, realizada por meio de observações morfológicas dos perfis a fim de possibilitar melhor identificação, separação, delimitação e nomeação dos horizontes diagnósticos (IBGE, 2015). Com base nesses procedimentos, um perfil de solo poderá ser classificado (Embrapa, 2014).
Flores et al. (2006) observaram que o procedimento prévio de estudo do terreno, que influencia os principais atributos dos perfis dos solos, é refletido na caracterização morfológica, física e química, e, por conseguinte, na categorização do
34 solo em estudo em um sistema taxonômico de classificação. Quanto mais detalhado for o levantamento (cf. Tabela 1), mais homogêneas serão as unidades de mapeamento delimitadas (IBGE, 2015). Além disso, destaca-se que a quantidade de observações por unidade de área varia de acordo com a escala adotada, com o grau de heterogeneidade ou uniformidade da área de trabalho e com a eficiência da análise e da interpretação de fotografias aéreas, imagens de radar e de satélites e os recursos de geoprocessamento disponíveis (Embrapa, 1995).
Tabela 1 – Tipos de levantamentos pedológicos, escalas e número de observações por km2 e por ha
Tipo de levantamento Escala Nº de observações
Exploratório 1:750.000 a 1:2.500.000 < 0,04 * Reconhecimento Baixa Intensidade 1:250.000 a 1:750.000 0,04 * Reconhecimento Média Intensidade 1:100.000 a 1:250.000 1,00 * Reconhecimento Alta Intensidade 1:50.000 a 1:100.000 2,00 *
Semidetalhado ≤ 1:50.000 0,02 - 0,20 **
Detalhado ≤ 1:20.000 0,20 - 4,00 **
Ultradetalhado ≤ 1:5.000 4,00 - 10,00 **
Fonte: Adaptado de IBGE (2007).
Onde: *observações/km2; **observação/ha
Para investigações mais generalistas acerca dos solos, são utilizados, normalmente, levantamentos exploratórios que abranjam grandes porções do espaço. Os levantamentos de reconhecimento, por sua vez, são executados para fins de avaliação qualitativa e semiquantitativa de solos, visando à estimativa do potencial de uso agrícola e não agrícola.
Quando surge a necessidade de representações mais localizadas, como nos planejamentos gerais de uso e conservação do solo, convém executar levantamentos semidetalhados, em que as classes de solos são determinadas no campo por observações a pequenos intervalos no interior das áreas de padrões diferentes (Embrapa, 1995). No caso de levantamentos detalhados, são separadas unidades de mapeamento bastante homogêneas, com menores variações. Para isto, as classes de solos são identificadas no campo, por meio de observações sistemáticas ao longo de topossequências representativas. Por conseguinte, esse tipo de levantamento é utilizado para gerar de uma base de dados adequada, que possa mostrar as
35 diferenças significativas dos solos, sendo empregada em projetos conservacionistas, áreas experimentais, uso das terras e práticas de manejo em áreas de uso agrícola, pastoril ou florestal intensivo, entre outros (Embrapa, 1995).
Nos levantamentos ultra-detalhados, são separadas as unidades de mapeamento com pequenas variações, muito homogêneas. Para tal, é percorrida toda a área no campo com intervalos mínimos entre as observações, por meio de malhas com dimensões de célula pré-definidas em função da escala e heterogeneidade da área. Por isso, este tipo de levantamento é utilizado para planejamento e localização de explorações muito pequenas, como por exemplo, em parcelas experimentais, áreas urbanas e industriais, projetos especiais de irrigação, entre outros (Embrapa, 1995). Os produtos finais dos levantamentos pedológicos são os mapas pedológicos e seus respectivos relatórios. O mapa pedológico representa a distribuição espacial dos solos em uma paisagem com a separação das unidades de mapeamento (Embrapa, 1995).
Espindola (2008) considera que os levantamentos exploratórios já alcançaram seus propósitos, pois, apesar de suas contribuições de ordenamento do território, a demanda atual requer informações de maior qualidade e com mais agilidade em sua disponibilização. Mapas em escala detalhada ou semidetalhada descrevem melhor o uso e manejo adequado do solo, uma vez que exemplificam fins específicos, que permitam, ainda, o monitoramento de certos atributos tais como: densidade,
porosidade, compactação, permeabilidade, condutividade hidraúlica,
agregação/estrutura, nutrientes entre outros (ESPINDOLA, 2008). Myers (1983) afirmou que levantamentos e mapeamentos de solos, quando executados em um nível de detalhamento adequado, tornam-se imprescindíveis para o planejamento, desenvolvimento e acompanhamento de diversas atividades agrícolas, tais como implementação de usos e manejos agrícolas adequados, garantindo, dessa maneira, a sustentabilidades dos agroecossistemas.
O mapeamento pedológico denominado clássico ou tradicional faz uso do método clorpt (Equação 1), em que o Solo (S) é resultado da interação de cinco fatores: clima (cl), organismos (o), relevo (r), material de origem (p) e tempo (t), verificados, geralmente, com base na interpretação de fotografias aéreas e na verificação a campo dos solos e das características associadas à paisagem (JENNY, 1941). Esse método, consiste basicamente na aplicação de um modelo amplamente
36 difundido que equaciona os fatores de formação do solo, em que o tempo assume a posição de variável independente, enquanto as demais seriam variáveis dependentes. A resultante da aplicação desse modelo corresponde ao solo no ponto específico (McBRATNEY et al., 2000). S = f (clorpt) Eq. 1 Onde: S = Solo; cl = clima; o = organismos; r = relevo; p = material de origem; t = tempo.
Os métodos mais frequentes para fins de coleta de dados, descrição de características dos solos no campo e verificação de limites entre unidades de mapeamento são: investigações ao longo de transeções, levantamentos de áreas- piloto, estudos de topossequências representativas, sistematização de malhas e método do caminhamento livre (Embrapa, 1995).
Segundo Curi e Kämpf (2012), entre esses métodos, o mais utilizado para trabalhos de levantamento de solos é o estudo de prospecções em topossequências, em que são identificadas as topossequências que representem de melhor forma as variações da paisagem e em que são definidas as unidades de mapeamento, que abrangem diversos aspectos topográficos, de forma que seja possível estabelecer relações geomorfológicas com os pédons ou perfis devidamente identificados. Os métodos de prospecção de solos por levantamentos de áreas-piloto constam de investigações minuciosas de áreas menores, representativas de uma determinada feição fisiográfica e, posteriormente, são extrapoladas para o restante da área (Embrapa, 1995). Desta forma, polígonos originados da interligação dos pédons contíguos (polipédons) similares resultam em um esboço aproximado da distribuição dos solos na paisagem, que, após devidas correções, é o fundamento para a elaboração de um mapa de solos (BRADY; WEIL,1996; DOBOS; HENGL, 2009).
37 A aquisição de conhecimentos empíricos proporcionada pelas atividades de levantamento e mapeamento de solos por métodos convencionais leva o pedólogo a compreender a ocorrência das classes de solos situadas em sua região de trabalho, o que lhe permite prever, entre outros aspectos, sua distribuição, bem como organização na paisagem. Formam-se, assim, padrões de informações para a formulação de hipóteses em relação à ocorrência dos solos, que são comprovadas, posteriormente, com prospecções de campo (RIBEIRO et al., 2012). Assim, o mapeamento de solos clássico está sujeito à subjetividade desse profissional e de experiências em trabalhos anteriores (HUDSON, 1992).
Nos países em desenvolvimento, existem poucos trabalhos que envolvam o mapeamento de solos em escalas mais detalhadas, devido à morosidade com que são produzidos, bem como às despesas exigidas por técnicas de mapeamento tradicionais (Embrapa, 1995). Além disso, os mapas de solo analógicos obtidos a partir desses procedimentos não conseguem explicar muitos dos elementos naturais que podem estar interagindo com o solo. Geralmente, muitas destas informações são elaboradas por intermédio de modelo elaborado por um pedólogo experiente, que, em decorrência, não tem como disponibilizar os dados que nortearam o trabalho de mapeamento de solos, dados que poderiam apoiar o subsequente processo de planejamento do uso das terras (BURROUGH, 1993).
Esses aspectos não configuram, por si só, fatores limitantes a essa técnica, porém comprometem sua eficiência, visto que utiliza as relações existentes entre os atributos do solo e as feições ambientais identificáveis como base para o mapeamento dos solos de uma região de maneira interpretativa. (ESTADOS UNIDOS, 1993). Por conseguinte, esses modelos de previsão empíricos são qualitativos, complexos e raramente transmitidos de maneira clara, apesar de seguirem normas técnicas específicas e protocolos adotados (McBRATNEY et al., 2000).