Um dos principais fatores que influenciam a qualidade das relações dentro de uma família, em situação de dificuldade, é o stress (Pereira, 2006) que se caracteriza por uma relação peculiar da pessoa com o meio envolvente que acarreta consequências no seu bem-estar: quando esta influência é negativa, a pessoa entra em desequilíbrio a vários níveis (Ramos, 2001). São inúmeras as teorias que tentam explicar o stress, os seus fatores desencadeadores e o tipo de repercussões que tem na vida das pessoas, sendo importante, neste contexto, fazer referência às teorias biológicas e cognitivas.
Teorias Biológicas e Cognitivas do Stress
Selye (1956 cit in Bianchi, 2000) foi o responsável pelo aparecimento das teorias biológicas do stress, definindo o stress biológico ou Síndrome de Adaptação Geral (SAG), e defendendo que se fala de stress desde o momento em que existe a libertação de hormonas (e.g.: catecolaminas, glicocorticóides e mineralocorticóides), que vão levar a alterações no organismo. Faltava, no entanto, a relação da pessoa com o elemento stressante, e foi acrescentada à definição de stress o facto deste poder resultar de elementos interiores ou exteriores, aos quais a pessoa pode não possuir capacidade de resposta: a avaliação da pessoa face à situação stressante quer a identifique como ameaçadora ou um desafio positivo, acarreta manifestações biológicas SAG. Numa segunda fase, a pessoa avalia se tem as capacidades necessárias de resposta para enfrentar a situação, e como poderá usar os seus mecanismos de coping para lidar com ela (Bianchi, 2000).
Mais tarde, surgem as teorias cognitivas de atribuição, que cada pessoa dá à situação stressante e ao ambiente envolvente, deixando-se, ou não, afetar por esta. Nesta avaliação pessoal vão interferir fatores intra e extrapessoais, e assim, uma situação pode ser considerada stressante para determinada pessoa e não para outra (Cortina, Fitzgerald e Drasgow, 2002).
De acordo com Bianchi (2000) são diversos os fatores que podem estar na origem do stress. Vaz (2007) divide os fatores indutores de stress como podendo ser de natureza física (e.g.: privação de alimentos), psicológica (e.g.: conflitos interpessoais), e social (e.g.: dificuldades económicas), realçando-se a não linearidade dos fatores, i.e., um fator do tipo social pode acarretar o desenvolvimento de fatores do tipo psicológico. Ao longo da vida, a pessoa vai adaptando as suas respostas às circunstâncias, assumindo atitudes para dar resposta aos factos. O aparecimento de uma nova circunstância poderá desencadear uma situação de stress (Pinto e Silva, 2005) como quando a pessoa não está preparada para lidar com a nova situação (e.g.: filhos com necessidades especiais
de apoios), sendo necessários recursos e estratégias (Vaz, 2007) para lidar com as situações. Uma perceção distorcida da situação poderá fazer aumentar o stress, isto porque a pessoa pode desenvolver a ideia de que não tem o controlo necessário sobre o acontecimento com que está a lidar (Pinto e Silva, 2005). É neste ponto, na perceção da situação e escolha da melhor estratégia para lidar com ela, que se vai centrar o Projeto em causa.
Agora fazendo uma referência específica à parentalidade, e segundo Minelto, Crepaldi, Bignas e Moreira (2012), a educação dos filhos surge como o principal desafio associado à parentalidade, sendo agravado nos casos de Necessidades Educativas Especiais (NEE) porque todas as expetativas são questionadas. Nestes casos, todos os sentimentos que as dúvidas, receios e incerteza provocam nos prestadores de cuidados vão influenciar diretamente a interação com os filhos, pelo que se torna fundamental um apoio e orientação nestes casos.
Estes fatores e situações indutoras de stress, implicam diversos sinais que alteram o funcionamento típico da pessoa, pois sofrem a influência da personalidade de cada um, assim como da situação que despoleta o stress, são eles: alterações do comportamento (fumar e/ou beber mais que o habitual, isolar-se das outras pessoas, e manifestar insatisfações), emocionais (perder autoconfiança, manifestações de cólera e raiva), cognitivas (pensamentos repetitivos, dificuldades na concentração, dificuldades na tomada de decisão) e através de sintomas vegetativos (dores de cabeça frequentes, aumento da tensão arterial, perturbações do sono (Vaz, 2007).
No Projeto em causa o stress surge associado ao ambiente familiar, à parentalidade e às exigências do diagnóstico e das limitações a ele associadas. A parentalidade emerge como uma fase importante na vida da pessoa, que acarreta oportunidades de crescimento pessoal, mas também um risco de descompensação, que poderá comprometer o percurso vital, pelo que a intervenção desde cedo poderá ter efeitos muito positivos no desenvolvimento das interações familiares, e consequentemente, da pessoa (Minelto et al, 2012; Pinto e Silva, 2005).
A parentalidade implica uma interação entre pais e filhos para um desenvolvimento saudável da mesma e a maneira como os pais atuam vai influenciar, de forma direta ou indireta, positiva ou negativa, o comportamento da criança (Ramalho, 2001).
Os estilos parentais dizem respeito à forma como os pais apoiam o seu filho no seu desenvolvimento e crescimento, fazendo com que este explore o mundo, transmitindo-lhe valores como o respeito, tolerância e a aceitação dos outros (Ramalho, 2001). Existem diferentes estilos parentais: o permissivo, o autoritário, o superprotetor e o democrático, influenciados pela maneira como os próprios progenitores foram educados (Urra, 2007). Pais de filhos com desenvolvimento atípico utilizam estilos parentais mais autoritários e com maior controlo e supervisão, diminutos na expressão de afeto (Ramalho, 2001). Estes resultados evidenciam a necessidade de redes de suporte adequadas e específicas que visem diminuir os níveis de stress associados, e orientar as práticas educativas (Minelto et tal, 2012).
A atipicidade desenvolvimental vai influenciar os níveis de atuação parental e implicar um esforço suplementar em termos de adaptação e organização do sistema familiar, tornando a família mais vulnerável (Coutinho, 2004). As competências parentais implicam ter a capacidade de lidar com diferentes tipos de situações-problema onde é indispensável identificar o problema, criar e avaliar alternativas, selecionar a melhor solução, passar à ação e finalmente saber avaliar as consequências (Correia e Serrano, 1988).
Rapidamente se estabelece a ligação de que a formação de uma família e o seu desenvolvimento constituem por si só fatores indutores de stress (Alarcão, 2007). Segundo García, Marín e Currea (2006) o stress parental vai ter repercussões diretas nos níveis de ansiedade das crianças, influenciando toda a relação. A dinâmica da relação familiar vai influenciar diretamente domínios como autoconceito e autoestima, tanto no cuidador como naquele que ele cuida. Assim, a presença de stress parental tem influência também na perceção que os pais têm dos filhos, afetando-a. Estes podem ver os seus filhos de forma mais negativa, tendo menos capacidade de resolver os problemas (Martín, Paul e Roncon, 2000; Peixoto, 2004).
Segundo Knox et al., (2106), o stress vivido pelos pais de filhos com necessidades de apoios passa pelo medo e receio de que “não vão estar sempre lá”. Esta incerteza do futuro e do que será do seu filho quando eles próprios já não tiverem presentes, despoleta nos prestadores de cuidados níveis elevados de stress e ansiedade, bem como o desejo de ter a vida com que tinham sonhado e as dificuldades em perceber e aceitar a nova realidade, aquando do nascimento de um filho com necessidades especiais de apoios.
A sobrecarga associada aos cuidadores e as repercussões nas rotinas vai influenciar o tipo de relação com aqueles a quem prestam cuidados, variando esta sobrecarga com inúmeros fatores: diagnóstico, intensidade dos sintomas, tipo e frequência de apoio e mesmo as características dos cuidadores, as redes formais e informais de suporte, i.e., o tipo de apoios, quer a nível social, quer a nível familiar e de amigos, que a pessoa tem ao seu dispor (Barroso, Bandeira e Nascimento, 2007).
As experiências de vida dos prestadores de cuidados também vão ter um impacto na forma como cuidam dos seus filhos. A sua personalidade, competências sociais, níveis de autoestima, capacidade de resolução de problemas e compreensão dos papéis parentais (Correia e Serrano, 1988), condições sociais e habilitações literárias (Portugal e Alberto, 2015), são algumas das áreas fundamentais no desempenho das funções parentais porque estão intimamente ligadas com a aceitação das responsabilidades inerentes.
Enquadrando a importância da intervenção na família no Projeto em estudo é agora preponderante referir que tipo de intervenção foi pensado pela Estagiária como ferramenta de ajuda na diminuição dos níveis de stress parental e de melhoria na comunicação dentro do sistema familiar, em especial na relação prestadores-clientes.