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Wild animals and royals

5 Public service international news

5.2 Diversification of the international news flow

5.2.2 Wild animals and royals

O que pretendo fazer pelo que diz respeito a A Hora da Estrela é induzir o leitor clariceano a ver Macabéa sob uma luz diferente.

Muito dizem-nos os vários títulos possíveis que a autora atribui a esta obra. O segundo e mais conhecido, com o qual o romance é noto, refere-se ao facto que "na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um" (Lispector, p. 32), e estrela de cinema é o que a protagonista, em vida, sonha ser, mas para ela será só o momento da morte a constituir _ exactamente _ a sua "hora da estrela".

Os outros títulos falam todos em algo que podia ter sido e não foi, numa falta, numa derrota, num vazio. Num destino traçado, num fado final, precisamente, numa beleza por florescer que não floresce, se não no e com o acabamento.

A culpa é minha: eu, o narrador, não consegui redimir esta menina da sua miserável existência e do seu precoce destino final; Ela que se arranje, pois o que posso

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eu fazer, eu que só estou a narrá-la? E vocês? E toda a gente? O direito ao grito é mesmo algo que deveria ser concedido, também, e sobretudo, a quem nem gritar nunca ousa; e Quanto ao futuro? Quanto ao futuro é só isso, pois não existe, para certas pessoas, um futuro, e o único futuro que Macabéa chega a conhecer é, talvez, aquele "futuro esplendoroso" que permanece só uma quimera, que a grotesca e esquálida Madame Carlota44 lhe prediz e que Rodrigo S. M. sonha para ela mas não lhe consegue traçar; ou é constituído somente pela "saudade do futuro" que lhe é dada pelo "cais imundo" (Ibid., p. 33) preenchido pelo barulho dos navios a partirem para o ignoto e que na hora da morte irá voltar? A história de Macabéa é o verdadeiro Lamento de um blue, e não é preciso, para tanto, um bar nocturno dum bairro negro de não sei qual metrópole imersa num canto dos Estados Unidos de América, não é preciso instrumentos nostálgicos nem vozes escuras e rasgadas, pois basta um "violino plangente tocado por um homem magro bem na esquina" (Ibid., p. 27) e uma dor de dentes "levíssima" mas "constante" (Ibid., p. 26). Ela não sabe gritar, pois nunca grita nem nunca gritou, nem sabe reivindicar o próprio "direito ao grito": ela "lutava muda" (Ibid., p. 87). Uma sensação de perda acompanha e permeia toda a narração, desde o nascimento da menina do nome imortal _ num seu estudo de H E, Berta Waldman releva que "Macabéa" é um nome de origem bíblica que remete ao Livro dos Macabeus, considerado apócrifo pela tradição judaica, que conta a rebelião dos guerreiros macabeus à helenização empreendida por Antioco Epifanes (175 a. C.), pelo que "Macabéa é, como os macabeus, vítima da opressão dos poderosos, e, como eles, ela resiste" (Waldman, p. 97) _ que em breve fica órfã, até a morte da mesma. A propósito de perda, nada se perde tão facilmente como um Assobio no vento escuro da noite, que afoga num vendaval que o sepulta, sem que ninguém o oiça. Como já disse, Eu não posso fazer nada, ou posso fazer tudo, depende do ponto de vista, mas "é que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina" (Lispector, p. 14), e o que querem que eu vos faça, se a vida dela lia- se-lhe escrita no rosto? Quando a morte é o maior e mais glorioso acontecimento, o que se verifica sobretudo quando prematura, como neste caso, obriga-nos a um Registo dos factos antecedentes ao principal, a narrar a existência do protagonista desta morte ilustre. O solícito Rodrigo também se preocupa em nos avisar de que, embora queira

44 Esta personagem é mencionada, no romance, às vezes como "Madame Carlota" e às vezes como

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fazer o seu melhor para contar os factos com frieza e distanciamento, no fundo se trata duma História lacrimogénica de cordel, que, como tal, não é imune de certo patetismo.

A de Macabéa é uma história comum, sendo a demonstração de como uma história comum pode ser cheia de encanto. De beleza e encanto a nascerem como ervinhas entre as pedras da calçada, como o capim que a jovem admira até ao fim, e onde menos se estaria à espera:

Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam (Ibid., p. 16),

mas cada uma delas é um indivíduo, e cada indivíduo é um mundo. Uma vida tão "discreta" como aquela de Macabéa, que discreta não a quis (calhou-lhe) e até achava gostar mais de passá-la no grande ecrã _ como os seus ídolos, Marilyn e Greta Garbo45 _ não termina com uma Saída discreta pela porta dos fundos (pois já o nascimento dela fora uma "entrada discreta pela porta dos fundos") mas sim com uma saída estrepitosa pela porta principal. É por isso que Macabéa nasce, vive e morre _ por assim dizer _ ao contrário.

Gostava, retomando o discurso, que Macabéa fosse vista, pelos leitores de H. E., sob outra perspectiva. Macabéa a murcha a "magricela" (Lispector, p. 74) a "autófaga" (Medeiros, p. 2) a imigrante a pobre a inexistente; Macabéa "café frio" (Lispector, p. 30) Macabéa "cabelo na sopa" (Ibid., p. 66) Macabéa "corpo cariado" (Ibid., p. 39); também será _ talvez _ Macabéa a bonita? Macabéa a que não cede? Macabéa a indestrutível? Macabéa a viva, a sensível, a sensual, conscientemente auto irónica e inconscientemente condescendente? Num sintagma só, Macabéa a "flor fresca" (Ibid., p. 43)? Quanto a mim, inúmeros detalhes _ quando mais e quando menos evidentes _ disseminados pelo romance inteiro, dizem-me que sim.