O homem aproximando-se do portão é um bom can- didato a suspeito, já que anda a pé em vez de guiar um automóvel, ou seja, usa o espaço público da cidade de uma maneira que os moradores do condomínio re- jeitam. Condomínios fechados, o novo tipo de moradia fortificada da elite, não são lugares para os quais as pessoas caminhem ou pelos quais passem. Eles são distantes, para serem aproximados só de automóvel e apenas por seus moradores, uns poucos visitantes e, é claro, os empregados, que devem ser mantidos sob controle e comumente são encaminhados para uma en- trada especial – a famosa entrada de serviço. Alguém com a aparência errada que insiste em caminhar só pode suscitar dúvidas e reações ambíguas nos emprega- dos, que têm que reproduzir na prática os códigos de classificação de seus patrões.
– Teresa Pires do Rio Caldeira, 2000, em “Cidade de muros”15
Quando a cidade se torna um agregado de enclaves, certas condutas passam a compor um quadro de referências que podem tornar qual- quer um num suspeito. Isso não ocorre somente pela materialidade da cidade, mas sim pelo espaço social que abriga e do qual faz parte. Em alguns casos, basta ser um pedestre ou um usuário do espaço identifica- do como não-local ou a realizar atos que possam ser considerados inco- muns. Para além da descrição contida no excerto, esse tipo de situação foi experimentada durante a pesquisa realizada em Águas Claras. Ao longo do percurso, ocorreu um episódio no qual ocorreram inte- rações não programadas sintomáticas do espaço social que se repro- duz em Águas Claras, seja por meio de seus muros e empenas, seja no comportamento de seus habitantes diante do espaço livre de domínio público.
O caso ocorreu durante a realização de fotografias. Aqui toma-se a li- berdade de apresentar a situação em estilo narrativo, tornando mais claro o acontecimento.
“Caminhava pelo bairro fazendo paradas esporádicas para realização de fotogra- fias. Com mochila nas costas e máquina fotográfica em mãos, seguia registrando elementos elencados no roteiro de observação. Muros, empenas e cercas, o percurso, usos que pudesse avistar, equipamentos de segurança e vigilância, etc.
Em um determinado momento, ao parar para tirar mais algumas fotos de uma empena na qual havia uma câmera de vigilância, percebi, na rua perpendicular à qual me encontrava, surgir alguém. O homem caminhava com passos rápidos em minha direção. Usava uniforme e logo pude identifica-lo como porteiro ou
segurança de algum edifício – aparentemente daquele cuja empena eu acabara de fotografar. Me voltei para o sujeito e, aproveitando que ele ainda se encontrava consideravelmente distante, fotografei-o sem constrangimento.
Ao se aproximar, ele pareceu me observar com atenção e logo emitiu um “boa tar- de” seguido de uma interpelação, questionando o que eu estava fazendo. Expliquei que estava tirando fotos, que se tratava de uma pesquisa e que era aluno da UnB. Ele escutou em silêncio, sério e assim que terminei disse que eu deveria tomar cui- dado, que ele me vira pela câmera e achara estranho, mas logo notou que não era nada sério, mas considerara que alguém da segurança do condomínio deveria ave- riguar. Eu respondi que estava tudo bem e ele disse mais uma vez que deveria ter cuidado – com o que, exatamente, não sei dizer – antes de se virar e ir embora.”
Em uma rua com raros pedestres, um único passante chama atenção. Quando esse passante resolve, então, tirar fotografias, a situação se agrava. Nesse caso, pareceu fazer soar um alerta, levando um funcioná- rio do condomínio residencial fechado a se deslocar para o exterior do enclave para proceder com uma verificação de quais intenções tinha o pedestre. Vale enfatizar: o funcionário deixou seu posto para ir à área pública inquirir um passante acerca do que estava fazendo ali.
Sintomático, esse episódio demonstrou como a indiferença pode ser completamente obliterada na busca por apaziguamento. Incomodado pela presença registrada pela câmera de segurança, o homem interpelou o indivíduo que estava do outro lado da lente com a clara intenção de se sentir seguro. Não se pode dizer se havia alguma diretriz elaborada pe- los condôminos sobre como os trabalhadores do condomínio deveriam proceder em situações similares, mas o comportamento do funcionário
No ponto de fuga da fotografia, no fim da calçada, o segu- rança do edifício.
Fonte: Arquivo do autor. Figura 39:
reflete como a lógica dos enclaves está introjetada e é capaz de exercer influência para além dos muros.
Em seu projeto, Águas Claras parece ser a cidade imaginada para o pe- destre, seu discurso se constrói nesse sentido. Mas como isso se materia- liza efetivamente? A questão da estrutura disponível para o percurso a pé é bastante relevante nesse caso. Isso se dá simplesmente pelo fato de que uma carência ou defasagem da estrutura pedonal torna a prática ur- bana muitas vezes difícil, custosa ou até mesmo inviável. Daí é possível dizer, entre outros condicionantes, o que o espaço e a cidade comuni- cam e o que expressam em sua materialidade.
Assim, é pertinente tecer alguns comentários, ainda que sucintos, so- bre a maneira pela qual o pedestre é recepcionado e conduzido pelos espaços livres do bairro. Essa interação entre equipamentos, estrutura e outras contingências nos espaços do bairro que afetam o pedestre têm papel relevante.
Em geral, o que se percebeu foi um trato pouco cuidadoso com as estruturas pedonais. As calçadas são, na maioria das vezes, estreitas e irregulares. Em outras situações, postes, lixeiras ou equipamentos de publicidade estão postados no meio do percurso, criando ainda mais entraves para a circulação.
Aspecto ainda mais marcante se dá com relação à rota do metrô, cujos trilhos cruzam o bairro de ponta a ponta, partindo, literalmente, a ma- lha urbana ao meio com um largo vale cercado – como se vê nas figu- ras 40 e 41. As pontes com comércio para uso exclusivo de pedestres
Postes no meio da estreita calçada dificultam o deslocamen- to na Avenida Castanheiras.
Fonte: Arquivo do autor.
Figura 40: Trilho do metrô afundado e cercado corta o bairro ao meio. Fonte: Arquivo do autor.
Trilho do metrô afundado e cercado corta o bairro ao meio. Fonte: Arquivo do autor.
Figura 42:
previstas por Paulo Zimbres nunca foram construídas e as oportuni- dades de se cruzar de um lado para o outro são poucas: nas estações ou em pequenos trechos que desfrutam de percursos e pontes para os automóveis. Nesse último caso, estão instalados pequenos e estreitos pedaços para a travessia de pedestres, notadamente preteridos.
Por fim, não se pode deixar de comentar os muros, grades e empenas cegas, que constantemente são encontrados acompanhando longos tre- chos de calçadas em Águas Claras. Trata-se da relação estabelecida na interface entre o público e o privado.