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1. INTRODUCTION

1.1 Overweight and obesity

1.2.1 White adipose tissue (WAT. p. 8

Embora os primeiros movimentos de Lacan apontem para uma tentativa de elevar a psicanálise a uma ciência, ele parece caminhar, à medida que evolui em seu pensamento, em direção a um modelo metafórico capaz de dar conta das especificidades do sujeito. A construção de seu arcabouço teórico só pôde se dar, à medida que Lacan, tomado pelas idéias de seu tempo, lança mão do registro do simbólico, como já vimos, um dos três termos postulados pelos estruturalistas. Isso lhe permitiu sublinhar tudo o que, em Freud, não poderia ser explicado ou retomado sem tal referência.

Como salientamos, o método estruturalista foi um movimento que obteve adesão de vários intelectuais de diferentes campos das ciências humanas. Mas, embora Lacan, em determinado momento, tenha se aproximado desse método, no decorrer de seu percurso, parece-nos ter se distanciado dele. Na verdade, Lacan aproxima-se das idéias de Saussure sobre o signo lingüístico, de Jakobson sobre os eixos da linguagem e de Lévi-Strauss sobre a ordem simbólica, fundada a partir da proibição do incesto, porque isso lhe serviu como

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instrumento para responder às indagações advindas tanto da clínica quanto da sua leitura da obra de Freud. Ao que parece, Lacan avizinha-se do estruturalismo porque este, postulando a ordem simbólica e a estruturação da linguagem, pôde ajudá-lo a pensar, também, a estruturação do inconsciente. O estruturalismo foi tomado como instrumento que tornou possível fundamentar a dimensão simbólica dentro do corpo teórico da psicanálise.

A noção de estrutura, em Lacan, foi sendo construída, e não nos parece estar nem acabada, nem se constitui numa noção homogênea ao longo de seu ensino. O que pretendemos mostrar, entretanto, é que tal noção tem uma aproximação inseparável, pelo menos como a apreendemos, com a noção de linguagem.

Acerca de Lacan ser ou não um estruturalista, Miller alega o seguinte:

[...] Lacan é estruturalista, mas um estruturalista radical, pois se ocupa da conjunção entre a estrutura e o sujeito, enquanto a própria questão não existe para os estruturalistas, fica reduzida, é zero. Lacan, ao contrário, tentou elaborar qual é o estatuto do sujeito compatível com a idéia de estrutura. (MILLER, 2002, p.24). O problema que, possivelmente, Lacan encontrou foi que a análise estruturalista tende a deixar de lado a história do homem e esvaziar a ação humana de sua individualidade, como já sugerimos. Como seria possível uma psicanálise na qual o homem é destituído de sua história singular? É claro que, em Lacan, em vez de indivíduo temos o sujeito historicizado pelo Outro dada sua condição de humano , mas com uma certa responsabilidade de se fazer sujeito da própria história.

Mais adiante no texto citado, o autor continua: [...] Lacan não é de modo algum estruturalista, pois a estrutura dos estruturalistas é uma estrutura coerente e completa [...], enquanto que a estrutura lacaniana é fundamentalmente antinômica e incompleta. (MILLER, 2002, p.24).

A partir do recurso à noção de simbólico, Lacan pôde redefinir conceitos cruciais em Freud, que sem esse registro perderiam seu sentido. A noção de castração e Édipo, a de falta fundamental do objeto, por exemplo, foram alguns deles. O Édipo e a castração, aliás, se tornariam conceitos insustentáveis se não tivessem sido lidos por Lacan como momentos lógicos da estruturação do sujeito, ao invés de serem tomados, exclusivamente sob a ótica imaginária, encenados na família ocidental, tendo fixas as pessoas e não suas funções.

Lançar mão da ordem simbólica permitiu a Lacan diferenciar o lugar do outro pequeno outro especular, o semelhante, do lugar do Outro grande Outro simbólico , ambos participantes da constituição da estrutura do sujeito. Elaborar a noção de que a estruturação da subjetividade se dá a partir e pelo outro, tanto o semelhante como o Outro da

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linguagem, foi um avanço para a clínica e a teoria psicanalítica. Distinguiu, então, a constituição do eu a partir da relação especular com o outro semelhante e a constituição do sujeito em relação ao grande Outro, lugar da lei simbólica, aliás, de onde lhe vem sua verdade. Souza objetiva que: Isso quer dizer que o grande Outro [A] adquire, em sua condição mais irredutível, a função de um lugar, tornando-se equivalente à própria noção de estrutura. (SOUZA, 2004, p.33).

Lacan, em A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud (1957), texto no qual subverte de certa forma o algoritmo saussuriano, afirma que a experiência analítica descobre no inconsciente uma estrutura de linguagem pelo fato de que a linguagem, com sua estrutura, preexiste à entrada de cada sujeito num momento de seu desenvolvimento mental. (LACAN, 1957, p.498). A estrutura preexiste ao sujeito, mas é ela também a única construção possível deste frente ao real de seu desamparo. O sujeito apresenta-se como objeto dessa estrutura, porém tem que ser dela, ao mesmo tempo, seu sujeito.

Apesar do uso dos conceitos tirados de Saussure, como adiantamos acima, sobre estes Lacan (1957) promove uma intervenção. Destaca ele, no texto citado, que não podemos sustentar a ilusão de que o significante represente o significado, pois que o significante não possui uma relação necessária com o significado, mas contingencial. Dá, assim, a supremacia ao significante, mais especialmente à cadeia significante, que, com seu caráter de pura diferença , produz o sentido. Ele persiste em que é na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que é capaz nesse mesmo momento. (LACAN, 1957, p.506).

O significante importa a Lacan uma vez que faz surgir o sujeito nos espaços da cadeia. A significação não é dada pela associação entre significante e um significado, porque o sujeito é o lugar da significação, pois o significante só opera por se encontrar presente no sujeito.

Assim, para, definitivamente, demonstrar que a estrutura lacaniana está intimamente relacionada à estrutura de linguagem, reproduzimos as palavras de Lacan parafraseando um texto bíblico, que diz que a letra mata, mas o espírito vivifica3 :

É fato que a letra mata, dizem, enquanto o espírito vivifica. Não discordamos disso, já que tendo tido que saudar aqui, em algum ponto, uma nobre vítima do erro de procurar na letra, mas também indagamos como, sem a letra, o espírito viveria. No entanto, as pretensões do espírito continuariam irredutíveis, se a letra não houvesse comprovado produzir todos os seus efeitos de verdade no homem, sem que o espírito

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tenha que se intrometer minimamente nisso. Essa revelação foi a Freud que ela se fez, e ele deu a sua descoberta o nome de inconsciente. (LACAN, 1957, p.512). A linguagem é estruturante, porquanto, só pela linguagem, acendemos à condição humana, o que pressupõe uma perda. Parece-nos verdade que a letra mata, pois a letra, o significante, mata o natural do homem, sulca no real as suas marcas. Mas, ao contrário do que enuncia Lacan, o espírito como aquele que dá o sopro de viva, parece-nos imprescindível. Se usarmos a metáfora da criação humana, vamos verificar que é verdade o fato de que a palavra de Deus tenha sido primeiramente enunciada sobre o barro. Portanto, a letra dá forma ao ser. Todavia também é verdade que o Espírito sopra-lhe a vida nas narinas fazendo-o sujeito e dando-lhe, assim, a palavra. A palavra que, enunciada pelo sujeito, lhe diz de sua verdade.

Miller (2002) considera que, na estrutura postulada por Lacan, o único dado inicial é o grande Outro, a estrutura de linguagem que preexiste ao sujeito. A estrutura de Lacan captura um ser biológico nas malhas da linguagem. Assevera o autor que, sendo o homem um ser vivo o é, no entanto, diferenciado, pois é um ser vivo que fala, diferenciação que traz conseqüências fundamentais para este ser, no nível de seu corpo. O corpo do sujeito é, necessariamente, submetido ao significante que vem do grande Outro. Isso promove uma falta na estrutura de Lacan. Não uma falta como erro, mas como condição mesma de existência da subjetividade. A fim de que o sujeito apareça, torna-se imprescindível que o corpo seja mortificado pela palavra. Assim, o sujeito estrutura-se a partir e pela perda de objetos.

Podemos constatar que a noção de estrutura em lingüística, como evidencia Leite, remete à noção de um sistema constituído de unidades formais opositivas e delimita um campo pela exclusão preliminar de toda relação que um sujeito entretém com sua palavra. (LEITE, 1984, p.48). Será exatamente esse espaço deixado de fora o que constitui o espaço específico do campo psicanalítico e, por conseguinte, da especificidade da estrutura em psicanálise.

A estrutura interessa à psicanálise desde que inclua o sujeito, e isso quer dizer que nosso campo se estabelece na relação desse sujeito com sua palavra, portanto na relação do sujeito como sua palavra singular. É pela palavra que o sujeito põe em cena o real que o acomete. Dito de outro modo, é na e pela palavra que o sujeito põe em cena a falta que o funda. Portanto, na estrutura em psicanálise, estão incluídos o real e o sujeito, exatamente aquilo segregado na estrutura dos estruturalistas. A estrutura para Lacan está ligada aos três registros, simbólico, real e imaginário, nos quais o sujeito se vê constituído, mas se constitui.

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A estrutura lacaniana remete ao fato de que há um buraco no simbólico e, portanto, enquanto referido fundamentalmente ao real que a estrutura se constrói, sendo que o real se define como o estritamente impensável, instituído pelo fato de haver inconsciente enquanto efeito da linguagem. (LEITE, 1984, p.52).

É sobre esse real que a psicose nos dá notícias de forma irremediável.

Dito isso, passamos agora para a noção de estruturas subjetivas, das quais nos interessa a psicose nas suas especificidades.