A aproximação às experiências subjectivas dos imigrantes, necessária para analisar os seus processos migratórios, a sua inclusão nos diferentes sistemas funcionais da socie- dade portuguesa e as estratégias adoptadas para a rentabilização (ou não) do seu capital humano, foi realizada através de uma série de entrevistas em grupo51dirigidas a imi- grantes de diferentes nacionalidades. O intuito das entrevistas realizadas foi o de obser- var e registar os pontos de vista dos imigrantes que participaram no processo de entre- vista em grupo, relativamente ao conjunto de questões consideradas pertinentes para o presente estudo. O objectivo final foi o de possibilitar, através da conjugação dos conhe- cimentos teóricos (apresentados na capítulo 1), da informação estatística (capítulo 2) e do trabalho empírico, a construção de uma tipologia que retrate as principais formas da imigração qualificada em Portugal.
A técnica do focus group permite empreender o tipo de exploração comum às entre- vistas individuais e, simultaneamente, proporciona a oportunidade de ouvir, conhecer e perceber as opiniões e posições do outro, e que tenderiam a não ser expressas no contexto de uma entrevista estandardizada em que a situação comunicacional neces- sária à recolha da informação desejada é artificialmente cons-
truída. Isto é, assume-se que, no âmbito de uma entrevista em grupo, o imigrante se encontre mais disponível para, em resul- tado da interacção com outros imigrantes e de um maior à-von- tade, resultante da partilha de um mesmo espaço físico com outros imigrantes que poderão encontrar-se na mesma situa- ção, expressar o seu ponto de vista sobre as temáticas dis- cutidas. Em contraste com outras técnicas de recolha de infor- mação, quer extensivas (como os inquéritos), quer intensivas
51 A técnica das entrevistas em
grupo é, também, conhecida pela sua denominação inglesa focus
group, ou por «discussão em
grupo». Ao longo do texto utilizar- -se-ão indiferenciadamente os três termos para nos referirmos ao processo de recolha de informação junto dos imigrantes altamente qualificados.
(entrevistas individuais, por exemplo), as entrevistas em grupo têm sido pouco explora- das por parte dos investigadores interessados na temática das migrações internacionais. Esta situação poderá, numa primeira impressão, parecer paradoxal dado que, se por um lado, se reconhece que, à semelhança do afirmado na generalidade das disciplinas sociais, o todo (a sociedade e os seus múltiplos grupos constituintes) é mais do que a soma das suas partes (os indivíduos), por outro lado, privilegia-se a adopção de proces- sos e instrumentos de investigação que tendem a individualizar os membros da socie- dade e dos seus grupos e/ou a aferir a influência dos processos colectivos de forma indi- recta (através, por exemplo, do levantamento das redes sociais dos indivíduos). É, assim, frequentemente descurado o facto da recepção, apropriação e mobilização dos recur- sos disponíveis na sociedade (quer por parte dos nacionais, quer por parte dos migran- tes) serem fenómenos colectivos que poderão ser compreendidos de forma mais ade- quada se forem conceptualizados como processos iniciados e prosseguidos de forma colectiva52. Como refere Schäffer (2001), «o repertório do qual os (investigadores) se servem para apreender empiricamente os factos colectivos encontra-se predominante- mente cunhado em termos individualizadores». É evidente que seria abusivo afirmar que as técnicas de análise mais comummente empregues no estudo das migrações interna- cionais (inquéritos, entrevistas individuais, observação, etc.) ignoram o efeito dos proces- sos colectivos sobre a percepção e a acção individual. Contudo, a própria natureza des- tes instrumentos de recolha de informação limita, de alguma forma, a sua capacidade de apreensão directa dos processos colectivos de construção de opiniões e de formu- lação de estratégias comportamentais que se poderão desenvolver no âmbito de uma discussão em grupo. Dito de outro modo, enquanto as técnicas de investigação assentes na inquirição do indivíduo permitem a observação de uma observação, as técnicas que tomam em atenção os processos colectivos autorizam a observação de observações.
As origens das discussões de grupo podem ser encontradas nos trabalhos pioneiros de Robert Merton e Patricia Kendall (1946) sobre a reacção dos espectadores aos filmes de propa- ganda transmitidos no decurso da II Guerra Mundial e sobre a avaliação da reacção dos ouvintes a determinados programas
52 Para uma análise clássica da
influência do colectivo sobre a percepção e o comportamento individual, cf. Becker (1953).
radiofónicos53. Os média e, sobretudo, a percepção das suas mensagens pelos recep- tores mantiveram-se como campo de aplicação central desta técnica de investigação até à década de 80. Deste modo, a técnica ficou durante muito tempo limitada e conotada com o estudo das reacções dos grupos aos produtos dos média considerados relevan- tes para a investigação (filmes, emissões radiofónicas, publicidade, propaganda, etc.), tendo assumido um papel particularmente relevante nos estudos do marketing e nos estu- dos de consumo. Em muitos casos, seguindo o entendimento inicial que Merton tinha desta técnica de investigação (Merton, 1987; Merton e Kendall, 1946), tratava-se de um processo de investigação suplementar a outros processos de investigação. Pretendia-se, com o recurso a esta técnica, adquirir conhecimentos mais aprofundados e adequados dos dados obtidos através de outras técnicas de investigação predominantemente de natureza quantitativa.
A partir dos anos 80, a técnica das discussões de grupo começa a adquirir uma cres- cente relevância como instrumento de investigação de direito próprio no amplo leque das técnicas de pesquisa utilizadas pelos cientistas sociais para recolher informação sobre a realidade social. A redescoberta da técnica das discussões em grupo, por parte dos aca- démicos, tornou necessária a adaptação das estratégias utilizadas, desde os anos 40, pelos pesquisadores no sector privado e lucrativo (dos estudos de mercado e de con- sumo) na realização das discussões em grupo, à realidade promovida pelo desenvolvi- mento do interesse em estudar outras audiências (Krueger e Casey, 2000: 7).
Deixando de lado a história do desenvolvimento da técnica dos
focus groups, e antes de passar às considerações sobre os cri-
térios de selecção dos grupos e dos seus participantes, adop- tados no presente trabalho, importa referir (de forma necessa- riamente breve) as principais características desta técnica de investigação.
Como é referido por Krueger e Casey (2000: 4), «o focus group não consiste apenas em juntar um conjunto de pessoas para
53 Na realidade, os referidos
autores desenvolveram e aplicaram uma técnica que denominaram de
Focused interview. Contudo, como
o próprio Merton reconhece num artigo de 1987 (Merton, 1987), existem semelhanças entre esta técnica e a técnica do focus group desenvolvida posteriormente.
conversar». É, antes, uma técnica de recolha de informação que assenta na constitui- ção específica de um grupo em função dos objectivos da investigação para os quais se espera que os membros do grupo contribuam com a sua própria experiência. A esco- lha dos participantes nos grupos é realizada de acordo com um conjunto de caracte- rísticas partilhadas por todos e que são consideradas relevantes para a investigação. Dada a centralidade do grupo no processo de recolha de informação, a selecção dos seus membros reveste-se de particular importância, uma vez que condiciona quer a inte- racção que se poderá estabelecer entre os membros do grupo, quer a obtenção de informação fiável e relevante para o processo de investigação. De forma sucinta e aten- dendo às considerações precedentes, o focus group pode ser definido como «um tipo especial de grupo (…) constituído com o objectivo de ouvir e recolher informações» de modo a melhor compreender o que os indivíduos pensam e sentem sobre determinada questão, produto ou serviço (Krueger e Casey, 2000: 4), ou como «um grupo de indiví- duos seleccionados e reunidos por investigadores para discutir e comentar, a partir da sua experiência pessoal, o assunto que constitui o objecto da investigação» (Powell e Single, 1996: 499).