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1.5 Leanings in Discussions and Actions on Justice in Global Health

1.5.7 The Way Forward with Global Justice in Health

escravidão estrangeiro.

5.3.6. As preocupações dos deputados com os problemas socioeconômicos ligados à escravidão.

Seguindo uma regularidade do jornal, O Abolicionista utiliza um texto já aparecido em outro lugar, agora se trata de uma representação da assembléia provincial do Rio de Janeiro para a assembléia geral. O texto mostra a situação da população agrícola do Rio de Janeiro e argumenta (direciona) para o pedido de fim da escravidão. Objetivamos mostrar como é sustentada uma posição do locutor de defesa de razões econômicas para o fim da escravidão por meio da constituição do alocutário (como deputado geral e como grande proprietário) e do trabalhador livre determinado em relação ao trabalhador escravo.

111 RESULTADO DA ESCRAVIDÃO

Transcrevemos de uma representação dirigida à assembleia geral pela assembleia provincial do Rio de Janeiro, verdadeiro comício agrícola, o seguinte trecho, no qual o nosso interior e a sua população acham-se fielmente fotografados. Aí se verá a que infeliz condição estão reduzidos pelo trabalho escravo os trabalhadores livres de uma província como a do Rio de Janeiro.

"Augustos e Digníssimos Srs. Representantes da Nação. ― Causa séria preocupação aos espíritos prudentes a crise que experimenta a propriedade agrícola, o fator mais importante da riqueza nacional, crise que se agravará dentro em pouco pelo aniquilamento do capital empregado em braços. A cultura do café, a mais rica desta província, não pode manter-se, nem desenvolver-se sem o trabalho manual, e a da cana, embora empregue máquinas que multiplicam o trabalho braçal, perderá avultados capitais que se acham empenhados nos grandes estabelecimentos industriais, se não forem aproveitados os elementos que encontram dispersos.

A numerosa população rural, sem educação, sem hábitos de trabalho, sem aspirações, definha. É desolador o quadro que se oferece às vistas do viajante que percorre o interior da província, e mais precária é sua posição nos municípios de serra abaixo, onde a fertilidade primitiva do solo já se esgotou e a incúria deixou que os férteis vales se transformassem em lagoas profundas, que intoxicam todos aqueles que delas se avizinham.

Os infelizes habitantes do campo, sem direção, sem apoio, sem exemplos, não fazem parte da comunhão social, não consomem, não produzem. Apenas tiram da terra alimentação incompleta, quando não encontram a caça e a pesca das coutadas e viveiros dos grandes proprietários. Destarte, são considerados uma verdadeira praga, e convém não esquecer, Augustos e Digníssimos Senhores, que mais grave se tornará a situação quando a esses milhões de párias se adicionar o milhão e meio de escravos que hoje formam os núcleos das grandes fazendas.

Contamos crescido número de habitantes (835.843), e freguesias aonde a densidade da população é importante; entretanto a nossa exportação anual de café e açúcar não vale mais que 80.720:$816, cabendo a média de noventa e poucos mil réis a cada habitante! (O Abolicionista, 1 de novembro de 1880, p. 5).

O texto, com o título “Resultado da escravidão”, é introduzido pelo comentário do locutor jornalista dO Abolicionista, dividido em enunciador coletivo e anuncia que reproduzirá no jornal uma representação dirigida, à assembleia geral, pela assembleia provincial do Rio de Janeiro. Do lugar de enunciador coletivo é dito que se trata da questão agrícola e da população do interior do Brasil, caracterizada como de infeliz condição, devido à existência do trabalho escravo, e isto direciona para o título do texto: “Resultado da escravidão”.

Podemos escrever, a partir do início do texto, o seguinte DSD, pois trabalho escravo determina os outros trabalhadores como:

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DSD 14

Trabalho escravo ├ infelizes trabalhadores livres.

Passa-se ao texto transcrito. Por meio de discurso direto tem-se a fala do locutor deputado provincial do Rio de Janeiro, dirigida aos locutores deputados gerais que são interpelados por meio do vocativo: “Augustos e Digníssimos Srs.”, que é reescrito por “Representantes da Nação”. O locutor deputado, então, dá lugar a um enunciador universal, num dizer que descreve e pondera sobre a situação econômica do país.

Se no texto da assembleia os alocutários são os deputados gerais, com a publicação do texto nO Abolicionista, o alocutário pode ser também os leitores do jornal ricos ou que estudaram, interessados nas questões econômicas e políticas do Brasil.

Na fala do locutor deputado podemos escrever o seguinte DSD relacionado à propriedade agrícola:

DSD 15

Crise ├ propriedade agrícola

O locutor deputado se divide em enunciador universal que analisa a situação do campo com a visão do economista e assim temos uma reescritura para “trabalho escravo”: “aniquilamento do capital empregado em braços”, metáfora que pode ser parafraseada por (envelhecimento, morte ou perda da força de trabalho do escravo). Partindo da continuidade do dizer enunciador universal pautado no saber da economia, do capital, podemos elaborar outro DSD para tratar da relação entre riqueza e mão de obra:

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DSD 16

Trabalho manual ├ café, cana ├ riqueza nacional

O enunciador analisa a condição dos moradores do campo, de onde podemos ver uma reescritura por expansão:

DSD 17

Os trabalhadores do campo são também os que podem invadir as “coutadas”, em

“Apenas tiram da terra alimentação incompleta, quando não encontram a caça e a pesca das coutadas e viveiros dos grandes proprietários”, esta palavra representa um pouco das divisões do espaço de enunciação da vigência legal da escravidão, no Brasil, significa a parte de terras reservada aos grandes proprietários para a caça e a pesca. E que, devido à situação precária dos trabalhadores do campo, as coutadas estão sob ameaça, pois neste espaço de enunciação

Moradores do campo ├ numerosos ├ sem educação ├ sem aspirações,

├ sem hábitos de trabalho ├ infelizes

├ sem direção ├ sem apoio ├ sem exemplos

├ não fazem parte da comunhão social ├ não consomem

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estes trabalhadores não podem desfrutar delas, ainda que necessitem. Os trabalhadores do campo são, então, caracterizados como os que não produzem e não consomem. O que pode ser uma ameaça aos grandes proprietários. Temos uma relação de sinonímia:

DSD 18

Diante deste quadro uma das conclusões para os argumentos de crise da propriedade agrícola é de que ela se agravará com a libertação dos escravos.

No último parágrafo do texto, o enunciador universal economista, se divide ainda em um enunciador coletivo, que fala do lugar de dizer brasileiro e da preocupação com a economia do país.

Desta forma, a direção argumentativa inicial do texto de que a existência do trabalho escravo torna infeliz o trabalho livre, se confirma, ou ao menos, dada a especificação do trabalho livre, se sustenta. Funciona ainda no texto uma argumentatividade por meio da força de palavras que direcionam para elementos do capitalismo tais como: propriedade, riqueza nacional, aniquilamento do capital empregado em braços, trabalho manual, trabalho braçal, não produzem, não consomem, grandes proprietários, grandes fazendas, exportação anual, assim podemos falar na sustentação de uma posição sujeito capitalista.

Veja-se que um texto, que parte da assembleia provincial do Rio de Janeiro para a assembleia Geral, direciona para a abolição da escravidão, devido à crise da economia. Por meio do dizer enunciador universal vemos que é necessário o fim da escravidão para que haja consumo e produção.

Temos, então, a movimentação de argumentação contrária à escravidão, e a sugestão de uma posição favorável ao desenvolvimento do capitalismo, na medida em que sugere mudança na forma de tratar o trabalhador do campo dando-lhe o que ele não tem. Deduzimos que seja um espaço de trabalho com salário, o que possibilitaria a produção e o consumo.

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Assim, os argumentos do capital direcionam para o fim da escravidão, é a futuridade que se pode deduzir deste acontecimento enunciativo. É uma constatação que parece estranha quando voltamos nosso olhar da atualidade para o capitalismo. Em nossa atualidade, tendemos a associar a exploração do trabalho escravo ao capitalismo, contudo o texto nos apresenta um direcionamento argumentativo de um lugar de dizer do saber da economia, que indica o fim da escravidão como possibilidade de ampliação do capitalismo, pois viabilizará a produção e o consumo. É uma constatação que é diferente de dizer que o capitalismo é contra o trabalho escravo, vemos que neste momento, e pelo que é dito nestas cenas do texto, foi contra, mas talvez seja justamente nesta forma do saber da economia, nesta forma de tratar o trabalho escravo que houve contribuição para que ele continue existindo.

A seguir, analisaremos um texto que discute a questão da elegibilidade do “liberto”, passamos a outro campo da temática da escravidão, já que, num primeiro momento, podemos pensar que o liberto é o que está livre, não é mais escravo. Mas a memória da escravidão ainda funcionaria na constituição deste sujeito, qual o seu lugar neste espaço de enunciação? Teríamos entrado, realmente, num campo em que a escravidão não funciona mais ou movimentos argumentativos fazem com que ela funcione de outra forma?