O discurso literário toma contato com os leitores por meio das cenas enunciativas. Cena englobante e cena genérica compõem o quadro cênico (Maingueneau, 2013), cuja função está associada a formalizar, a partir das condições sócio-históricas de produção, o que é o tipo de discurso literário. Contudo, é pela cenografia que o discurso literário acessa seus leitores
(Maingueneau, 2006). Na literatura, as cenografias serão aquelas às quais os leitores criam expectativas.
Desse modo, a cenografia é ao mesmo tempo a fonte do discurso e
aquilo que ele engendra; ela legitima um enunciado que, por sua vez,
deve legitimá-la, estabelecendo que essa cenografia onde nasce a fala9 é precisamente a cenografia exigida para enunciar como convém (MAINGUENEAU, 2013:98)
A cenografia do discurso literário tem diálogo fixo com o autor e sua imagem, pois “encena” as rotinas comuns à vida, que podem ser aceitas pelos leitores como verdadeiras e pertencentes ao mundo extrínseco à enunciação literária, ao que corresponderia ao “mundo” do autor.
O enunciado literário agrupa unidades enunciativo-discursivas que pertencem às rotinas verbais, que, agrupadas, compõem a cenografia. Uma cenografia corresponde às rotinas, que se executam no discurso literário. Vemos, na literatura, ser enunciada uma rotina possível ao extraliterário. Essa “possibilidade” paratópica é composta por uma série de eventos enunciativos que correspondem às práticas conhecidas por membros da atividade enunciativa. As cenografias da rotina literária são as mesmas das práticas quotidianas, isso é parte da condição paratópica do discurso literário (Maingueneau, 2007).
A partir disto, a imagem de autor ancora essas rotinas a um tempo e um espaço, por exemplo, quando se toma a reflexão acerca de um autor, pressupõe-se dele uma vida extraliterária, um mundo no qual esse “sujeito” existe/existiu e percebeu o mundo a sua volta. Essa ancoragem viabiliza observar, a partir de um olhar interdisciplinar, quais experiências são possíveis em uma época, quais vivências um sujeito pôde/pode experimentar, qual era o mundo e em qual tempo esse sujeito enunciador está/esteve. Desta maneira, a cenografia do discurso literário dá condições de perceber, pela perspectiva enunciativo-discursiva, a imagem de autor e o mundo em torno desse autor. As
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Nesse exemplo, Maingueneau se refere a uma análise que está proposta em “Análise de Textos de Comunicação”. Essa análise trata de um enunciado prototípico da fala, mas, com efeito, pode representar os enunciados escritos.
unidades que compõem a cenografia são práticas, que correspondem ao que vínhamos tratando como topismos do discurso literário.
Os topismos literários são unidades enunciativo-discursivas que compõem a cenografia “desenhando” os acontecimentos e modelando comportamentos, ações, fazeres. Esses fazeres têm correspondência com a história, com os lugares e com os sujeitos que os enunciam. São as unidades tópicas e não tópicas o “lugar”, onde se podem delinear os comportamentos de uma época, os sujeitos e as instituições. Perceber as unidades tópicas e não tópicas é perceber a própria sociedade, pois as relações de comportamento, de fazeres, de quotidiano não são aspectos próprios da enunciação literária, mas dos sujeitos interpelados pela sociedade onde estão.
Nesse sentido, quando obervamos nos discursos as unidades tópicas e não tópicas, experienciamos, na mesma medida, um mundo enunciado como real, por outras palavras, a enunciação registra, pelas unidades tópicas e não tópicas, o próprio sujeito enunciador em sua relação com o mundo e com as “ forças” - instituições, acontecimentos, eventos -, que o fazem tomar essa ou aquela atitude, ter esse ou aquele comportamento, por conseguinte, ser o que é enunciativamente.
Existem unidades que correspondem a setores da atividade humana. Uma redação de jornal, por exemplo, tem suas próprias práticas enunciativas, com seus próprios sujeitos, com suas próprias funções. Em situações como esta, teremos práticas assumidas como pertencentes a um grupo (jornalistas), que acontecem em um universo discursivo-enunciativo de fácil delineação; são as práticas tópicas. Contudo, há práticas que não pertencem a um setor da atividade humana, mas os atravessam de maneira clandestina, são registradas na memória da coletividade, mas só podem ser percebidas a partir de um aparato interdisciplinar que as justifique na história, no contato com os sujeitos e na “força” que exercem sobre eles; são as unidades não tópicas.
A enunciação literária se estabiliza no que se pode entender como uma rotina cuja expectativa compõe um simulacro. Por outras palavras, a enunciação literária se compõe de um agrupamento de gêneros que pertencem a um tipo
de discurso literário que, por sua vez, está filiado a setores da atividade humana. Assim
mesmo os gêneros definidos por um autor, como ocorre com frequência em literatura ou em filosofia, somente são definidos no interior de práticas verbais instituídas. Tipos e gêneros de discurso são tomados numa relação de reciprocidade: todo tipo é um agrupamento de gêneros, todo gênero só se define como tal por pertencer a um determinado tipo. (MAINGUENEAU 2007:30)
As rotinas reconhecidas nas práticas verbais são, na cenografia, “pontes paratópicas”, pois ligam o extrínseco e o intrínseco do discurso literário, engendrando uma enunciação fronteiriça de onde se pode perceber uma imagem de autor e uma sombra de um autor, que se consagra pelo/no discurso literário. A essas rotinas filiadas aos setores e atividades reconhecidas, concebidas na enunciação, dão-se o nome de unidades tópicas (Maingueneau 2007).
No entanto, existem unidades enunciativo-discursivas, reconhecidas pela coletividade, que não bastaria chamar de unidades tópicas, pois elas atravessam múltiplos gêneros do discurso, mas estão configuradas na construção do dizer e no como dizer. Estão intrinsecamente relacionadas às outras unidades, contudo estão aparelhadas sobre os recursos linguísticos, como a narração, a argumentação, a descrição, entre outras. Essas unidades estão voltadas ao “fazer” enunciativo, ou seja, estão pautadas sobre o interesse do enunciador em contar uma história e fazer com que o co- enunciador adira a um produto ou ideia, conforme postula Maingueneau (2007), quando as chamou de unidades transversas. São estas manifestações linguísticas que integram o discurso.
Há, contudo, unidades que estão nas fronteiras das unidades delineadas pela função social e pelo atravessamento linguístico. Essas unidades são anômalas e não autorizadas; além disso, são registradas pela marginalização de seus dizeres e, por isso, não são admitidas, embora sejam construídas e concebidas na memória da coletividade. São estas as unidades não tópicas.
Discurso como o racista é de extensa circulação em nossa sociedade e, muito embora se veja mencionar “que alguém é racista”, não será comum ver alguém dizer “ sou racista”. Isso acontece porque a prática racista foi percebida, junto a um longo processo de conscientização racial, que ainda acontece, como extremamente negativa e, por isso, deve ser combatida, conforme afirma Nascimento (2010). Contudo, o combate ao discurso racista não impede que ele circule como unidades discursivas, que circulam em diversos tipos e gêneros do discurso de maneira clandestina. Essas unidades estão nas fronteiras, atravessam diferentes enunciados como fazem as unidades transversas e estão registradas na coletividade. Assim, tais unidades só podem ser percebidas pelo desenho de suas fronteiras, a partir de uma reflexão histórica sobre sua enunciação. Nesse sentido, registrar uma imagem de autor é também fixar, pela condição paratópica do discurso constituinte literário, uma possível fronteira na qual se podem perceber unidades não tópicas.
Inferindo a imagem de autor, que emerge no discurso literário, podemos verificar a que condições sócio-históricas este discurso está filiado na fronteira paratópica. Nesse sentido, podemos constatar que as unidades não tópicas são apreendidas, particularmente, pelo olhar de uma analista, que reconhece nas fronteiras de determinado discurso, aspectos de clandestinidade dessas unidades. Cabe, por conseguinte, ao analista construir um arcabouço que revele como possível que determinada enunciação é perpassada por unidades conhecidas por todos, mas que ninguém as autoriza. As unidades não tópicas parecem úteis e produtivas ao estudo de nosso objeto de análise, pois
Restringir a análise de discurso apenas as unidades tópicas seria denegar (no sentido psicanalítico) a realidade do discurso, que é relacionamento do discurso e do interdiscurso: este último trabalha o discurso, que em retorno o redistribuí perpetuamente. É esse impossível fechamento que me parece testemunhar a persistência da noção de formação discursiva: não haveria análise de discurso se não houvesse agrupamentos de enunciados inscritos nas fronteiras, mas, por outro lado, também não haveria análise do discurso, se o sentido se fechasse nas fronteiras (MAINGUENEAU, 2008:25). Neste capítulo, por fim, delineamos um arcabouço teórico-metodológico, que será reavivado durante toda essa pesquisa como capaz de evidenciar uma
imagem de autor emergida do discurso constituinte literário. Esse discurso se configura em fronteiras enunciativas. Dá a seus autores grande prestígio e pode tornar-se importante panorama para observação de uma época e dos sujeitos dessa época. Contudo, como apontamos anteriormente, o autor não está em uma localização confortável, não adianta nada se perguntar se a autoralidade está no interior ou no exterior do texto: ela subverte essa oposição (Maingueneau, 2010:46). O que parece ser mais interessante é a observância da cenografia, para que ela possa ser ampliada, quando da busca da projeção de uma imagem de autor.
Assim, nosso estudo se configura por meio de unidades tópicas e não tópicas do discurso, pois consideramos esse estudo relevante para a clareza e compreensão da imagem de autor. Vê-se que o Autor emerge do discurso literário na confluência entre o fora e o dentro do discurso. A autoralidade é possível pela condição paratópica do discurso constituinte literário. Essa representação pode ser percebida no agrupamento de unidades tópicas - atividades reconhecidas e autorizadas nas rotinas sócio-histórica de um sujeito e não tópicas - discurso racista -, que contribuem para a construção de uma imagem de autor. A partir do que antecede, seguimos para a configuração das condições de produção e para a demarcação das unidades tópicas e não tópicas