Em consonância com as lacunas teóricas apresentadas, bem como por visar a estabelecer uma instrumentalização que auxilie a abordagem do caso empírico trabalhado no presente estudo, estrutura-se este tópico para apresentar o modelo conceitual aqui sugerido, que visa a atender aos objetivos centrais e específicos desta pesquisa e busca substancialmente evidenciar o processo de criação de valor por meio da conexão das dimensões do capital intelectual, ao longo das diferentes fases da evolução do modelo de negócio de uma empresa de SVA móvel.
Como se pode observar na Figura 11, as dimensões humana, estrutural e relacional do capital intelectual encontram-se respectivamente integradas às macrodimensões de “recursos- chave”, “atividades-chave” e “relacionamento externo”, oriundas da teoria de modelo de
negócio. Essa integração permite um detalhamento de cada uma das macrodimensões, de
acordo com os componentes presentes em cada dimensão do capital intelectual. Dessa forma, em consonância com a teoria do capital intelectual e com o que foi abordado anteriormente, as dimensões encontram-se caracterizadas da seguinte maneira: a) dimensão humana (competência, habilidade, conhecimento, experiência, educação, treinamento, aprendizagem, espírito empreendedor, liderança, compromisso, motivação, lealdade, flexibilidade, criatividade, mutabilidade, habilidades proativas e inteligência emocional); b) dimensão estrutural (processos, estrutura, cultura, procedimentos, estratégia, objetivos, visão, conhecimento codificado, conhecimento organizacional, pesquisa e desenvolvimento, tecnologia, sistemas de informação, banco de dados, comunicação, tecnologia e documentação); e c) dimensão
relacional (satisfação, retenção e lealdade do cliente, relacionamento com alianças,
licenciamentos e franqueados, canais de distribuição, relacionamento com investidores e acionistas, confiança, reputação e percepção da marca e imagem e relações regulatórias).
A inter-relação das macrodimensões do modelo de negócio e, consequentemente, das dimensões do capital intelectual descritas permite visualizar, sob uma perspectiva de fluxo e interconexão, o processo de criação de valor da empresa. Em um primeiro momento, observa-se o conceito da proposta de valor (etapa 1), caracterizado como um elemento disparador (input) do processo de criação de valor da empresa. Trata-se do que a teoria de modelo de negócio caracteriza como um driver que permite à organização compreender quais elementos devem ser combinados a fim de assegurar a criação de valor à empresa e ao cliente, podendo referir-se a mais de uma proposta de valor por modelo de negócio. Em seguida, identifica-se a caracterização do processo de criação de valor propriamente dito, representado pela interconexão das dimensões do capital intelectual e, consequentemente, das macrodimensões do modelo de negócio da empresa (etapa 2). Subsequentemente, observa-se, como um resultado (output) do processo de criação de valor, as três etapas inerentes à conceituação de modelo
de negócio: a) os valores criados para a empresa; b) os valores entregues ao cliente; e c) os
valores organizacionais capturados (etapas 3, 4 e 5, respectivamente). Trata-se de considerar o “valor criado para a empresa” um atributo dos recursos da firma e direcioná-lo ao que aqui ficou caracterizado como “criação do valor de uso” (valor entregue ao cliente) e “captura do valor de troca” (valor organizacional capturado), a partir da comercialização de produtos e serviços no mercado. Por fim, ressalta-se a característica dinâmica desse modelo (etapa 6),
exprimindo o conceito de evolução e longevidade temporal, que viabiliza analisar a organização sob os aspectos das mudanças ocorridas em seu modelo de negócio.
Figura 11 – Modelo conceitual.
Fonte: Elaborada pelo autor.
Com esse modelo, pode-se destacar a integração de todas as teorias abordadas neste estudo. Constata-se estarem as dimensões do capital intelectual (BONTIS, 1998; BROOKING, 1996; EDVINSSON; MALONE, 1998; ROSS et al., 1997; SVEIBY, 1998) relacionadas com as macrodimensões oriundas da teoria de modelo de negócio (HEDMAN; KALLING, 2003; JOHNSON; CHRISTENSEN; KAGERMANN, 2008; LECOCQ; DEMIL; WARNIER, 2006; PLÉ; LECOCQ; ANGOT, 2008; OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010), atuando no processo de criação de valor sob a óptica da conexão dos elementos organizacionais (BOULTON; LIBERT; SAMEK, 1997, 2000; LINDGREEN et al., 2012; NIELSEN; LUND, 2012), e da abordagem processual (LANGLEY, 2007; MOHR, 1982; PETTIGREW, 1992; TSOUKAS; CHIA, 2002;
CAPITAL HUMANO
Competência; Habilidade; Conhecimento; Experiência; Educação;
Treinamento; Aprendizagem; Espírito empreendedor; Liderança; Compromisso; Motivação; Lealdade;
Flexibilidade; Criatividade; Mutabilidade; Habilidades pró ativas;
Inteligência emocional.
VALOR PROPOSTO
CAPITAL ESTRUTURAL
Processos; Estrutura; Cultura; Procedimentos; Estratégia; Objetivos e visão; Conhecimento
codificado; Conhecimento organizacional; P&D; Tecnologia; Sistemas de informação; Banco de dados; Comunicação; Tecnologia;
Documentação.
CAPITAL RELACIONAL
Satisfação, retenção e lealdade do cliente; Relacionamento com alianças,
licenciamentos e franqueados; Canais de distribuição; Relacionamento com investidores e acionistas; Confiança, reputação e percepção da marca e
imagem; Relações regulatórias.
1 2 2 2 6 ATIVIDADES-CHAVE RECURSOS-CHAVE RELACIONAMENTO EXTERNO
VALOR CRIADO PARA A EMPRESA VALOR ENTREGUE AO CLIENTE 3 4 5 VALOR CAPTURADO INPUT D O P R O C ES S O ' P R O C ES S O D E C R IA Ç Ã O D E V A LO R ' R ES U L T A D O D O P R O C ES S O '
VAN DE VEN, 1992), que, por sua vez, fornece a possibilidade de avaliar esse fenômeno sob aspectos da mudança e da longevidade temporal. Como input e resultado desse processo, ficam
evidenciados todos os elementos inerentes à conceituação de modelo de negócio, o input
relacionado à proposição de valor (JOHNSON; CHRISTENSEN; KAGERMANN, 2008; OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010) e o resultado relacionado ao valor criado e capturado pela empresa, bem como o valor entregue ao cliente (OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010; TEECE, 2010).
Em consonância com as teorias aqui referenciadas, bem como com o modelo conceitual estruturado, evolui-se o presente estudo para a seção quatro, em que se passa a abordar as diretrizes metodológicas que conduziram a aplicação e análise do modelo em campo empírico.
4 REFERENCIAL METODOLÓGICO
Tem-se como objetivo, nesta seção, evidenciar as diretrizes metodológicas utilizadas no presente estudo. Busca-se estabelecer uma conversação teórico-empírica nesta pesquisa, caracterizando o referencial metodológico de acordo com as recomendações fornecidas pela perspectiva de processos (LANGLEY, 2007; MOHR, 1982; PETTIGREW, 1992; TSOUKAS; CHIA, 2002; VAN DE VEN, 1992, 2007).
Em relação ao exposto e objetivando assegurar os princípios de qualidade do referencial metodológico, principalmente no que tange à estratégia de estudo aqui adotada, estruturou-se um protocolo de pesquisa (Apêndice A), perpassando aspectos que assegurem maior validade e confiabilidade dos dados coletados e analisados (DONAIRE, 1997; GIBBERT; RUIGROK, 2010).
Nesse contexto, estrutura-se a presente seção com os seguintes tópicos: a) paradigma e método de pesquisa; b) tipo de pesquisa; c) estratégia de pesquisa; d) sujeito de pesquisa; e) instrumentos de coleta de dados; f) tratamento e análise dos dados; e g) qualidade: confiabilidade e validade do procedimento metodológico.