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A curiosidade e vontade de descobrir fazem parte integrante da criança e devem ser potenciadas pela escola através da exploração do meio e das suas capacidades (Chauvel & Michel, 2006). Esta realidade revela que a educação, nos primeiros patamares de ensino, não deve ter como finalidade formar especialistas numa determinada área do saber mas sim contribuir para a formação de cidadãos críticos, conscientes, autónomos e capazes de intervir ativamente na sua sociedade (Costa, 2009). Como tal, o currículo destinado a esses níveis escolares, nomeadamente, pré- escolar e 1º CEB, deve resultar da fusão dos diversos domínios do saber para poder promover a aprendizagem e desenvolvimento global das crianças e dar resposta às necessidades da sociedade onde a instituição educativa se encontra inserida.

Uma das áreas do saber que faz parte da educação das crianças e que possibilita a potencialização de todas as suas capacidades é a Ciência, presente na educação pré- escolar e no 1º CEB através das áreas do Conhecimento do Mundo e do Estudo do Meio respetivamente.

As ciências, devido ao seu caráter mais abrangente e diretamente relacionado com o meio e situações com que a criança se depara diariamente, possibilita que os jovens aprendizes compreendam melhor o mundo à sua volta e desenvolvam competências que lhes permitam resolver ativamente as situações problemáticas. Para que isto seja possível, é necessário que as ciências surjam desde cedo na formação das crianças para que, por um lado, promova a construção de uma imagem positiva das ciências que desperte o interesse por esta área do saber e, por outro lado, que satisfaça e fomente a sede de descoberta e curiosidade das crianças nesta área (Martins, Veiga, Teixeira, Tenreiro-Vieira, Vieira, Rodrigues & Couceiro, 2007).

Devido ao seu caráter integrador, esta área do saber promove o desenvolvimento de diversas competências benéficas para todas as áreas do saber, nomeadamente, o

pensamento crítico e reflexivo e, ainda, possibilita a construção de conhecimentos científicos essenciais para a compreensão e atuação responsável nas sociedades marcadas, cada vez mais, pela evolução científica e tecnológica (Martins et al., 2007).

A aprendizagem de conteúdos científicos deve envolver a criança de forma ativa através da experimentação e da descoberta, proporcionando a construção do conhecimento de forma ativa e multissensorial. Através das vivências e da interação com o meio, as crianças constroem as suas próprias conceções e teorias e tentam explorar fenómenos científicos que surgem diariamente. Essas conceções formuladas pelas crianças dificultam a aprendizagem de conteúdos cientificamente corretos pois encontram-se fortemente enraizados nas estruturas cognitivas. Como tal, para que essas ideias, que cientificamente são consideradas incorretas, possam ser modificadas, necessitam de ser tidas em conta pelos professores pois servirão de base para a aprendizagem dos novos conceitos. Para que as conceções alternativas das crianças possam dar lugar aos conhecimentos cientificamente corretos é fundamental que as crianças possam experimentar e testar as suas ideias e refletir acerca dos resultados obtidos pois só desta forma as crianças irão compreender o porquê da sua ideia não ser considerada a mais correta (Santos, 2002 e Martins et al. 2007).

Desta forma, podemos constatar que as ciências possibilitam a aprendizagem e experimentação de conteúdos que podem ser aplicados em situações do quotidiano permitindo que as aprendizagens construídas tenham aplicabilidade e significado para as crianças. Para além disso, as ciências “(…) acentuam o desenvolvimento da autonomia , participação, responsabilidade individual e social, a capacidade de negociação e de partilha de sentido, ou seja, que sustentam dimensões comportamentais, para além das cognitivas” (Aikenhead, 1994 citado por Veiga, 2003, p.19).

A experimentação, tal como já foi referido, deve surgir com frequência no processo de ensino-aprendizagem, nomeadamente, na construção de conhecimentos científicos. Esta realidade destaca a importância de incluir nos currículos o denominado Ensino Experimental das Ciências (EEC).

O EEC, tal como o próprio nome indica, implica a experimentação e a testagem de conhecimentos já existentes para que os conhecimentos não científicos deem lugar aos conhecimentos científicos (Sá & Carvalho, 1997). Contudo, a experimentação inerente a esta abordagem educativa exige que sejam testadas hipóteses e previsões formuladas pelas crianças que evidenciam os conhecimentos prévios e conceções alternativas das mesmas. Os resultados e evidências resultantes da experimentação

devem ser alvo de reflexão para que consciente e ativamente a criança possa refutar ou confirmar as ideias previamente formuladas.

As atividades desenvolvidas com base no EEC habitualmente partem de um problema e através da experimentação de possíveis respostas à problemática encontrada, pretende-se que sejam aferidas conclusões que permitam a compreensão dos conceitos nela envolvidos.

Desta forma, o EEC possibilita, segundo Sá (2003), que através de atividades experimentais a criança exponha as suas ideias acerca de determinada problemática, desenvolva a sua capacidade de argumentação através da justificação de determinadas escolhas e pontos de vista. Para além disso, a criança desenvolve a sua capacidade de observação e registo, pois este tipo de atividades exige o uso, gradualmente mais aprimorado, destas habilidades para que os resultados possam ser observados e analisados. A construção de conhecimentos cientificamente corretos exige que a criança reflita, avalie e compare os resultados obtidos com as ideias inicialmente apresentadas pois, só assim, a criança terá consciência daquilo que aprendeu.

Desta forma, podemos constatar que o EEC promove o desenvolvimento de diversas competências que são fundamentais para a criança ao longo de todo o seu processo escolar e, ainda, na sua vida em sociedade. Assim, através desta estratégia de ensino são desenvolvidas competências cognitivas, reflexivas, críticas, de autonomia e de resolução de problemas (Sá, 2010).

Apesar de todos os benefícios que advêm da educação em ciências e, designadamente, do EEC, esta área do saber é negligenciada nas escolas, sendo colocada em segundo plano em prol de outros domínios do saber, nomeadamente, do Português e da Matemática. A pouca relevância que é dada às ciências e ao EEC é visível através da “(…) pouca sintonia entre (…) objectivos, as abordagens propostas pelos manuais escolares e as actuações dos professores, muitas vezes de índole repetitiva e rotineira” (Veiga, 2003, p.18).

Autores como Sá e Carvalho (1997), Sá (2003) e Sá e Varela (2004) afirmam que esta negligência das escolas em relação à educação científica é impulsionada por diversos fatores. A sociedade e professores não reconhecem a importância das ciências para a aprendizagem e formação das crianças. A inexistência de espaços e materiais adequados nas escolas e a grande extensão dos programas provoca a passagem supérflua pela área das ciências e a abolição do EEC. Por fim, o principal obstáculo ao correto desenvolvimento desta área do saber prende-se com a insuficiente formação de

educadores e professores que, perante determinados conteúdos dessa área do saber, se sentem impotentes para os ensinar, sobretudo, através de atividade que envolvam a experimentação.

Desta forma, vemos que é urgente alterar a nossa realidade educativa quer ao nível dos primeiros níveis de ensino quer ao nível da formação de educadores e professores para que as ciências e, sobretudo, o EEC surjam desde cedo e de forma adequada no percurso escolar da criança.

[Perante uma] (…) sociedade fortemente marcada pela Ciência e a Tecnologia, a Educação Científica deverá ser parte integrante da educação básica de todos os cidadãos, a fim de se evitar um novo tipo de analfabetismo gerador de receios, insegurança e sentimento de marginalização em relação ao mundo em que se vive (Sá & Carvalho, 1997, p.9).

Conclui-se, deste modo, que perante sociedades marcadas cada vez mais pelo conhecimento científico e tecnológico é crucial promover nas escolas a formação de crianças capazes de refletir, criticar, agir e resolver problemas com base em conhecimentos cientificamente corretos (Santos, 2002; Veiga, 2003; Martins et al., 2007). Só assim as instituições educativas conseguirão dar resposta às necessidades da sociedade e promoverão o desenvolvimento integral das crianças como alunos e, sobretudo, como cidadãos.