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Ainda conforme Rüdiger, o antropocentrismo vem do mundo antigo. “A técnica está ligada ao organismo, mas nos definimos por outro elemento: cultural, simbólico, matemático, psicológico etc.”, diz Rüdiger. Segundo ele, em nós, só uma parte é humana, e ganhou proeminência no mundo moderno: “Humanos são aqueles que têm capacidade de simbolizar o mundo natural, e isso está associado ao mundo da técnica. Heidegger rejeita tanto uma quanto a outra, pois coloca a técnica na dependência do homem”. No entanto, pode haver algo que ele não controle. O pensamento dialético diria que homem e técnica se tensionam e se superam. Mas, para Heidegger, há outra coisa, o “ser”, o terceiro excluído. Há uma superposição de dois princípios instauradores do mundo a partir do “ser” e da “armação”. O pós-humano é a dissolução do homem no mundo maquinístico. Para Heidegger, o homem não é senhor da técnica, e sim determinado por ela. “Eu faço uma decisão por um chamado do ‘ser’ médico e não ‘ser’

advogado.” Na idéia de “armação”, segundo Rüdiger, Heidegger recupera uma palavra do alemão arcaico. “Logos” é a palavra que, no início, os deuses nos dão. “Houve um chamado, uma palavra que estruturou o mundo, um tipo de mundo como o nosso. O mundo ocidental é o mundo em que fomos chamados a ´ser´ e ´não-ser`”, filosofa Rüdiger. Será que no século XVII, não há outro chamado? Não é a armação? A armação é a essência da técnica moderna, e não o ser humano. A armação é a construção do mundo como máquina.

Nietzsche passa uma senha a Heidegger, que é o conceito de vontade de poder. A idéia de “armação” se relaciona com a idéia de “vontade de poder” enunciada por Nietzsche, lembra Rüdiger. “É a filosofia que pensa diretamente na questão do ser. A identidade é inseparável da questão do ser.” “Ser” celebridade, exemplifica o professor, é estar na capa da revista Caras. Outros não fazem questão disso. Tudo isso é pensado com a ajuda de Heidegger, segundo Rüdiger. “Na filosofia, sinalizam-se mudanças de época na história. Quando o mundo se modifica, a história é projetada através do discurso filosófico. O filósofo está no mundo de forma singular.” Nós poderíamos incluir determinados cineastas, como Ruy Guerra. “O mundo fala através dele. A filosofia seria um farol no meio do mundo. Dá forma a determinados processos. O pensador explora o contexto, mas não é o que ele pensa o que vai mudar o mundo”, segundo Rüdiger. Bachelard, na opinião de Rüdiger, pensa as ciências de uma maneira original. “É o autor que percebe na ciência uma tensão com o imaginário. Mas ele não pensa a questão com a qual ele trabalha. Ele coloca a questão, mas não a pensa.” Os gregos no período histórico conheciam o mito. Pensavam através dele. Eram narrativas que articulavam o pensamento dos homens. No período clássico, não é que o mito (história) tenha desaparecido, mas não chega a ser sagrado, pois não é puramente divino, é mundano. O mito é a história do envolvimento entre os supra-humanos e humanos. Os gregos inventaram a história porque inventaram o humano. Na Grécia, quando aparece o pensamento do ser é nas costas do pensador, que passou a tomar consciência: “estou aqui”. Para os gregos, não havia mais como acreditar nos mitos. Polemizaram com os mitos. O humano é instituído junto com a técnica.

Segundo Rüdiger, para Heidegger, originalmente, a técnica não é humana: surgem ao mesmo tempo. Quando aparece um, aparece também o outro. O nosso mundo não existiu sempre. Quando aparece, é definido a partir do ser. O que o define é, entre outras coisas, a correspondência entre o homem e a técnica como funções do “ser”. “A técnica é o modo de ser humano. Nós somos humanos por meio da técnica. A

nossa aposta no mundo moderno é garantida através da técnica, conforme Heidegger.” “O homem é um intervalo”, diz Heidegger. Rüdiger afirma: “Nós temos horror da morte. O significado não é a coisa. Ele é metafísico. Beleza não é a coisa, é o significado. Força, para além da física, é um significado”. Conforme Rüdiger, Heidegger entende que o que é bonito para um, não é para outro, e é essa a dimensão metafísica da qual não escapamos. “O “eu” só existe metafisicamente. Onde está o “eu”? O “eu” é uma entidade metafísica porque não posso localizá-lo no tempo e no espaço. E a consciência? Ela é uma entidade metafísica, pois eu não posso determiná-la objetivamente.” O homem, segundo Heidegger, também é uma categoria metafísica.

O mundo é a existência. É tudo aquilo que é apontado lingüística e simbolicamente. Tudo aquilo que é objeto da palavra. Mudar o modo de ser da existência pode ser a questão pós-moderna. A identidade é sempre metafísica. O ente sempre guarda uma diferença em relação àquilo que falamos a seu respeito. Essa é a diferença ontológica. Tudo existe na medida em que é afirmado. O filósofo faz uma análise da existência (analística existencial). Posso não concordar, mas tenho de saber o motivo. Ser-aí: somos alunos, mas depois seremos filhos ao encontrarmos nossos pais e assim por diante. O “aí” do ser é a identidade que o define, mas não é o papel social. Goffman diz que o “eu” encena papéis na vida cotidiana. Heidegger diz que essa idéia é própria de um tipo de mundo, mas não de todos (RÜDIGER. Comentário em aula).

Rüdiger explica que Maffesoli apresenta o “nós comunitário”, mas Heidegger diz, filosoficamente: nunca sabemos quem é o “nós”. Importante, agora, é comunicar. Importante é a interatividade. O conteúdo vai deixando de entrar em jogo. O que conta é o fluxo. Comunicação designa um processo. Ela não é nem sujeito, nem objeto. O pensamento comunicacional começa com o emissor. Depois, acontece o que poderíamos chamar de “dobra” (Deleuze), isto é: tudo é recepção. Por que uma dobra? O que mudou? É a interatividade. “É só na modernidade que se tenta definir o que é o homem e explorá-lo. Hoje é o tecnológico que está no auge, e não o humanismo.” Rüdiger cita a seguinte frase de Nietzsche: “Esqueçamos o homem”. Conforme Rüdiger, “nossa preocupação, agora, é desenvolver a inteligência artificial, deixando o humano para trás.

A técnica está sempre associada a algo que não é técnico. Esse é o elemento poético do imaginário”. O homem se torna o centro do universo, ou seja, ele é o sujeito e o resto,

objeto. O que determina essa mudança? Ela pode ser explicada por um chamado que nos é feito por um outro pensamento, o tecnológico. Não há mais a questão de ser alguma coisa, mas a de armar uma situação. Descartes diz: “Penso, logo existo”. Descartes também nos define como máquinas, pois o homem é um “eu” instalado na máquina, esse animal racional, segundo Rüdiger.

Rüdiger recorda que o “eu” para Descartes é coisa pensante: “Mas o “eu” não é uma coisa. Por isso, para escapar dessa armadilha, ele diz que seu pensamento é filosófico, ou uma “filosofia primeira”. Máquina é a idéia de algo que funciona automaticamente (“Deus feito máquina”, segundo Spinoza)”. Desde o século XVII, diz Rüdiger, o homem é uma máquina que pensa, mas cuja máquina trabalha mal. Devemos trocá-la pela inteligência artificial. Toda técnica calcula, e Heidegger chamou isso, conforme Rüdiger, de o “elemento matemático”. O filósofo, continua Rüdiger, dá elementos de ruptura com a modernidade, que é a mistura do ontológico (o ser e a identidade) e do tecnológico (o cálculo e a solução do problema do ser). “A linguagem digital é 0 e 1, o sim e o não, é o isso ou o aquilo. Essa linguagem é proposta no século XVIII. Descartes era matemático. Leibniz chegou a dizer que a matemática era tudo.” Queremos certeza, convicção. O que é a representação? É re(a)presentação, que significa re(a)presentificação, que significa o aparecimento do ser. “Ousia”, do grego, é o processo de revelação do ser, afirma Rüdiger. E Deleuze, prossegue o professor, chama de “dobra da linguagem” quando se tenta re(a)presentar o ser. “A linha segue uma idéia, um conceito, uma palavra, um dicionário, um léxico. Essa é a linguagem organizada. Quem somos nós, para Heidegger, de fato, nunca saberemos.” O entendimento que temos de nós mesmos não seria sempre alienado? Daí vem a técnica, um dos modos de revelação do homem, uma correspondência com aquilo que imaginamos ser, anota Rüdiger.