A abordagem metodológica utilizada, nesta pesquisa, é de natureza qualitativa, de tipologia Estudo de Caso. Para Gil (2002), a pesquisa manifesta características funcionais, com procedimentos explícitos e organizados, cuja finalidade é rastrear e encontrar respostas para as inquietações apresentadas por meio de ações científicas. De acordo com Campos, a pesquisa
“[...] é um tipo de atividade humana como as outras, sujeita aos mesmos constrangimentos, influências e limitações que qualquer campo de atuação. A universidade e os centros de pesquisa não estão fora da sociedade, mas, ao contrário, mantêm com ela relações diversas, mais ou menos visíveis, mas sempre contraditórias e complexas. Os conhecimentos, as teorias, as concepções, assim como versões dos resultados da pesquisa, circulam entre atores situados em diferentes setores, que rejeitam ou se apropriam deles a seu modo, devolvendo essas concepções modificadas aos pesquisadores, por meio de ações observadas, discursos colhidos e efeitos supostamente produzidos por sua atuação” (CAMPOS, 2009, p. 281).
Sobre os passos para a realização de uma pesquisa, Lüdke e André (1986) ressaltam a importância de se confrontar e comparar os dados coletados, as evidências
101 detectadas e as informações sobre determinado assunto ou situação, além de articular conhecimento teórico acumulado a respeito do referido assunto. Isso significa dizer que a pesquisa deve ser fruto da curiosidade, das inquietações e da atividade investigativa dos indivíduos, que só se efetiva mediante a continuidade daquilo que já foi construído e sistematizado pelos que pesquisam e refletem sobre o assunto primeiro. Assim, o pesquisador assume um papel muito importante, que é o de servir de veículo inteligente e o combustível ativo para esse conhecimento acumulado na área, cujas evidências surgirão e serão estabelecidas e assentadas a partir da pesquisa.
Nesse sentido, uma pesquisa de caráter qualitativo busca considerar, principalmente, o ambiente como fonte direta de dados, no qual o pesquisador é visto como um agente atuante. Essa característica de pesquisa leva como principal objetivo o todo, isto é, o processo na sua totalidade e, não apenas, o resultado ou o produto final. Essa natureza de pesquisa é indicada para analisar, de maneira subjetiva e interpretativa, os resultados obtidos da linha de conduta dos sujeitos investigados (MOREIRA; CALEFE 2008).
Pode-se dizer, então, que essa tipologia permite compreender a complexa trama do que acontece numa situação microssocial, pois coloca o pesquisador no meio do cenário investigado, participando e tomando partido, quando necessário, na investigação. Isso se dá porque o interesse do pesquisador num determinado assunto é verificar e compreender como este se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interações, isto é, a preocupação e o foco se voltam para o conjunto e, não apenas, para o resultado. O procedimento para analisar os dados coletados não requer, única e somente, técnicas e métodos puramente estatísticos, como, também, um maior cuidado com a interpretação e a reflexão a partir dos dados coletados (LÜDKE; ANDRÉ, 1986).
Ainda sobre o tema, Minayo (2007) justifica que metodologias de cunho qualitativo são capazes de envolver e de compreender assuntos frente à significação e aos propósitos ligados às ações, às relações e às configurações sociais, situações estas que podem ser interpretadas como um processo de construção humana relevante e imprescindível para as pesquisas educacionais.
Quanto ao Estudo de Caso, pode-se dizer que, embora esse tipo de pesquisa venha sendo utilizado ao longo do tempo por diversas esferas do conhecimento, no campo educacional,
“[...] os estudos de caso aparecem em manuais de metodologia de pesquisa das décadas de 1960 e 1970, mas com um sentido muito limitado: estudo
102 descritivo de uma unidade, seja ela uma escola, um professor, um grupo de alunos, uma sala de aula” (ANDRÉ, 2013, p.96).
Embora o Estudo de Caso, nesse período, tenha sido alvo de muitas críticas, pela série de equívocos que cometeu e pela limitação de análise e dos resultados apresentados, na década de 80, essa característica de pesquisa reaparece nos estudos educacionais, contemplando e abrangendo outros horizontes, isto é, o Estudo de Caso na Educação passou a "focalizar um fenômeno particular, levando em conta seu contexto e suas múltiplas dimensões". Dessa forma, valorizou-se o aspecto unitário, porém enfatizaram-se a importância e a necessidade de uma análise situada e em profundidade (ANDRÉ, 2013, p. 97).
Nesse sentido, Stake (1994, p.236, apud André 2013) acaba conceituando que um Estudo de Caso não é o método específico, mas um tipo de conhecimento, ou seja, o "Estudo de Caso não é uma escolha metodológica, mas uma escolha do objeto a ser estudado". Portanto e em conformidade com André (2013), pode-se dizer que o conhecimento que é proporcionado por esta característica de pesquisa é diferente do conhecimento proporcionado pelos outros tipos de pesquisa, pois este se apresenta de forma mais espessa, mais contextualizada e com foco para o olhar e a interpretação do leitor.
Nessa perspectiva conceitual, Yin (2005) acrescenta, ainda, que, por se tratar de um processo de busca e de averiguação que se apoia no empirismo, o Estudo de Caso acaba por contemplar a totalidade, isto é, uma característica de pesquisa científica que abrange organização, estrutura, planejamento, procedimentos para coleta e análise dos dados. Dessa forma, o Estudo de Caso, muitas vezes, é indicado quando a inquietação da pesquisa for do tipo “como” e “porquê”, quando a preocupação for com a compreensão e com a descrição do processo, quando o foco de interesse for um fenômeno contemporâneo que esteja ocorrendo numa situação de vida real (ANDRÉ, 1995).
Portanto, se o interesse é pesquisar contingentes educacionais dentro de uma perspectiva natural em que se manifestam,
“[..] os estudos de caso podem ser instrumentos valiosos, pois o contato direto e prolongado do pesquisador com os eventos e situações investigadas possibilita descrever ações e comportamentos, captar significados, analisar interações, compreender e interpretar linguagens, estudar representações, sem desvinculá-los do contexto e das circunstâncias especiais em que se manifestam. Assim, permitem compreender não só como surgem e se desenvolvem esses fenômenos, mas também como evoluem num dado período de tempo” (ANDRÉ, 2013, p.97).
103 Por fim, embora o Estudo de Caso apresente algumas restrições, como a impossibilidade de externar-se a um processo de generalização, essa estratégia de pesquisa apresenta uma série de vantagens, como a preservação das características abrangentes e significativas dos acontecimentos da vida real e a apresentação de uma descrição detalhada, minuciosa, concreta e contextualizada da realidade estudada, buscando representar suas naturezas multidimensional e sócio-historicamente situadas (YIN, 2005).
Contudo, ressalta-se, ainda, que, mesmo que as características do Estudo de Caso se atentem ao singular, isso não significa o seu isolamento total na pesquisa e nem a impossibilidade de aplicação de suas conclusões em outras realidades. Ao se adentrar no contexto teórico metodológico que abarca o Estudo de Caso, os conceitos de generalização e de comparação se refratam e adquirem novos aspectos, pois essa tipologia almeja um estudo minucioso e complexo da realidade em questão, permitindo, com isso, formular proposições teóricas que possam, de modo vicário, ser expandidas e aplicadas a outros contextos, a chamada generalização naturalística ou analítica (ALVES-MAZZOTTI, 2006).