A busca pela compreensão dos significados sociais da juventude pressupõe a busca de compreensão da complexidade do funcionamento das redes sociais. Entendemos que, ao mesmo tempo em que se processam, em nossa sociedade, fenômenos graves relacionados com os diversos modos de confrontos, também se processam redes de ações coletivas que apontam para a construção de relações sociais democráticas, humanas, justas e fraternas. Portanto, a juventude é um elemento privilegiado de ação nesse processo em
118
Caduceu é uma vara delgada e lisa, terminada em duas asas e rodeada por duas serpentes, a qual, sendo insígnia de Hermes, era também usada pelos antigos arautos.
119
Sugerimos a leitura de MARQUES, Carlos Eduardo. O Fórum de Juventudes (de Entidades e Movimentos Juvenis de Belo Horizonte) e a questão do trabalho em redes: algumas considerações. Anais do 8º Encontro de Extensão da UFMG – BH, 03 a 08 de outubro de 2005, onde o jovem Mestrando em Antropologia e Membro do Observatório da Juventude da FAE/UFMG e do Núcleo de Estudos Quilombolas/NUQ/UFMG fala sobre a constituição e o funcionamento de redes de juventudes. www.ufmg.br/proex/arquivos/8Encontro
que se entrecruzam diferentes formas de dominação política, cultural, econômica e social. É este olhar positivo quanto às possibilidades de construção coletiva desses sujeitos que pretendemos enfatizar ao tratar das redes que os unem.
Apesar de parecer novidade, o estabelecimento de redes de relações é inerente às atividades humanas. No nosso cotidiano, encontramos conjuntos de redes que emergem constantemente. Observa-se que focando nas relações que sustentam nossas rotinas vemos emergir conjuntos de redes. Nos dias atuais, fala-se muito em redes, tais como: rede de supermercados, rede de comunicação, organizações em rede, rede do tráfico, o que dá a falsa sensação de que a organização em rede seja uma invenção das últimas décadas. Entretanto, o fato de aparatos tecnológicos de comunicação e informação estarem “conectados” uns aos outros não é garantia de uma operação-em-rede, de uma co-operação, de uma organização colaborativa. Da mesma forma, apesar da utilização do termo, cadeias de lojas, farmácias, emissoras de TV... não são redes. São, sim, sistemas hierárquicos verticais, uma vez que há um controle central onde são formuladas, pensadas e emanadas as regras que todos devem cumprir. Fortalecem-se por estarem juntas, mas dependem de decisões de um espaço de deliberação, e isso as tira da concepção de redes, pois se há nelas concentração de poder, não há aí uma rede, conforme o nosso entendimento. A noção de rede remete, num primeiro momento, à noção de capturar a caça, pois objetiva capturar informações por meio das relações estabelecidas nas redes sociais. E esse mesmo enfoque é acentuado por CAPRA (2002), quando delineia a importância das redes organizacionais:
[...] na era da informação – na qual vivemos – as funções e processos sociais organizam-se cada vez mais em torno de redes. Quer se trate das grandes empresas, do mercado financeiro, dos meios de comunicação ou das novas ONGs globais, constatamos que a organização em rede tornou-se um fenômeno social importante e uma fonte crítica de poder. (p. 267) Os vínculos sociais que as diferentes juventudes estabelecem em seus relacionamentos são plurais. As relações dos jovens são muito mais complexas, atualmente, e isso pode ser percebido se abandonarmos a perspectiva do que nos parece ser evidente e penetrarmos nos espaços sociais dos grupos juvenis. Importante considerar que a discussão sobre redes sociais de juventude pauta a discussão sobre a sociedade em que vivemos, uma vez que os jovens são
sujeitos dessa sociedade, independentemente das redes sociais às quais se vinculem, inclusive porque, geralmente, elas são produtos e colaboram na produção de nosso modelo de sociedade. Redes sociais e, sobretudo, redes sociais de juventude, são espaços para a vivência das diferenças.
Para ser includente e emancipatório, um processo de desenvolvimento necessita disseminar a capacidade de fazer política, quer dizer, precisa
democratizar a política e o poder, portanto, uma rede social colabora para este processo, uma vez que prima pela horizontalidade numa ação que pressupõe o empoderamento dos sujeitos que a compõem.
Para qualquer atividade, necessariamente, teceremos uma teia de
relações em todas as situações. Todas as nossas atividades dão origem a redes de relações e derivam da socialização humana. Estão aí o tempo inteiro e são elas que dão sustentação à nossa vida. Trata-se de um tecido de relações e interações que se estabelecem com uma finalidade e se interconectam por meio de linhas de ação, pensamentos, construção de conceitos. Os pontos de rede podem ser pessoas, instituições ou grupos, sendo sempre sujeitos da rede. Os novos desenhos de socialização que se gestam entre os jovens, moradores dos bairros periféricos das grandes cidades, surgem, sobretudo, da socialização no mundo da rua, suas esquinas e pontos de encontro, onde esses sujeitos ampliam relações de afeto, de desafeto e de lazer, enfrentam as estruturas da violência urbana e vivem, na luta pela sobrevivência, os confrontos diários com os aparelhos repressivos. No espaço da rua, buscam construir identidades coletivas e diversas modalidades de associação. Algumas formas de ação reúnem atividades expressivas e denunciam a exclusão social e cultural, a violência policial, e criticam a discriminação sofrida no mundo do trabalho, da moda, do lazer, da cultura, das relações de gênero, das relações raciais, das relações econômicas e no mundo da escola.
Entendemos que as redes de juventude, isto é, a disposição dos jovens para a vida em sociedade, desenvolvendo sua urbanidade, será saudável quanto mais se desenvolver o sentimento coletivo da solidariedade social e o espírito colaborativo entre os jovens, uma vez que os jovens de que falamos não estão juntos por estar, as redes das quais fazem parte não são apenas uma forma de convivência, não estabelecem uma relação por ela mesma, mas pelos identificadores que os unem. Daí, entendermos que programas, projetos, ações ou políticas que visem tirá-los das “ruas” estão na contramão da construção de uma sociedade desejável. Em geral, as políticas que embasam essas ações são calcadas na concepção de que os problemas estão na “rua” e de que não se possa confiar nos jovens. Imagina-se que, diante da necessidade de uma escolha entre o que lhe for oferecido pelas “ruas” e o que lhe for fornecido por direito pelas instituições que freqüenta, o jovem optará pelo crime, pela marginalidade, pela infração. Brincamos muito na “rua”, na infância, e
caminhamos muito por ela, na juventude. Avaliamos que a solução não pode ser privar o jovem da experiência da “rua”. Se há problemas e perigos nas “ruas”, devemos, então, tirar problemas e perigos das “ruas” e não tirar os jovens das “ruas”, pois lá eles constituem redes.
O que unifica todas as redes, desde a rede de jovens, passando pela rede dos atingidos por barragens até as redes das mulheres negras, as redes dos educadores e educandos da EJA e as redes dos defensores dos direitos
humanos120, é a forma como os sujeitos que as constituem se relacionam: em rede, o olhar que se tem sobre o mundo é, necessariamente, o das relações, das conexões. A rede social difere dos tipos tradicionais de organização social, pois, neles, o poder está sempre concentrado em apenas um ou em alguns poucos sujeitos ou numa parte do grupo. Por isso, uma rede opera por meio de um processo de radical desconcentração de poder. A rede é um conjunto dinâmico de elementos, por definição já empoderados, e que mantêm entre si relações de igualdade entre todos, e isso confere natureza de rede à rede.
Nessa perspectiva, redes de relações pressupõem, por trazer em si a horizontalidade como característica, serem relações onde não há subordinação, nem concentração de poder, nem individualismo. A não-existência de subordinação, aqui citada, refere-se ao fato de a comunicação nos processos horizontalizados ser dominada por todos os seus membros, de forma que qualquer um deles pode colocar informação em circulação. A comunicação acontece, então, em muitas direções, e seu fluxo é administrado e não controlado. Se não há como negar que os jovens, na sociedade atual, estão imersos no individualismo contemporâneo que pouco espaço daria para novas formas coletivas, colaborativas, associativas e solidárias de se estar no mundo. Mantê-los somente neste lugar é reafirmar a suspeição, a incredulidade, enfim, o olhar negativo quanto à capacidade de ação coletiva, de resistência ao que está posto e de articulação de outros modelos possíveis para a juventude. Buscamos, aqui, WITHAKER (1998), quando nos diz:
Uma estrutura em rede [...] corresponde também ao que seu próprio nome indica: seus integrantes se ligam horizontalmente a todos os demais, diretamente ou através dos que os cercam. O conjunto resultante é como uma malha de múltiplos fios, que pode se espalhar indefinidamente para todos os lados, sem que nenhum dos seus nós possa ser considerado principal ou central, nem representante dos demais. Não há um ‘chefe’, o que há é uma vontade coletiva de realizar determinado objetivo. (p. 1)
120
Estas são redes das quais fazemos parte. Disponibilizamos aqui seus contatos:
[email protected] Redes de Juventudes; www.mabnacional.org.br Movimento
Atingidos Por Barragem Nacional; [email protected];
controledemocrá[email protected]; [email protected] Rede Nacional de
ONGs; [email protected] Fórum Estadual de Educação de Jovens e Adultos de
Minas Gerais; www.forumejabrasil.org.br Fórum de Nacional de Educação de Jovens e
Adultos; [email protected] Rede Nacional dos Pontos de Cultura que trabalham
com a Ação Agente Cultura Viva; [email protected] Fórum de Entidades e
Movimentos Juvenis da Região Metropolitana de Belo Horizonte;
[email protected] Movimento da Juventude Negra e Favelada de Belo
Nota-se que as redes sociais emergem, nos últimos anos, como a manifestação cultural de uma nova forma de pensar, de construir o
conhecimento, de conhecer e de fazer política. Exprimem, portanto, um padrão organizacional capaz de expressar, em seu arranjo de relações, as idéias políticas, culturais, pedagógicas e econômicas inovadoras, nascidas do desejo de apontar alternativas a situações vividas em nosso modelo social, visto como responsável pela organização humana com viés hegemônico e predatório. Como as redes se inspiram no pensamento sistêmico, tais alternativas priorizam valores, pensamentos e atitudes diferentes daquelas calcadas na tendência auto-afirmativa e competitiva. O diferencial das redes sociais das quais presenciamos a formação atual é seu aspecto colaborativo. O diferencial das redes sociais acessadas pelos jovens pobres, dos quais tratamos em nossa pesquisa de doutoramento, é seu aspecto de construtoras de estratégias que burlem a negação de acessos a direitos, pois, na maioria das vezes, eles e elas não apresentam dificuldades para dominar as novas tecnologias e as novas mídias. Encontram dificuldades, sim, em acessá-las!
Uma destas estratégias, encontrada pelos jovens pobres, é o telecentro comunitário ou público. Entretanto, cada experiência é única, com desafios e potenciais próprios. Assim, não há uma “fórmula” para os usos individuais e coletivos do espaço de um telecentro. A dinâmica da rede se faz e refaz pautado em cada comunidade onde um telecentro é instalado, trazendo uma forma original de ação em inclusão digital, já que as habilidades, no trato com a informática e as novas tecnologias, são desenvolvidas a partir das demandas e necessidades de cada comunidade e das decisões sobre quais mídias serão desenvolvidas, por quê e para quê. Esse processo torna possível a criação participativa de uma auto-imagem positiva dos envolvidos, contribuindo com processos de consolidação de novas identidades. Entretanto, os sujeitos levam para a rede os mesmos princípios de agregação com os quais se organizam no cotidiano, isto é, os valores que nos agregam fora são os mesmos que nos reúnem dentro da rede.
Apesar de as redes sociais não serem espontâneas nem naturais, uma vez que existe uma intencionalidade nas relações e em seus objetivos, elas possuem dinâmica própria, que permite que se sustentem e se auto-produzam. As redes sociais têm princípios constitutivos que representam os valores e os objetivos compartilhados e que definem a identidade da rede e, conseqüentemente, dos sujeitos que a compõem. Assim, são criadas redes para discutir questões as mais diversas, diferentes, antagônicas, criativas possíveis e inimagináveis, assumindo uma variedade enorme de configurações. Observa-se que, para acionar uma rede, implantá-la e sustentá-la na dinâmica das relações, é necessário construir princípios que norteiem sua gestão e as relações entre os
sujeitos que a compõem, de forma a garantir a horizontalidade. Esses princípios objetivam evitar a reprodução de práticas características de organizações verticais onde a não concentração do poder, o estímulo a multi-lideranças e o espírito colaborativo não fazem parte das concepções e das práticas priorizadas. Objetivam, também, incentivar concepções e práticas voltadas ao desenvolvimento do reconhecimento da diversidade e à atuação coletiva e propositiva dos sujeitos que integram tais redes, sem que estes abram mão de suas identidades individuais, contribuindo para a internalização desses princípios. Observa-se, entretanto, que nelas há conflitos, e que a própria busca de solução para as situações conflitivas caracteriza uma atividade da rede e a presença nela dos seres humanos.