Além dos aspectos destacados sobre a dificuldade de se categorizar as fontes de informação, outro fator que dificulta esta tarefa é o próprio grau de ambigüidade que cada fonte apresenta com relação à informação que disponibiliza. Um usuário pode obter uma informação advinda de uma fonte que, para ele, é do tipo pessoal e
interna à organização na qual trabalha. Entretanto, esta mesma informação, repassada pela fonte pessoal interna, pode ter vindo de uma fonte documental (ex. um relatório disponibilizado em um site de um concorrente) que foi lido por esta fonte interna. Continuando o raciocínio, na confecção do relatório do concorrente, a mesma informação pode ser sido considerada importante por uma fonte interna da outra empresa que leu uma notícia em um jornal, e assim o fluxo informacional pode continuar até que se consiga identificar a verdadeira origem da informação (ou não).
Portanto, entender o fluxo que uma informação percorre até chegar a um usuário final que, a partir dela, tomará uma decisão de negócio na empresa na qual
trabalha, torna-se uma tarefa complexa, e que exige um trabalho de „rastreamento
informacional‟, se assim se pode chamar o trabalho de busca e validação desta informação.
Tudo isto acontece porque, na prática, a informação pode ser transmitida ao
longo de elos de uma “cadeia alimentar informacional” (CHOO, 1998, p.139), onde
... as fontes se alimentam umas das outras, formando diversas cadeias alimentares interrelacionadas, de forma que a informação é tipicamente transferida através de vários consumidores intermediários antes de chegar ao usuário final. (CHOO, 1998, p.139)
O conceito de „cadeia alimentar informacional‟ foi inicialmente introduzido por Pack e Pemberton (1998) em artigo no qual relataram a experiência dos serviços de informação da Ford Motor Company. A idéia central é que, especialmente em contextos organizacionais, as informações são transmitidas seqüencialmente ao longo de uma série de canais. Por exemplo, um profissional inicialmente descobre uma idéia interessante em um artigo, repassa essa idéia para um colega que, em seguida o encaminha por e-mail a outro colega. Ao longo dessa cadeia, a
informação pode ser transmitida em diversos tipos de formatos, ser transformada em termos de seu conteúdo, perder ou ganhar relevância, significado e valor. Acredita- se que, especialmente em decorrência das profundas transformações dos contextos informacionais contemporâneos, o estudo da dinâmica dessas cadeias informacionais torna-se cada vez mais importante.
Choo (1998, p.140) apresenta o conceito de „cadeia alimentar informacional‟
sob a ótica da „informação ecológica‟ („information ecology‟) (FIG.13), considerando que as fontes de informação não existem de maneira isolada, mas se alimentam umas das outras, utilizando e processando a informação antes de retransmiti-la, adicionando valor ou introduzindo distorções ao seu significado original.
FIGURA 13 – Modelo de Ecologia de fontes de informação. Fonte: Adaptado pelo autor com base em Choo (1998, p.140)
Em relação ao usuário final da informação, as fontes pessoais tendem a ser
consideram estas fontes as mais importantes quando necessitam buscar informações para qualquer finalidade.
4.3. Contribuição para o „Modelo Integrativo‟
Como resultado da integração entre as fontes de informação para negócios e
sua respectiva categorização, e o conceito de „cadeia alimentar informacional‟ (com
base no modelo de „Ecologia de fontes de informação‟), foi elaborado o „Modelo da
cadeia alimentar informacional para organizações‟ (FIG.14).
O primeiro nível (N0) refere-se ao ambiente interno da empresa, no qual se encontra o usuário final (neste trabalho, o decisor) e as fontes internas utilizadas por ele para a tomada de decisão. A partir do segundo nível (N1, N2,...), já no ambiente externo da empresa, se encontram as fontes externas. Com base na menção, pelo decisor, das fontes de informação utilizadas por ele para a tomada de decisão, o modelo pode ser expandido através do „rastreamento‟ de cada tipo de informação recebida até que haja interesse do pesquisador em prosseguir40.
Para cada uma das fontes mapeadas no modelo, deve ser identificado o meio de comunicação e de obtenção das informações, ou a forma de apresentação das mesmas (vide legenda anexa à FIG.14), dependendo do tipo de fonte utilizada (se pessoal ou documental).
40Vale a pena mencionar que o „rastreamento da informação‟ pode acontecer a partir de fontes pessoais ou documentais,
FIGURA 14 – Modelo da cadeia alimentar informacional para organizações. Fonte: Desenvolvido pelo autor.
108 Em estudo de caso realizado por Mafra Pereira e Barbosa (2009) junto ao principal gestor de uma empresa de pequeno porte atuante no mercado de Belo Horizonte (MG), responsável pelas decisões estratégicas desta, foi adotado o „Modelo da cadeia alimentar informacional para organizações‟ como referencial para a realização da pesquisa proposta, bem como para a análise das informações coletadas, sendo inclusive um dos produtos deste trabalho em especial.
A escolha da empresa foi feita através de amostra não-probabilística por julgamento (ou intencional) (MALHOTRA, 2001, p.307), sendo a entrevista individual em profundidade realizada junto ao seu principal gestor, guiada por um roteiro de perguntas semi-estruturado, utilizando-se da técnica do Incidente Crítico (FLANAGAN, 1954)41. O entrevistado relatou um fato marcante, caracterizado por ele como um momento de tomada de decisão estratégica em sua empresa, sendo possível identificar as fontes de informação utilizadas para a busca e coleta de informações que embasaram a decisão, bem como a interação entre elas.
Na análise dos dados foram utilizados como referência o „Modelo Geral de
Tomada de Decisão Estratégica em empresas de pequeno porte‟ (abordado na
seção 2.3 desta tese, FIG.6), o conjunto de fontes de informação para negócios (TAB.6 apresentada na seção 4.1) e o „Modelo da cadeia alimentar informacional para organizações‟. Através destes foi construído um „Modelo da cadeia alimentar informacional‟ referente à decisão específica descrita pelo gestor, e relatado o uso efetivo das informações coletadas no processo decisório apontado.
O estudo possibilitou a validação do „Modelo da cadeia alimentar informacional para organizações‟ no contexto de um processo decisório de nível estratégico em uma empresa de pequeno porte. Além disso, validou também o conjunto proposto de fontes de informação para negócios (34 fontes) e corroborou o „Modelo Geral de Tomada de Decisão Estratégica em empresas de pequeno porte‟.
O trabalho demonstrou que a forma de visualização desenvolvida através do „Modelo da cadeia alimentar informacional para organizações‟ constituiu importante contribuição metodológica no sentido de se permitir o entendimento das interações e interdependência entre as múltiplas fontes de informação utilizadas em processos decisórios organizacionais.
No próximo capítulo é apresentado o „Modelo Integrativo: comportamento informacional para decisões estratégicas‟, sendo este produto das reflexões teóricas descritas nos capítulos 2, 3 e 4 desta tese, sob a ótica do estudo „formulador / exploratório‟.
5. MODELO INTEGRATIVO: COMPORTAMENTO INFORMACIONAL PARA