The Calculus of Mobile Ambients
3.2 Weak Bisimulation for Mobile Ambients
IC4: A violência em trajetória bidirecional
Os discursos manifestaram uma concepção relacional de gênero e descreveram situações onde mulheres desencadeiam episódios de violência contra o parceiro íntimo como resposta às agressões sofridas ou como agressoras primárias que se tornam “como os homens” conforme narrativas apresentadas a seguir:
[...] E, também, tem o inverso, têm mulheres que violentam seus maridos, na nossa comunidade eu sei de mulheres que já bateram no marido e coisas assim. Morei perto de uma mulher, ela foi se defender, ela saiu perdendo, ele quebrou o braço dela, mas ela não ficou, assim, apanhou, nesse caso, revidou, por ela ser fraquinha aconteceu isso com ela. Mas já vi também outros casos, já vi sendo agressora, não só foi uma, foram duas, elas assim agredindo eles, ai às vezes, ele nem queria, mas ela insistia, já vi umas duas. Só que ele inventou uma vez de me bater e ai eu enfrentei ele e foi pau a pau, eu apanhei e ele apanhou também, aí ele não quis mais, vi que não era bom, isso está com mais de vinte anos. Já vi elas explodirem, dizer o que pensa, dizer da opressão que está passando, mas assim de cometer o ato, não ainda não vi não, pode ser que tenha. Uma boa parte das mulheres quando elas assumem um espaço de poder esquecem pelo quê lutaram a vida inteira e elas mesmo começam a oprimir, começam, em algum momento, se tornam como os homens, tem atitudes machistas, tem comportamentos diferentes do que elas defendiam há muito pouco tempo, eu já vi isso, se tornarem mais autoritárias. Por pressão, porque acima delas tem outros, também, que tipo de violência elas não sofrem por estar ocupando aquele espaço de poder, sofre a pressão e tem que agir, eu também reconheço dessa forma, que eu não sei se é assim. Nunca presenciei, assim não, mas já vi elas perderem o controle, chutar o pau da barraca e se eu tivesse coragem eu faria a mesma coisa, porque às vezes a gente se sente em uma situação difícil de conduzir. Assim tem situações que a gente vê, então, não só um lado, tem
os dois lados, que a gente tem que ver o porquê, então é a falta do preparo psicológico mesmo, acho que a mente da gente. Não, eu acho, assim, como a gente não tem os dados dos homens. Porque uma mulher muitas vezes ela sofreu uma violência, chega a um determinado momento, até ela deixou aquele companheiro, ela arrumou outro e antes que aquele ali comece a agredi-la, ela já repele aquilo que ela sofreu na outra pessoa. Já vivenciei, também, na minha família momentos assim de irmã minha pegar com facão para cima do marido querer cortar e tal, e ele não entender e também, não entendi por que. São violências assim causadas às vezes por pequenas palavras, às vezes a pessoa se irrita e passa mesmo para violência, acho que a conversa, ela tem que ser, nós temos mesmo que nos preparar até para conversa entre parceiros por que até na nossa fala a gente pode agredir. Sim, conheço mulheres que fez para se defender dele, porque senão tinha acontecido coisa pior, apesar de que a força da mulher é pouca, isso. Já vi vária, que geralmente elas têm com marido, mas só que é raro, eu acredito muitas vezes por ciúmes. Mulher não, mas homem sim, mulher eu nunca acompanhei, agora homem inclusive na minha família, tenho duas irmãs e tiveram um casamento muito violento. Foi nesse dia que ela ao em vez de apanhar, porque apanhava quase todos os dias, ela bateu no parceiro e tirou ele de dentro de casa, olha some da minha vida [...].
A ideia central 4 está relacionada a vivências de atos violentos cometidos pelas mulheres contra seus parceiros íntimos. A existência de episódios de violência surge quando a mulher quer se defender do parceiro violento, revidar a uma agressão, ou impor limites. Utiliza atos violentos para combater a violência. A dissolução da união ou do casamento acontece quando elas se dizem cansadas de sofrer repetidas violências por parte do parceiro íntimo, o que se percebe na seguinte narrativa: “foi nesse dia que ela ao em vez de apanhar, porque apanhava quase todos os dias, ela bateu no parceiro e tirou ele de dentro de casa, olha some da minha vida”.
Emergiu do discurso que as mulheres se apropriam do comportamento e do discurso masculino opressor quando assumem espaço de poder. Para elas, essa forma de agir se justifica porque, em algum momento, é necessário impor limites, o que se revelou na seguinte fala: “por pressão, porque acima delas tem outros que não são outras, são outros, também,
que tipo de violência elas não sofrem por estar ocupando aquele espaço de poder, sofre a pressão e tem que agir, eu também reconheço dessa forma, que eu não sei se é assim”.
Percebeu-se, ainda, que, em determinados momentos, algumas “perdem o controle” e se tornam agressivas, uma reação gerada em função de um ato violento. Outras não têm a mesma coragem de se impor: “já vi elas perderem o controle, chutar o pau da barraca e se eu tivesse
coragem, eu faria a mesma coisa”. Finalmente uma percepção da violência como linguagem
“porque até na nossa fala a gente pode agredir”.
A naturalização das violências de gênero consolidou condutas de omissão ou sustentaram a inexistência de olhares que permitissem o reconhecimento público (e diagnósti- co) dos eventos violentos. No DSC n.4, as entrevistadas apontaram que a mulher pode ser autora de atos violentos. Existem mulheres que desencadeiam episódios de violência contra o parceiro íntimo, o que ocorre porque elas não aceitam mais posição de desigualdade em relação ao homem, elas não aceitam mais a proteção masculina como instrumento de controle (GUEDES; FONSECA, 2011; SOARES, 2012; BONFIM; COSTA; LOPES, 2013).Embora as mulheres permaneçam em condição de maior vulnerabilidade a determinadas formas de violência, não se devem desqualificar esforços para reduzi-las quando os atos violentos são praticados por elas (CINTRÃO; SILIPRANDI. 2011; SOARES, 2012; BONFIM; COSTA; LOPES, 2013). As violências denominadas “recíprocas”, aquelas que ocorrem entre parceiros íntimos, são frequentes, mas a recorrência e a intensidade não são iguais para homens e mulheres (CINTRÃO; SILIPRANDI, 2011; SOARES, 2012).
A partir do discurso das líderes rurais com relação aos mecanismos protetivos para o enfrentamento da violência contra as mulheres obteve-se a ideia central que se segue.