O preconceito tal como indica a palavra é a formação de um juízo provisório, tanto das pessoas como das coisas com as quais estabelecemos experiências efêmeras; ele é o termo que designa as generalizações categóricas, os sentimentos ou comportamentos que surgidos de experiências incompletas não levam em consideração a singularidade do objeto visado. Isso significa que o preconceito tanto pode ser positivo como negativo. Na maioria das vezes, ele se dirige para uma gama variada de coisas ou de pessoas. Sem dúvida alguma toda pessoa emite juízo provisório sobre temas variados. Prejulgamos toda vez que a informação sobre um determinado evento não está ao nosso alcance. Nesse sentido, nem todo juízo provisório pode ser definido como preconceito. Mas, não é sobre esta modalidade do preconceito que pretendemos discorrer. Existe um fosso intransponível entre as noções de juízo provisório e preconceito. E, acreditamos que esta última descreve satisfatoriamente as formas de expressão do racismo em nossa sociedade.
Heller (1989:45) coloca que “o preconceito é um tipo particular de juízo provisório”. Isso significa que a recorrência desta modalidade de generalização pode produzir a contenção do esforço intelectual, obstaculizando os caminhos do juízo provisório e do pensar estereotipado. Admitindo que o juízo provisório é algo que se supera com facilidade resta-nos ilustrar a noção de estereótipo como indicador dos processos de diferenciação coletiva ou de discriminação social. Com efeito, tendo em vista o juízo provisório, nota-se que o pensar estereotipado possui um grau de rigidez mais elevado.
Dissertando sobre a questão dos estereótipos sociais Tajfel faz a seguinte consideração “os estereótipos são certas generalizações conseguidas por indivíduos. Derivam predominantemente, ou são uma instância, do processo cognitivo geral da categorização. Este processo tem como principal função, simplificar ou sistematizar, com vistas à
adaptação cognitiva e comportamental, a abundância e complexidade de informação que o organismo humano recebe do meio” (Tajfel, 1982, p.162).
Mas, nem por isso, ele deve ser confundido com o preconceito. A diferenciação entre o preconceito e o pensar estereotipado é que no segundo caso os fatos não possuem importância mesmo quando eles estão ao nosso alcance. Essa perspectiva formula a seguinte sentença: o termo preconceito não se refere aos prejulgamentos que fazemos cotidianamente. Só cabe falar de preconceito quando a motivação para a hostilidade não encontra correspondência entre as qualidades reais dos indivíduos ou grupos que se tornam alvo de preconceitos. Conforme Jahoda (1969:29) quando falamos de preconceito referimo-nos, fundamentalmente aos processos de “racionalização de uma hostilidade irracional”. Os trabalhos realizados pela psicologia social verificaram que, no seu conjunto, os preconceitos são fundados em fantasias pessoais ou coletivas.
Michel Wieviorka (1992) lembra-nos que o preconceito não pode ser explicado, tendo em vista apenas as experiências pessoais efetuadas em circunstâncias de conflitos sociais. Os estudos realizados pela psicologia social colocam que o preconceito racial é uma resposta social contrária à mudança da ordem estabelecida. A incorporação individual ou coletiva dos ensinamentos negativos que são transmitidos pelo sistema de convicção que preserva os princípios racistas no âmago da sociedade. Arnold M. Rose (1972) também destaca a importância dos estereótipos no processo de formação do preconceito e do racismo, sublinhando os aspectos curiosos que eles assumem. Os estereótipos têm uma relevância fundamental no processo de formação do preconceito contra os negros, por exemplo, “apresentam vulgarmente o grupo minoritário sob uma luz desfavorável, mas esse nem sempre é o caso. É assim que, na África do Sul e nos Estados Unidos, os estereótipos representam os negros como brutais, estúpidos e imorais, e também
como felizes, generosos e fiéis. Esta contradição resulta do desejo de utilizar os negros como domésticos e como trabalhadores não- qualificados, e de considerá-lo como ‘boas crianças’ satisfeitas em serem tratadas como inferiores” (Rose, 1972, p.166).
Por isso, outros estudos realizados no campo da psicologia social enfatizam que uma compreensão mais adequada do preconceito tem de estar voltada para os sujeitos preconceituosos.
Isto significa que tanto na esfera individual como no âmbito social a manifestação do preconceito visa a equacionar os problemas e as tensões que surgem dos conflitos sociais. Mas, devemos fazer uma diferenciação entre o conflito social de outras modalidades de conflito.
“Uma maneira de definir o conflito social, é dizer que é um conflito entre agrupamentos socioeconômicos ou sociopolíticos em larga escala, ao contrário dos conflitos intrínsecos a um indivíduo, entre indivíduos, ou entre pequenos grupos” (Tajfel, 1982, p.262).
Enfim, considerando o enfoque da psicologia social devemos assinalar que é na ação concreta do sujeito preconceituoso que se pode localizar o fator social e psicológico que transformam o indivíduo ou grupo em objeto da discriminação e do racismo.
Nesse sentido, Jahoda (1969) coloca que o preconceito se define como “uma atitude de hostilidade nas relações interpessoais, dirigida contra um grupo inteiro ou contra os indivíduos pertencentes a ele, e que preenche uma função irracional definida dentro da personalidade” (Jahoda, 1969 p.27).
Esta atitude negativa em relação à pessoa ou grupo alvo de preconceitos é sempre baseada no processo de comparação social em que o grupo do sujeito preconceituoso aparece como ponto positivo de referência. Diz respeito às opiniões dogmáticas que são emitidas pela pessoa preconceituosa contra os indivíduos de outros grupos. (Billig, 1984).
“O preconceito acompanha-se não somente de um sentimento de aversão, mas também de temor. Odiar é ter medo ao mesmo tempo. Certamente, o ódio e o medo podem justificar-se em certos casos. Mas, quando o perigo é imaginário, tais sentimentos são despropositados. E especialmente o caso dos preconceitos contra os grupos minoritários. A maior parte dos temores que eles denunciam são imaginários, mesmo que os consideremos justificados” (Rose, 1972:188).
Isso significa que o processo de formação do preconceito se relaciona com os interesses particulares dos grupos sociais. Logo o processo de formação do preconceito, o qual se manifesta através da hostilidade, muitas vezes, é representado por diferentes intensidades.
Analisando os estágios de manifestação do preconceito, Monteiro (1997) aponta cinco aspectos que moldam a sua manifestação:
“1. “Verbalização negativa (antilocução) – as pessoas limitam-se a verbalizar os seus próprios preconceitos entre amigos.
2. Evitamento– o preconceito manifesta-se, neste caso, de forma