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2. THEORY AND LITERATURE REVIEW

2.4 W HY HEALTH ?

Segundo Maria do Carmo de Freitas Veneroso,

A combinação de diferentes linguagens é uma tendência clara nas artes plásticas atuais, em que as fronteiras entre as manifestações artísticas tradicionais – o desenho, a pintura, a gravura, a escultura – estão cada vez mais tênues, o que torna a

95 BENJAMIN. Desempacotando minha biblioteca citado por MACIEL. A memória das coisas: Arthur Bispo do Rosário, Jorge Luis Borges e Peter Greenaway, p. 19.

determinação de limites entre essas linguagens uma necessidade quase que exclusivamente didática.96

Essa combinatória de linguagens, que torna os limites e as fronteiras entre as artes cada vez mais borradas e tênues, aproxima e entrecruza formas de pensamento artístico literário no estudo da escrita e da imagem. Como foi visto no primeiro capítulo, essa relação entre artes é instaurada desde o poema “Un coup de dés” no qual Stéphane Mallarmé encaminha a poesia para o diálogo com outras artes, instaurando a exploração de recursos visuais na poesia moderna.

De lá pra cá, observamos o surgimento de novas mídias, hibridismos visuais e literários que rompem com as fronteiras entre artes plásticas, visuais, música, literatura, teatro, dança, cinema, vídeo, fotografia etc. O diálogo entre arte e literatura tem, desse modo, necessariamente que considerar essa interação entre as linguagens; interação que está se tornando cada vez mais complexa e fonte de ricos encontros. Assim como Mallarmé restaura a visualidade do poema e propõe novas estruturas para a poesia, artistas plásticos como Hilal vão buscar no texto literário a sua visualidade, a sua materialidade.

Neste cenário, o conceito de hipertexto é considerado como agente de intercâmbio entre artes e como vetor que possibilita as relações transversais e transdisciplinares, além da correspondência entre literatura e artes, entre escrita e imagem. Para tal, recorremos ao conceito original, ao vocábulo cunhado por Theodor Nelson em 1960, hipertexto. A proposta do autor era condensar em numa palavra as tecnologias intelectuais que iriam revolucionar o jeito de viver, de pensar, de produzir arte e gerar conhecimentos:

Por milhares de anos, nós temos tido uma tradição chamada literatura. Sua estrutura interna tem sido de documentos, cada um com um proprietário/criador, que copia trechos que se referem entre si em uma sempre crescente bola de neve. Tudo o que eu proponho aqui é automatizar e apressar o acesso a essa estrutura tão tradicional – mas com convenientes melhoramentos advindos das técnicas dos sistemas disponíveis.97

O conceito de hipertexto já estava, portanto, em obras como a Bíblia e As Mil e uma noites, nas histórias entrelaçadas uma a uma por Sherazade, esperadas diariamente, ou

96 VENEROSO. Caligrafias e escrituras citado por VENEROSO. A visualidade da escrita: a aproximação entre imagem e texto nas artes do século XX, p. 35.

melhor, noturnamente, pelo sultão. Outras formas que abrigam os hipertextos são aquelas que associam textos a desenhos, gravuras, quadros, citações, notas de rodapé, referências bibliográficas, catálogos, índices, dicionários e toda sorte de enciclopédia já inventada pelo homem.98

Para Pierre Lévy, a interação das palavras constrói redes de significação, que funcionam como clarões. Estes clarões funcionam da seguinte maneira: “quando ouço uma palavra, isto ativa imediatamente em minha mente uma rede de outras palavras, de conceitos, de modelos, mas também de imagens, sons, odores, sensações proprioceptivas, lembranças, afetos, etc.”.99 Ou seja, uma palavra ou imagem desencadeia uma série de ligações de acordo com o arcabouço imagético do leitor, espectador, ouvinte; seja do texto literário ou do texto visual. Lévy acrescenta: “A estrutura de hipertexto não dá conta somente da comunicação [...] O hipertexto é talvez, uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que

significações estejam em jogo”.100

Dessa forma, o hipertexto assume um papel importante, pois se, de um lado, amplia consideravelmente a própria noção de texto, de outro, preserva a tradição da escrita e da literatura. Ao considerar os textos (sejam eles literários ou visuais) como fenômenos que vão além de sinais registrados numa superfície, a perspectiva hipertextual deflagra um modelo de leitura/escrita expansivo, aberto e potencialmente infinito. Assim, todas as coisas – eventos, humanos, animais, máquinas, processos, ideias – estão em conexão, o que não significa dizer que estão estejam em harmonia e semelhança.101

No texto “Desempacotando minha biblioteca”, cujo subtítulo é “Um discurso sobre o colecionador,” Walter Benjamin, assim como Baudrillard, fala, no primeiro quarto do século 20, sobre as coleções e o tédio da ordem, da ordem de se dispor de forma desordenada os livros, da relação do colecionador com seus pertences, do ato de colecionar ser mais importante que a coleção, mas, sobretudo, Benjamin considera fundamental a relação do ato de colecionar com as recordações.

Para Benjamin, a memória é a base da biblioteca, de qualquer coleção; “a herança [dos álbuns de figurinhas] é a maneira mais pertinente de formar uma biblioteca”.102 No ato de

98 PEREIRA. Redes literárias, p. 143.

99 LÉVY. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática, p. 23. 100 LÉVY. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática, p. 25. 101 PEREIRA. Redes literárias, p. 143.

desempacotar a biblioteca, abrir caixas de livros antigos, o cheiro, os títulos, deslocam ao passado, afloram sentimentos. Os livros são portadores de memória de lugares, de pessoas, de citações, de imagens, de coisas que já foram esquecidas e são, pelos livros, retomadas, libertas, erigidas. Para Benjamin, o ato de desempacotar sua biblioteca faz aflorar pensamentos diversos: “não são pensamentos, são imagens, lembranças”. Lembranças do caminho percorrido pelos livros, desde as salas luxuosas até o seu pequeno quarto quando criança, onde originaram os primeiros exemplares de sua coleção.

Benjamin não está só: para Calvino,103 através da misteriosa coleção de areia,104 através das diferenças mínimas entre areia e areia, o ato de colecionar areias de praias de lugares diferentes e semelhantes, com colorações, texturas e gramaturas também diferentes e semelhantes, fazia evocar as memórias imagéticas, sonoras, olfativas, sensoriais e das paisagens dos lugares visitados pela colecionadora.

Esse exercício de retirar do mundo pequenas amostras e fazer um mostruário de memórias, de lugares visitados e organizados em vidrinhos de areia, pode demonstrar outra coisa maior do que uma coleção? Podemos dizer que essa coleção pode ser uma espécie de descrição do mundo a partir das miniaturas? Para Calvino, toda coleção funciona como um diário, um diário de sentimentos evocados pelo objeto colecionado. Acreditava que o ato de colecionar era uma forma de fotografar o passado, com a “necessidade de transformar o escorrer da própria existência numa série de objetos salvos da dispersão, ou numa série de linha escritas, cristalizadas fora do fluxo contínuo dos pensamentos”.105

Olhando para os vidros de areia de várias praias do mundo, não é improvável que se demore em um dos vidros e inicie uma miríade de exercícios imagéticos na tentativa de “reconduzir à memória às sensações daquela praia, aquele cheiro de floresta, aquela ardência”, considerando ou não que aquelas memórias imaginadas continuam a ser areias coloridas encerradas em vidros etiquetados. Esse “cemitério de paisagens reduzidas a deserto” é esta difícil relação que a coleção mantém com o que é difícil apreender, a difícil tarefa de apreender a memória, esta substancia arenosa no qual todas as coisas são formadas.106

103 CALVINO. Coleção de areia.

104 A coleção de areia fazia parte da exposição de coleções estranhas em Paris, na década de 1970. 105 CALVINO. Coleção de areia, p. 15.