A carta do pintor Nicolas Poussin ao seu cliente, o coleccionador Paul Fréart dem Chantelou em 28 de Abril de 1639, reforça a ideia da protecção, de complemento e sobretudo de enquadramento que as molduras oferecem:
“ (…) Quand vous aurez reçu le vôtre, je vous supplie, si vous le trouvez bon, de l’orner d’un peu de corniche, car il en a besoin, afin que, en le consideránt e toutes ses parties, les rayons de l’oeil soeint retenus et non point épars au dehors, en recevant les espèces des autres objects voisions qui, venant pêlêmêle avec les choses dépeintes, confondent le jour. Il serait fort à propos que ladite corniche fût dorée d’or mat tout simplement, car il s’unit trés doucement avec les couleurs sans le offenser.”54
No século XVII, a concepção da moldura evolui e esta torna-se num elemento decorativo que oculta e decora. Um belíssimo exemplar de autonomização artística desta arte é a moldura de talha dourada barroca que envolve a pintura São João Evangelista em Patmos (Figs. 56-57), século XVII, no Museu de Lamego. Entalhada com motivos vegetalistas pintados de dourado, vermelho e verde, possui remate superior curvo, apresentando ainda motivos antropomórficos. A sua profusa decoração e policromia coloca-a numa posição privilegiada, esta moldura, per si, torna-a numa obra de arte autónoma.
A “instauração do quadro” está relacionada com a importância da moldura no final do século XVI. Contudo, em séculos anteriores, o valor já era atribuído à separação entre as imagens e os meios circundantes. Essas formas, de linhas mais ou menos decoradas, indicavam uma separação, ainda que pertencentes à imagem que enquadravam. Podiam ser de outro suporte diferente do da pintura, ou do mesmo, no caso da pintura de mural. Também as transgressões das molduras, efeitos desejados pelos artistas, faziam parte da
54 Cf. THUILLIER, Jacques Anthony Blunt, Nicolas Poussin Lettres Et Propos sur l'art, Hermann, Paris,
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valorização das molduras. As bordas, usadas na época medieval, eram propícias às transgressões. 55
A moldura é um elemento de ordem figurativa e estética, a primeira porque é usada para fazer ressaltar elementos da pintura; a segunda porque é um ornamento.56 A função decorativa é de embelezamento, mas não só, também evidencia o seu carácter de operar, enquanto separador.
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Vd. STOICHITA, Victor, L’instauration du tableau, Géneve Droz, 1999.
56 “(…) Le «cadre» en tant que forme artistique est un exemple unique, si on l’observe dans son extension
temporelle, e til l’est également quand on se réfère aux différentes cultureles. (…) La nouveauté du «cadre» reside précisément en ce qu’il dispose des éléments de l’architecture, et en premier lieu de l’antique pour créer un object d’ameublement, un «meuble». (…).” Cf. GRIMM, Claus, “Historie du
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A relação entre artesãos, pintores e encomendadores é relevante para o estudo das molduras. O entendimento de algumas das soluções artísticas tomadas, o papel do desenho assim como da difusão de gravuras, foram determinantes para o trabalho destes artistas, que apoiados nas modas de então, confeccionavam verdadeiras obras de arte, muitas vezes, com um cunho pessoal marcante, classificando-se molduras através de nome de artistas, como: Sansovino, Carlos Maratta ou Salvator Rosa, etc.57
Iremos, tanto quanto nos é possível, e tendo em conta os casos de estudos, mencionar os métodos básicos de manufactura e de decoração de molduras. O nosso trabalho, não passa, de todo, pela análise exaustiva dos materiais, contudo, devem conhecer-se previamente as matérias-primas e o seu uso na confecção e ornamentação destes objectos.
A grande habilidade e conhecimento das madeiras eram condições imprescindíveis. As obras possuem um carácter funcional e os seus acabamentos estavam directamente relacionados com a função que iriam desempenhar. A qualidade da madeira, o próprio corte e a manufactura eram feitas por profissionais especializados.58 Assiste-se a uma evolução das técnicas de execução, não só no que diz respeito às formas da estrutura, mas também dos sistemas de ensamblamentos adoptados. Estas mesmas características físicas de construção oferecem pistas sobre o país ou nacionalidade do artesão, uma vez que as diferentes regiões conduziram a novos estilos.59
O destino da obra (retábulo de altar, obra de pendurar, etc.) implicava certas especificidades de construção. O próprio peso das obras condicionava e reflectia-se na construção. Os pesados retábulos de altar, cujos sistemas de suspensão deveriam estar
57 Estas tipologias, reconhecidas pela História da Arte, correspondem a momentos artísticos distintos,
entre o Renascimento e o período Neoclássico. O perfil Cassetta, é associado ao Renascimento, moldura de linhas simples com decorações pintadas, recorrendo a técnicas como o sgraffito. No século XVII, a moldura assume decorações que se assemelham à orelha humana, sendo chamada de Auricular ou
Sansovino, por estar associado ao escultor italiano Jacopo Sansovino. Em Espanha, este estilo é também
apelidado de Herrera. O Barroco e o Rococó, épocas de decorações profusas, apresentam as molduras chamadas Maratta ou Salvator Rosa. Estas são apenas algumas das tipologias de molduras, não esqueçamos as especificidades regionais que ditaram outras nomenclaturas, assim como a proliferação de estilos como o Luís XIII, XIV, XV ou XVI. Adianta ainda esclarecer, que todos estes estilos deambularam pelos séculos, tendo sido retomados mesmo em épocas cujo uso é menos recorrente. No capítulo quatro deste trabalho, iremos desenvolver estes conceitos.
58 Vd. TIEMBLO, María Pía Timón El marco en España Del mundo romano al inicio del modernismo,
Publicaciones Europeas de Arte, 2002, p.33.
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preparados para assegurar a protecção da obra, evitando empenamentos, são um exemplo do minucioso do artesão, construtor de molduras.
Parte da documentação recolhida neste capítulo foi obtida através do estudo de Maria Pía Tiemblo, El marco en España Del mundo romano al inicio del modernismo, 2002, através do qual nos guiámos, teórica e metodologicamente.
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