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Julgou-se interessante à pesquisa coletar uma amostra de um artista não- contratado de um subgênero do rock, que tenha vivenciado algumas das transformações mais recentes citadas até aqui referentes ao cenário da produção musical, em especial ao que trata sobre as condições de acesso à gravação para o artista autônomo. Com a coleta deste material, torna-se mais viável a possibilidade de se fazer analogias entre as condições do músico autônomo (quanto ao desenvolvimento e gravação de sua obra) poucas décadas atrás e atualmente, podendo assim se ter uma idéia mais tangível sobre aquilo que se tem estudado e sobre o impacto destas transformações sobre o ambiente de produção musical contemporânea.
Como amostra, foi escolhida a banda catarinense Orquídea Negra. O pesquisador se deslocou até a cidade de Lages, local onde o artista é radicado, para realizar entrevistas com os quatro membros da formação atual do Orquídea Negra (dos quais três estão presentes desde a gravação do primeiro álbum), além de conversar via web conferência com Daniel Finardi, proprietário do estúdio onde está ocorrendo a gravação do álbum mais recente do grupo. As entrevistas completas estão transcritas e constam como anexos no final deste volume.
Uma das razões mais óbvias que motivou a escolha por esta banda foi a sua autonomia, na medida em que suas gravações sempre foram custeadas com recursos próprios, e não financiadas por uma gravadora. Além do mais, a banda apresentou trânsito mais intenso no mercado musical (e gravou seus álbuns) em dois momentos distintos, no começo da década de 1990 e atualmente, fato que permite que se observe com maior respaldo as consonâncias e desarmonias entre os dois períodos no que toca ao ambiente de produção musical e o acesso a este ofício.
Também a reputação da banda propicia a observação de questões relativas à pirâmide da carreira musical, apresentada no capítulo anterior. Como a maior parte dos artistas autônomos, o Orquídea Negra se restringiu mais a um circuito local durante boa parte da carreira, porém, por determinado período já ultrapassou estes limites. Estes distintos níveis de abrangência do mesmo objeto servem à proposta analítica do trabalho.
Outro motivo que torna interessante um olhar sobre este grupo musical, é o fato do Orquídea Negra ser um grupo musical geograficamente periférico, ou seja, territorialmente distante dos principais centros musicais do país. Em razão daquilo que
se ressaltou, no capítulo 2.1, dos trabalhos de Gueiros Jr. (2005, p.103) e Negus (2011, p.47), de que a questão geográfica também pode se apresentar como um desafio aos artistas não-contratados que vislumbram desenvolver sua carreira artístico-musical, soa particularmente interessante verificar o acesso de uma banda como esta aos meios de gravação em distintos momentos de sua carreira.
A respeito do grupo musical, o Orquídea Negra iniciou suas atividades em Lages, no ano de 1986, fundado pelo vocalista André Stolte Graebin. Após a passagem de diversos músicos nos anos de formulação da banda, a mesma se firmou com a seguinte formação: André Greabin (voz), Fernando Tavares (baixo), Marcelo Menegotto (bateria), Robson Anadon (guitarra/teclado) e Vinícius Porto (guitarra). Assim como é comum a bandas de rock, o Orquídea Negra inicialmente se agrupou para tocar covers de artistas admirados pelos membros do grupo. As principais influências naquele momento se tratavam de bandas britânicas do final dos anos 1960 e da década de 1970, como Deep Purple, Uriah Heep, Black Sabbath e Led Zeppelin85.
Figura 5: Orquídea Negra ao vivo em Lages, com uma das formações iniciais. Fonte: Acervo da banda.
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Com a passagem do tempo, a música do Orquídea Negra começou a apresentar algumas mudanças estéticas, se tornando mais pesada e mais próxima das bandas de heavy metal britânicas do começo da década de 1980, algo mais perceptível em seu segundo álbum, de 1994.
A banda, antes de gravar qualquer álbum, já havia começado a criar uma reputação local, porém, com base em um repertório formado só por covers. Algumas apresentações, como as performances no teatro do SESC de sua cidade e no Jornal do Almoço da RBS TV gravado no centro de Lages, elevaram o nome da banda no local. O trabalho autoral era um próximo passo necessário a partir daquele momento. O Orquídea Negra já havia escrito três músicas próprias até aquele ponto, todas em português. Contudo, descontentes com o resultado deste material (por considerarem insatisfatórias as suas tentativas de aliar aquelas letras escritas na língua nativa à sua sonoridade, segundo o vocalista André), decidiram abandonar as canções em português e passaram, a partir de então, a escrever somente em inglês.
Com uma formação estável e com novas composições, em 1992, o Orquídea Negra gravou com recursos próprios seu primeiro álbum de estúdio, intitulado Who‘s Dead?, lançado em LP, e reconhecido pela mídia local como o primeiro disco full- lenght86 de rock pesado do planalto catarinense e até de todo o Estado de Santa Catarina87. A banda foi até São Paulo para gravar este álbum e, após ir à busca de selos para lançar o trabalho, conseguiu um contrato de distribuição junto à Acit, gravadora do Rio Grande do Sul, firmando um acordo para distribuir o trabalho por toda a região sul do país. Será tratado mais especificamente sobre a produção deste disco e o ambiente em seu entorno em um capítulo posterior, da mesma forma com que se dará atenção à produção dos álbuns posteriores. Neste momento cabe apenas situar rapidamente a trajetória da banda, para que se possa gerar uma maior compreensão sobre o artista em questão.
O primeiro disco teve uma relativa boa recepção, difundindo o trabalho do grupo, com a venda de mais de 6.000 cópias no sul do país, algo que permitiu que fosse incrementado o seu roteiro de shows. O agendamento de shows e a vendagem dos discos foram impulsionados pela presença repetida da banda em jornais locais (Correio Lageano) e regionais (Diário Catarinense), revistas especializadas, como a Top Rock, Rock Brigade, Dynamite, Roadie Crew, programas de rádio e até por um videoclipe caseiro registrado pela banda que acabou sendo transmitido pela MTV Brasil.
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Disco de longa duração, com a presença exclusiva de canções do grupo.
87 Segundo o jornal Correio Lageano (Ed: 1 set. 1992) e Rock Brigade (nº 82, mai. 1993). Em Santa Catarina já havia bandas deste estilo na capital Florianópolis, como Burn, Têmpera, Corrente Sangüinea e Camisa de Força, entretanto estes grupos não deixaram LPs full-lenght gravados, apenas compactos e participações em coletâneas (JACQUES, 2007, p.43).
O nome da banda começou a estar presente em boa parte dos eventos de rock realizados em Santa Catarina, e até fora do Estado, que contassem com a presença de artistas renomados do gênero. Dentre os festivais importantes em que o Orquídea Negra esteve presente até meados da década de 1990, estão incluídos o Brahma Rock Festival (Curitiba/PR), o Festival da Feinco (Canasvieiras/SC), o Estação da Luz (Pato Branco/PR), o Skol Rock (Blumenau/SC), o Mountain Rock (Timbó/SC), além de um show exclusivo da banda na prestigiada casa AeroAnta, de Curitiba88.
Figura 6: Orquídea Negra ao vivo no Brahma Rock Festival, em Curitiba, evento realizado pela MTV (dez/92). Fonte: Acervo da banda.
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Para se ter uma maior noção dos eventos, em festivais como os supracitados, a banda teve a companhia, no cast, de artistas nacionais de peso, como Titãs, Barão Vermelho, Serguei, Rita Lee, TNT, Pepeu Gomes, Os Incríveis, Ratos de Porão, Garotos Podres e DeFalla. Além disso, o festival que a própria banda organiza, teve, em 2009, a presença de Glenn Hughes (Deep Purple, Trapeze, Black Sabbath) como atração principal.
Figura 7: Cartaz do evento Estação da Luz, janeiro de 1994, com a participação de nomes consagrados do rock nacional, onde está listada também a banda Orquídea Negra. Fonte: Acervo da banda.
A banda gravou seu segundo disco, Orquídea Negra, no ano de 1994, em Porto Alegre, com uma mudança na formação. Saiu o baixista Fernando Tavares e, em seu lugar um dos guitarristas, Robson Anadon, assumiu o baixo, deixando a banda com quatro integrantes. Com o trabalho em mãos, a banda buscou um selo para lançar o álbum, contudo, sem obter êxito. Após um ano, sem conseguir um contrato, o vocalista André deixa a banda e em seu posto entra Jean Varella, que sai de Criciúma para se juntar à banda.
Em 1996, já com dez anos de existência, desistindo de buscar um selo que investisse na promoção e distribuição do segundo álbum, o Orquídea Negra decide
lançar o trabalho por conta própria. Através de contato direto com os veículos de comunicação, enviando material com cartaz, release e CD, a banda consegue aparecer em matérias e resenhas de revistas e zines especializados de abrangência nacional, além de conceder entrevista a veículos de maior alcance, como a rádio Cultura, de Brasília. As vendas do disco, entretanto, foram inferiores às do anterior, vendendo pouco mais de 2.000 cópias.
No ano de 2003 há outro marco na carreira da banda, quando a mesma realizou e gravou um show no pub Latvéria, em Lages, lançando-o posteriormente, em 2005. Este trabalho inicialmente não tinha a pretensão de ser lançado, não houve muita preparação para a gravação, foram feitas poucas cópias e a banda utilizou o CD mais como um brinde para fãs e para distribuir em eventos envolvendo o grupo.
O CD ao vivo teve seu lançamento durante outro acontecimento importante para a história da banda, a realização do I Orquídea Rock Festival. Desde 2005 a banda anualmente organiza e realiza, em uma fazenda no interior de Lages chamada Refúgio do Lago, um festival Open Air89 com a participação de bandas de diversas regiões do país90. Em média, o público presente no evento é de cerca de 2.000 pessoas, e conta com cerca de trinta artistas se apresentando ao longo dos três dias e noites de realização do festival.
Em 2008, após ter passado por mais algumas trocas no posto de vocalista, a banda, que já havia começado a escrever novas composições para ampliar seu repertório, conta com o retorno de André Graebin. A mais recente troca na formação ocorreu quando o baterista Marcelo Menegotto saiu, indicando para o seu lugar na banda o seu aluno de bateria, Raphael Marini. Com esta formação, e após dezoito anos sem gravar um álbum completo com canções inéditas, o Orquídea Negra, em 2012, retornou a um estúdio para dar início ao registro de suas últimas composições.
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Modalidade de festival musical ao ar livre.
90 Artistas que já tocaram no festival incluem Pedra, Motorocker, Madgator, Mindflow, Soulspell, Scelerata, Torture Squad e Tierramystica, artistas de Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, além de Glenn Hughes (Deep Purple, Trapeze, Black Sabbath), atração internacional do evento de 2009.