• No results found

Podemos considerar que um dos meios em que Peirce apresenta de modo mais claro, direto e sucinto a composição do signo é em seus artigos de 18681. Mais precisamente em seu segundo artigo dessa série, Peirce especifica as três referências básicas de um signo: “(...) um signo tem, como tal, três referências: primeiro, é um signo para algum pensamento que o interpreta; segundo, é um signo por algum objeto ao qual, naquele pensamento, é equivalente; terceiro, é um signo, em algum aspecto ou qualidade, que o põe em conexão com seu objeto.” 2.

A primeira referência que podemos considerar em um signo é o próprio signo, em seu caráter como objeto significante e visto em sua própria qualidade material e peculiar. A segunda referência é a coisa tematizada pelo signo, o objeto significado e mostrado através dele, ao qual nossa atenção é dirigida, e que é algo que se diferencia em certos aspectos do signo ele mesmo. A terceira é o efeito mental suscitado pelo signo, que é um pensamento subsequente que detém o poder de interpretar adequadamente aquele signo como um meio de gerar e fornecer informações sobre coisas e relações diversas. Assim, “(…) um signo é uma coisa, A, que denota um fato ou objeto, B, para algum pensamento interpretante, C” 3. Esse é o essencial no comportamento dos três elementos que compõem o signo. Contudo, o próprio fato do signo ser configurado em três partes, se melhor analisado, pode nos fornecer uma explicitação mais acurada sobre esses elementos de modo a tornar possível uma reconstituição mais aprofundada sobre o comportamento de um signo.

O aspecto triádico do signo o identifica diretamente à categoria de terceiridade, vista a pouco. Sua constituição baseada em três elementos não configura algo aleatório, mas antes uma indicação direta da natureza do signo como um conceito inerente à

1 Intitulados: “Questions Concerning Certain Faculties Claimed for Man”, “Some Consequences of Four

Incapacities” e “Grounds of Validity of the Laws of Logic: Further Consequences of Four Incapacities”. Publicados respectivamente nessa ordem entre 1867/68, no The Journal of Speculative Philosophy. (Cf. Peirce, The essential writings, [Prefácio de E. C. Moore], Pg. 8. Obs: Esses artigos correspondem ao CP 5.213 a 357). Mais especificamente o segundo desses artigos é que trata de modo incisivo a noção de signo.

2 “(…) a sign has, as such, three references: first, it is a sign to some thought which interprets it; second, it

is a sign for some object to which in that thought it is equivalent; third, it is a sign, in some respect or quality, which brings it into connection with its object.” (Peirce, CP 5.283) [Tradução minha].

3 Peirce, Escritos Coligidos (Os Pensadores), Pg. 96 – “(…) a sign is something, A, which denotes some

81

terceiridade4, além de ser um dos fenômenos mais acessíveis dessa categoria, como confirma Peirce:

“As ideias nas quais a Terceiridade predomina são, como se deve esperar, mais complicadas e requerem análise cuidadosa para uma clara apreensão (...). A ideia mais acessível de Terceiridade dotada de interesse filosófico é a ideia de um signo, ou representação. Um signo toma posição por algo para a ideia que provoca, ou modifica.” 5

Assim, ao apresentar uma composição baseada em três elementos indispensáveis a sua caracterização, o signo se mostra como um conceito geral relativo à categoria de terceiridade. Portanto, cada um de seus elementos pode ser mais bem entendido se visto em analogia com as três categorias ontológico-semânticas mais básicas de Peirce.

O primeiro dos três componentes de um signo, por exemplo, seria fortemente análogo à categoria de primeiridade. Esse primeiro e mais básico componente, que seria o signo em si mesmo em suas características materiais significantes, que também é chamado por Peirce de modo mais específico por representâmen6, teria sempre a determinação de suas características dada através da possibilidade de diferenciações com outros elementos do signo, mas mantendo em tais elementos característicos a propriedade de serem em si mesmos pertencentes ao signo:

“Uma vez que um signo não é idêntico à coisa significada, diferindo desta sob alguns aspectos, ele deve ter claramente alguns caracteres que lhe pertençam em si mesmo, e que nada têm a ver com sua função representativa. Denomino estas de qualidades materiais do signo.” 7

De modo análogo ao exemplo da cor vermelha, que de fato não é nunca encontrada dissociada de algum objeto, podemos considerar que os aspectos materiais de um signo nunca podem ser determinados sem antes serem levadas em consideração suas relações com outros elementos de signo. Isso não impede que esse primeiro elemento do signo – o signo em si mesmo, ou significante – exista independentemente

4 Cf. Deledalle, Théorie et pratique du signe, Pg. 68.

5 “The ideas in which Thirdness is predominant are, as might be expected, more complicated, and mostly

require careful analysis to be clearly apprehended (…). The easiest of those which are of philosophical interest is the idea of a sign, or representation. A sign stands for something to the idea which it produces, or modifies” (Peirce, CP 1.337-338) [Tradução minha].

6“My definition of a representamen is as follows: A REPRESENTAMEN is a subject of a triadic relation

TO a second, called its OBJECT, FOR a third, called its INTERPRETANT, this triadic relation being such that the REPRESENTAMEN determines its interpretant to stand in the same triadic relation to the

same object for some interpretant.” (Peirce, CP 1.541).

7 Peirce, Semiótica, Pg. 270. “Since a sign is not identical with the thing signified, but differs from the

latter in some respects, it must plainly have some characters which belong to it in itself, and have nothing to do with its representative function. These I call the material qualities of the sign.” (Peirce, CP 5.287).

82

de outras relações. O fato de haver essa necessidade de diferenciação com outros elementos para o reconhecermos como signo não impede que essa característica da primeiridade – a de poder existir em si mesma – seja atribuída a esse elemento.

Esse aspecto relacional não é indispensável para a caracterização das propriedades materiais de um signo tomado em si. Contudo, é essencial para o segundo elemento de um signo, que é sua capacidade de se remeter a coisas diversas. Tal elemento tem como explicação de base o fato de haver realmente uma conexão entre duas coisas distintas, entre algo significante e algo significado:

“Um signo deve ser capaz de estar conectado (não na razão, mas na realidade) a um outro signo do mesmo objeto, ou ao próprio objeto. (...) Esta conexão física, real, de um signo com seu objeto, quer imediatamente ou através de uma conexão com um outro signo, é por mim denominada de

aplicação demonstrativa pura do signo.” 8

A relação entre significante e significado é aqui a aplicação da capacidade do objeto que significa, do signo em si mesmo, em apontar para outra coisa além de si, e chamar atenção para o objeto que é significado. Essa interação entre objetos distintos, intrínseca ao segundo elemento do signo, serve de base para que um possa indicar o outro e é marcada pelas características típicas da secundidade.

Contudo, um dado objeto com certas qualidades materiais e com certas relações com outros objetos distintos de si mesmo não configura por si só o que aqui está sendo chamado de signo. Tais elementos são condições necessárias, mas não suficientes para se falar de um signo. É preciso que intervenha um terceiro elemento, que seja responsável pelo poder representativo do signo. Esse terceiro elemento do signo é o componente mais proeminente na sua constituição. A necessidade de interação com os outros elementos é dada por definição, visto que este elemento é próprio à terceiridade, e isso pressupõe necessariamente uma relação prévia entre dois elementos distintos anteriores a ele.

De modo simplificado, podemos encarar esse elemento como uma função onde os primeiros componentes se encontram em certa disposição de modo a poderem gerar representações, tendo sempre em vista a presença de um receptor para essas representações. Receptor, no sentido de haver um pensamento de um intérprete qualquer

8 Peirce, Semiótica, Pg. 270 e 271. “(…) a sign must be capable of being connected (not in the reason but

really) with another sign of the same object, or with the object itself. (...) This real, physical connection of a sign with its object, either immediately or by its connection with another sign, I call the pure

83

para entender tais conexões básicas do signo através de uma função representativa, lendo tais conexões de modo significativo e/ou intencional. O pensamento é o receptor da função precípua de representação própria a todo signo:

“(...) a função representativa de um signo não reside nem em sua qualidade material, nem em sua aplicação demonstrativa pura, porque é algo que o signo é, não em si mesmo ou numa relação real com seu objeto, mas que é

para um pensamento, enquanto que ambos os caracteres recém-definidos

pertencem ao signo independentemente de se dirigirem a qualquer pensamento.” 9

A função representativa é, em resumo, a capacidade de uma relação entre objetos distintos ser interpretada de modo significativo através de um pensamento que consegue decifrar os sinais de conexão entre tais objetos. Esse terceiro componente do signo é mais especificamente chamado por Peirce como o “interpretante” de um signo10. Esse ponto em particular será analisado mais pausadamente a seguir, em suas possíveis diferentes constituições.

Enfim, fica assim apresentado o básico em relação ao signo e sua composição fundamental, de modo a confirmarmos a anterioridade e a presença das categorias de Peirce em meio à definição de signo. A seguir, será mostrado um pouco das consequentes subdivisões e classificações do signo, mediante essas mesmas categorias básicas de Peirce evidenciadas em meio à definição do signo.

9“(…) the representative function of a sign lies neither in its material quality nor in its pure demonstrative

application; because it is something which the sign is, not in itself or in a real relation to its object, but which it is to a thought, while both of the characters just defined belong to the sign independently of its addressing any thought” (Peirce, CP 5.287). Dando continuidade a esse trecho, ele explica o possível sentido de dizermos que apenas os dois primeiros elementos poderiam ser ditos constituir um signo: “And yet if I take all the things which have certain qualities and physically connect them with another series of things, each to each, they become fit to be signs. If they are not regarded as such they are not actually signs, but they are so in the same sense, for example, in which an unseen flower can be said to be

red, this being also a term relative to a mental affection.” (Peirce, CP 5.287).

84