Tecendo considerações sobre a especificidade dos papéis familiares, percebe-se a presença da mãe como figura central de referência de todos os jovens. Apoio, afeto, cuidado, bem como conflitos e cobranças estão presentes nas histórias relacionadas com a mãe, tendo em vista que ela é a pessoa mais presente no cotidiano privado e familiar. Como vimos no capítulo II, diversas vertentes da teoria psicanalítica (Freud [1905]; Winnicott, 1993; Mahler, 1994; Greenberg e Mitchell, 2001) acentuam a importância da função materna na constituição da personalidade individual, sendo consensual o processo de identificação e diferenciação materna para a definição da orientação sexual, do sentimento de integração egóica e estabelecimento de relações objetais saudáveis com outros personagens no mundo social.
É curioso notar a dificuldade das jovens na relação com as suas mães; diversos casos foram narrados, em que as jovens sentem-se pressionadas, insatisfeitas, rejeitadas pela mãe, gerando uma atitude de bastante ambivalência – o amor é reconhecido, há o
reconhecimento da identificação com padrões maternos de comportamento, mas, simultaneamente, há muita raiva e mágoa, discurso esse já citado nas páginas anteriores. Também levando em consideração hipóteses psicanalíticas, haveria uma certa reelaboração, na adolescência, dos conflitos vividos durante o período edípico (Erikson, 1981; Aberastury, 1983; Gallatin, 1978), na busca de novos elementos de diferenciação e identificação com os pais, propiciando uma afirmação da identidade pessoal, social e sexual. Como veremos nas falas transcritas abaixo, não percebemos esse fato no discurso dos jovens, que expressam bastante amor na relação com a mãe, com exceção de Hudson que nos conta uma história pessoal de muito abandono, rejeição e medo. Vejamos como alguns de nossos participantes referiram-se à figura materna:
Acho que eu tenho algumas coisas que eu devo ter puxado do meu pai e da minha mãe. Eu sou muito escandalosa, mas eu puxei a minha mãe, eu sou muito ignorante, acho que eu puxei dela. (...) Eu acho que com as pessoas mais próximas, meu namorado tava dizendo ontem: - “Você não quer ser igual a sua mãe, mas você é igual a ela”. E eu não queria que fosse. (Tarciana, entrevista individual).
É tudo, mãe já tá dizendo: é quem cuida e dá educação e aborrecimento (...) Assim, ás vezes assim eu tenho orgulho de falar que eu tenho mãe, mas às vezes eu tenho vontade de dizer: - ‘Infeliz que eu tenho mãe’. (...) Só em alguns momentos eu sinto raiva, momentos que ela tá brigando, discutindo comigo, mas às vezes eu sinto muito amor. (...) ela é a única que procura resolver o que nós fazemos de errado, ela é quem está nos defendendo sempre, é ela que nos faz. (Carol, entrevista individual).
Mãe, que cuida da família assim, carinho, cuidado, mãe é cuidadosa demais. Eu, quando a gente queria ir pra padaria à noite, assim, mãe não dorme enquanto a gente chega em casa mesmo sabendo onde a gente tava, essas coisas, muito cuidadosa. Muito legal.(...) Sinto paixão, muito amor, gosto muito dela. (Leonardo, entrevista individual).
Mãe, eu acho que é uma coisa importante. Porque é quem gerou a gente, e o primeiro carinho, a primeira educação, geralmente, é da mãe. Digo isso porque o pai trabalha, e a mãe não, a mãe fica cuidando da pessoa. E no caso, geralmente, pra mim tomar uma decisão, passo primeiro pela minha mãe. (...) Porque ela é mais compreensiva do que o pai. (Luís, entrevista individual).
História de família é... Muito doloroso. (...) Porque, só quando eu nasci, fui logo pro orfanato, fiquei lá até os sete anos, aí, minha vó ia me visitar toda semana, minha mãe não ia. (...) Quando eu saí de lá, fui morar na minha mãe, aí, minha mãe trabalhava, ela me deixava na casa de um, na casa de outro, aí, eu fui aprendendo a viver. (...) Na
minha vida, eu já passei vários dias foras de casa, eu já dormi num morro, já dormi no chão já, minha mãe já bateu eu mim já de sair sangue já. Ela bateu três vezes já em mim, já que o sangue ficou escorrendo. (Périsson: O que você sente quando você conta
essa história?) Medo, medo. Eu não sei como explicar, não sei como dizer esse medo, é
um medo... Só eu sei. Medo dela. (Hudson, entrevista individual).
Já o pai é concebido, para os jovens de ambos os sexos, como figura principal de sustentação econômica e moral; ele é quem dá suporte à mãe na imposição de limites e controle dos filhos. Na relação entre pai e mãe, a mãe é geralmente considerada uma mediadora dos filhos com o pai, relativizando os interditos. A função do pai, em termos psicanalíticos, além de suporte imprescindível para que a mãe possa ter segurança no exercício dos cuidados e afeto, serve principalmente como instauradora da Lei no psiquismo infantil, no momento em que o pai entra na relação simbiótica como um Outro na relação, instaurando a alteridade, a autoridade e o uso da linguagem como mediadora das relações (Lacan, 1987; Greenberg e Mitchell, 2001; Winnicott, 1993). É interessante notar como as jovens possuem uma relação conflituosa com os pais biológicos, o que não acontece com seus padrastos, nesse sentido o processo de separação dos pais trouxe para essas jovens um contato de um pai substituto mais positivo, acarretando um afastamento do pai biológico, já que as estórias de divórcio estão permeadas de conflitos; os pais biológicos são vistos como negligentes, faltando com suas obrigações materiais e afetivas. Já os rapazes citam a relação com o pai com uma certa ambivalência e distanciamento, bem diferente do amor incondicional relatado no que se refere à mãe, vale ressaltar que, com exceção de Hudson, os jovens possuem uma estrutura de família nuclear, na qual seus genitores continuam unidos no primeiro casamento. Citemos as falas dos jovens:
É dar o exemplo. Porque, tipo, quando a mãe ta grávida, ele var fazer o que? (...) ele vai trabalhar pra comprar comida, pra comprar roupa, pra ir, tipo, a criança, quando tiver grande, ele botar no colégio, ele que vai ser encarregado disso. Porque, na maioria das vezes, as mulheres não trabalham, ficam cuidando da casa, não é verdade? Então, ele (...) dá educação, põe moral, quando a mãe, tipo, não tem um pouco moral, o pai lógico que ele vai ter moral. (Nilson, quarto encontro).
Porque, até assim, né, o pai, assim, ele tem mais voz ativa pra o filho do que a mãe. Então, acho assim pra mãe criar um filho sozinha eu acho que ela tá passando muito sufoco sem o pai. Porque o filho fazer uma coisa errada, ela reclama, mas ele: - “Ah, é só minha mãe, eu não tenho pai, eu não tô nem aí, não quero nem saber, não sei o que.” Já o pai não: - “Olhe o respeito, não sei o que, você ta fazendo isso errado”. Já bota moral mesmo, assim, ele já fica mais: - “Não, tenho pai e mãe que ainda mandam em mim”. (Carol, quarto encontro). Quando ele bebe, às vezes, ele bagunça em casa, sei lá, faz uma bagunça, quando vai comer mela a mesa todinha, aí minha mãe começa a brigar. (...) Aí, eu fico na minha, calado, fico perturbado, não gosto de me meter não. Às vezes dá raiva. (...) Pai, assim, acho que a mãe é intermédio da família, mas o pai
também. Meu pai sempre foi preocupado com a gente, pelo menos comigo assim, sempre tá perguntando se eu tô precisando de alguma, de dinheiro, dessas coisas. (...) Gosto também muito dele assim, não tanto como minha mãe. (Leonardo, entrevista individual).
Onde meu padrasto chega, se perguntar: - “são seu filhos?” – “São meus filhos, são mesmo que fossem meus filhos”. Ele fala, ele tem até um orgulho de falar. (...) Eu me sinto assim: uma pessoa amada, por ele não ser meu pai, ele se dedicar a mim, a meus irmãos, e tem o orgulho de falar, porque tem uns aí, tem homem que nem fala. É maravilhoso você escutar, dizendo isso, uma pessoa que não é nem seu pai. (Carol, entrevista individual).
Percebemos, no discurso dos jovens, uma concepção de papel dos pais bastante tradicional, na qual a mulher deve ficar em casa, cuidando dos filhos e o homem deve prover o sustento da família por meio de seu trabalho fora de casa, reforçando a dicotomia burguesa que associa a mulher ao mundo privado e o homem ao mundo público. Formas alternativas de organizar a família, como casas chefiadas pela mulher, são admissíveis mais facilmente no discurso das jovens do que dos garotos. Faz-se necessário notar que as mães de todas as jovens participantes da pesquisa encontram-se trabalhando, fato sentido por elas como condição de independência e satisfação pessoal, ou seja, de uma certa forma, eles concebem os papéis parentais de acordo com os referenciais vividos na sua realidade concreta.
Luís: A mãe tem que tá em casa, tem que fazer comida, tá limpando a casa, cuidando dos filhos (Tâmara: E pronto). E o pai vai trabalhar, vai... (Tamara: Trazer o cumê pra casa, dinheiro).
Carol: Então, qual a função dos pais: criar e educar os filhos. (quarto encontro).
Nilson: Quando eu lembro de mãe, eu lembro logo da pessoa que criou a gente, sei lá... (Hudson: Que deu a vida.). É, ela que cria, educa, dá apoio... (quarto encontro)
Para além de explicações psicanalíticas que recorrem às funções maternas e paternas na constituição do psiquismo adolescente (Graña, 1991a; Griffa e Moreno, 2001; Lacan, 1987, Meyer, 2002), temos que considerar o contexto histórico e social que privilegia uma ênfase nos papéis maternos no cuidado da casa, no espaço da privacidade, educação e emoção. Historicamente, as mulheres estão destinadas ao contato mais íntimo na criação e cuidado dos filhos, sendo as principais representantes do controle e inculcação dos valores sociais para com os filhos, principalmente do sexo feminino. Nesse sentido, vale relembrar a importância da mulher como mantenedora da
família das classes populares, visto que existe um crescente aumento das famílias monoparentais39.
Outras personagens, tais como avós, tios, padrinhos, estão presentes na concepção de família em funções complementares às citadas anteriormente, referente aos pais, tais como auxiliar na criação, ajudar nas questões financeiras, referindo-se aos outros familiares como mais permissivos e amigos que os próprios pais (Dias e Silva, 2001; Arantes, 1982; Cupolillo et alli, 2001; Peixoto, 2000). A relação com os irmãos, no entanto, ganha uma característica peculiar, já que, a nível hierárquico, consiste na real posição de igualdade dentro do sistema familiar (Silveira, 2002). Para além do imaginário de amizade, confidência e apoio, ressaltamos a competição existente entre os irmãos. Diversas histórias foram relatadas explicando o incômodo dos jovens em ser comparados com os irmãos por outros membros da família, rompendo com a suposta igualdade que deveria acontecer. Existe sempre um “outro” que corresponde mais às expectativas dos pais, geralmente representados pelos irmãos e, outras vezes por primos, amigos, vizinhos. Quando essa situação acontece entre irmãos gera-se um clima de competição, que se torna ainda mais acirrada quando são filhos de outros relacionamentos do pai ou da mãe.
Arenga, disputa, é... Isso é uma parte, mas tem outra parte que é: que
geralmente pode confiar, que pode ajudar. Porque nem sempre os pais numa
situação podem ajudar. Um irmão, dependendo da relação (...), pode até
ajudar, e também ser ajudado também. (Luís, quarto encontro).
Eu acho que irmão é a mesma coisa entre um pai e uma mãe juntos, só que ele
vai conviver com você, ele vai... você querendo ou não, é melhor você ir
querendo ser amigo dele. (...) eu considero o meu primo como irmão, porque,
eu acho que já falei aqui, ele é a única pessoa que sabe da minha vida cem por
cento, o que eu fiz, o que eu deixei de fazer é ele quem sabe. (Nilson, quarto
encontro).
Tem uma irmã que é só parte de mãe, sabe? Então, ela (mãe) diz que eu menosprezo ela, que eu não sei o que... Mas eu não, porque eu vou ficar naquele lengalenga? Não gosto de, irmãzinha, não sei o que... IRMAZINHA, PRA LÁ, (enfatiza), negócio de irmãzinha, nã! (Tâmara, terceiro encontro).
Eu falo com meu irmão por parte de mãe e pai, que o meu irmão por parte só de mãe a gente fala o necessário se cumprimenta, se o telefone tocar pra ele, se mãe deixou um recado assim, mas não é assim de sentar e conversar como é eu e meu irmão por parte de mãe e pai. E mãe sempre, até hoje, ela sempre tratou ele muito diferente, entendeu? Porque ele lembra, e ela deixa bem claro pra ele poder perceber. Outra coisa é que ele é muito abusado, muito chato, eu não gosto muito dele. (Tarciana, entrevista individual).
Por fim, gostaríamos de ressaltar a quase ausência de falas relacionadas ao papel e responsabilidades dos jovens na sua estrutura e dinâmica familiares. Percebemos que é bastante difícil para eles reconhecer sua co-implicação na dinâmica familiar; principalmente nas situações de conflito; a culpa é geralmente atribuída aos outros. A responsabilidade e contribuição para com a família é pensada em um momento futuro, no qual poderão ajudar no sustento da casa e cuidar dos seus pais. Alguns jovens já buscaram trabalho para ajudar nas despesas domésticas, mas boa parte dos participantes está vivendo uma condição de dependência financeira da família, o que é bastante incomum para jovens moradores de bairros periféricos que vivem condições de pobreza. De uma certa forma, essa condição permite a esses jovens uma inserção mais ativa em movimentos sociais como o Engenho de Sonhos, no papel de articuladores. Apesar
disso, os pais cobram de alguns jovens a entrada no mercado de trabalho, desvalorizando a participação no Fórum, por não reverter ganhos materiais a curto prazo40.
Os jovens reclamam por seus direitos de autonomia, lazer, sustento, educação e apoio afetivo, com pouca referência aos deveres que são impostos pela condição de filho jovem. Reivindicam direitos da infância, revelando uma condição de falta explícita nos discursos como um desconforto vivido constantemente. Podemos observar, enfim, a assimilação de um padrão de juventude burguesa nos jovens entrevistados, no qual podem abrir mão da condição de contribuir com a renda familiar, sendo devidamente sustentados e amparados até a sua total independência. Cria-se, assim, mais uma condição de conflito, por estar numa realidade na qual esse ideal é quase inatingível, uma frustração por seus pais não lhes darem esse conforto, que deve ser suprido totalmente.