A revisão caracteriza-se como o processo cuja função é melhorar a qualidade do texto. A revisão corresponde ao momento de leitura do texto já construído, para prosseguir com um novo momento de redacção ou para avaliar o texto previamente escrito em relação ao objectivo pretendido e proceder à sua reformulação. É o momento de leitura e reflexão sobre o texto com o propósito de proceder a uma avaliação e a uma nova fase de redacção.
Flower e Hayes (1980,a) consideram que a revisão é um processo que envolve dois subprocessos: a leitura para avaliação e a reformulação:
“The function of REVIEWING process, which consists of READING and EDITING subprocesses, is to improve the quality of the text produced by the TRANSLATING process. It does this by detecting and correcting weaknesses in the text with respect to language conventions and accuracy of meaning, and by evaluation the extent to which the text accomplishes the writer´s goals..” (p.12).
A revisão, activada normalmente de forma consciente, pode ocorrer de forma inconsciente, a qualquer momento do acto de escrita, interrompendo outros processos, por curtos espaços de tempo.
A revisão visa detectar e corrigir o incumprimento de convenções de escrita, de imprecisões de significado e avaliar o texto em relação aos objectivos de escrita.
Para Fitzgerald, citado por Carvalho (1999), a revisão constitui-se por três momentos: a detecção de discrepâncias entre o texto real, escrito até ao momento, e o texto ideal, o seu diagnóstico e a produção de alterações.
Segundo Fayol e Shneuwly (1987), a revisão decorre da comparação entre o texto real e o texto idealizado:
“… la révision […] se révèle un processus complexe comportant au moins trois phases: détecter l´erreur, identifier sa nature et corriger. Elle implique donc toujours la comparaison de deux représentations. La première a trait à une norme préalable et/ou à une intention et/ou une audience (les trois peuvent coexister). La seconde concerne le produit lui-même dont l´auteur doit inférer, en adoptant la position du lecteur, la représentation qu ´il amène à construire.” (p.232).
A revisão concretiza-se em qualquer momento do processo de escrita, em direcção a níveis mais específicos ou mais globais, sem se circunscrever à mera
releitura ou reparação de problemas, gerando, ocasionalmente, nova planificação mental que pode suceder antes mesmo do início do processo de redacção.
Como esclarece Barbeiro (1999), “a revisão acarreta em si a virtualidade de o sujeito retomar todos os subprocessos do processo de escrita…”.(p.62)
A consideração de aspectos existentes apenas no plano mental requer, do escrevente, determinadas capacidades de abstracção para que sejam postas em prática.
Podemos concluir que a revisão constitui um processo complexo, pois, considerar os objectivos do texto, avaliar se o texto os permite atingir e propor soluções para a sua consecução, não representam tarefas simples.
Estas dimensões de planificação, textualização e revisão, segundo a perspectiva cognitivista, não devem ser entendidas como fases, mas como componentes cuja activação não é necessariamente sequencial: a ordem da activação pode ser alterada.
Todo o processo é gerido por um mecanismo de controlo (monitor) que determina a passagem de um processo a outro e que é activado na tomada de decisões condicionadas por objectivos, hábitos e estilos individuais de escrita.
A metodologia usada por Flower e Hayes (1980,a), para a representação deste processo, baseou-se na análise de protocolos, definidos por estes como “uma descrição de actividades, ordenadas no tempo, em que o sujeito está envolvido enquanto desempenha uma tarefa”.(p.4).
Os escreventes em estudo tinham de verbalizar tudo o que ocorria nas suas mentes enquanto se concretizava a tarefa de escrita.
Foi esta condição que levou a que este modelo fosse contestado por alguns autores que consideravam, entre outros aspectos, que o simples facto do escrevente verbalizar acerca da situação de produção do texto podia induzir e não revelar os processos descritos no modelo de Flower e Hayes (ibidem).
Segundo Pereira (2000), a necessidade de verbalizar podia levar o escrevente a sequencializar as três fases da sua actividade.
Por outro lado, se alguns autores se filiavam na perspectiva cognitivista, outros buscavam, noutros modelos, valorizar a dimensão pragmática da escrita, socialmente contextualizada e condicionada de forma externa ao escrevente.
A oposição entre os defensores de modelos aplicáveis a qualquer situação, independentemente dos contextos, e os que advogavam a escrita como acto específico e contextualizado foi superado, de acordo com Carvalho (1999), na investigação recente, pela articulação entre o conhecimento genérico dos cognitivistas e o conhecimento episódico dos últimos.
Foi a conciliação entre estas duas dimensões que permitiu que Flower (1994) tivesse redefinido o modelo elaborado com Hayes no sentido de integrar a componente contexto de produção (que compreende os factores exteriores susceptíveis de influenciar o escrevente) em interacção com a componente indivíduo (que incorpora a motivação, a afectividade, os processos cognitivos e a memória).
De uma forma sucinta, Carvalho (1999) explica:
“ O processo de construção do sentido (do texto) ocorre em ciclos de negociações que pressupõem um momento de interpretação (no qual o sujeito analisa o contexto, interpreta as expectativas dos leitores, define o significado de palavras-chave, constrói uma representação da tarefa), um momento de negociação (em que considera diferentes factores que condicionam a tarefa – individuais e sociais – o leitor, o contexto, as dimensões retórica e linguística, outros textos…) e um momento de reflexão (para avaliação, justificação, geração de alternativas).” (p.59).
Em suma, a escrita é entendida como um acto de comunicação que requer um contexto social e, ao mesmo tempo, uma actividade de produção apoiada na motivação e na actividade cognitiva, com vista à construção de um significado negociado.