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Para esta pesquisa foi realizada uma vasta leitura da literatura que discorre sobre o teme proposto. Diversos artigos retratam o cenário da obesidade infantil como crescente, mas passível de mudança por meio do melhor e mais profundo conhecimento de suas causas passíveis de intervenção e, então, a partir disto, a execução de ações que retraiam sua abrangência no mundo e minimizem seus danos e consequências futuras.

Com base neste argumento, após constatar a convergência entre os temas relacionados à obesidade infantil, os quais realinhamos em dimensões e denominamos fatores e subfatores, e as realidades observadas, coletadas e analisadas por este estudo, compreendemos a relevância de evidenciar fatores que não havíamos extraído da literatura utilizada, mas que emergiram dos relatos obtidos. Estes fatores emergentes podem ser recolocados nas dimensões e fatores em um segundo momento, contudo, para que sejam entendidos em sua totalidade e importância, antes foram explorados brevemente nesta seção.

A partir dos relatos analisados, pudemos perceber alguns fatores relevantes para a questão da obesidade na infância que emergiram dos relatos da pesquisa e influenciam no seu desenvolvimento, bem como são influenciados pela sua manutenção no organismo. Primeiramente, a ansiedade por comida, um fator que pode ser visto como uma das causas do aumento da ingestão de alimentos, influenciando diretamente na quantidade consumida, muitas vezes sem fome, apenas pelo ato de alimentar-se. Cabe destacar que este fator foi apontado como causa para o aumento do sobrepeso, mas também pode ser evidenciado como consequência de estratégias de enfrentamento dos obstáculos diários encontrados por estas crianças devido ao excesso de peso, observado nos fragmentos expostos:

que ela tem, não dá, é direto, almoçou, comeu bem, aí diz “tô com fome” eu digo, você não tá, você comeu bem, não é assim não, aí lancha, tudo bem, vai comer, aí depois, tô com fome. Aí vai, se deixar ela passa o dia todinho comendo, agora é mais besteira... (E.1)

Exatamente, pra saciar. Mãe, to com fome. E realmente, não só do pai, mas ele tem um grande problema de ansiedade que é a questão do...[...]. Quando ele tá sem, por exemplo, a gente tá em casa no final de semana e aí a gente vai numa praia, ele brinca, brinca, daqui a meia hora, 1h, 2h, ele vai pedir comida. Se ele tiver em casa, a cada 15, 20 min ele pede comida. Mãe, to com fome, mãe, to com fome. Então se ele tiver sem fazer nada, ele fica morrendo de fome. Agora, assim né, diz que tá com fome e se tiver ocupado, com a mente ocupada, ele esquece mais. (E.12)

De acordo com Gahagan (2004), o comportamento alimentar descreve a regulação do apetite, respondendo a fome e a saciedade, em resposta a ambientes estressantes, as crianças podem desenvolver desregulação deste comportamento. Nesse sentido, algumas crianças demonstram distúrbios psicológicos, sensibilidade aos ambientes sociais e transtornos emocionais, sendo necessário o uso de remédios controlados por psiquiatras. A ingestão desses remédiosdemonstra indícios de causar o aumento do peso em crianças, devido ao fato de abrir o apetite, configurando-se como um fator de contribuição para a prevalência da doença:

Sempre ele toma, mas às vezes eu não dou não, quando ele tá mais calmo assim que dá pra ir levando eu evito, porque ele come mais quando eu dou, ele come muito! E, ele já tem apetite, né? E, mais com o remédio ele come, come mesmo (E.14).

A agressividade surgiu dos relatos dos pais, apresentando diversas menções relacionadas ao ato de comer. No caso, comportamentos agressivos podem ser vistos como causa do aumento da ingestão de produtos não saudáveis, além de consequência de experiências negativas vivenciadas que estimulam o consumo demasiado de alimentos. Os pais e responsáveis praticam a licenciosidade com o objetivo de evitar reações agressivas das crianças e situações constrangedoras. Podemos observar como isto se configura nas relações entre pais e filhos nos trechos destacados:

Quando não tem ninguém porque minha mãe nunca deixa ele só, raramente, porque ele é cheio de invenção, sabe? Ele é grandão, mas faz coisas que não deve fazer, aí a gente tem medo de ele botar fogo na casa, coisas assim, deixa as portas abertas. Mas sempre ele não fica só não, fica com uma pessoa, minha mãe...(E.14) Porque ele foi diagnosticado com transtorno emocional e de comportamento, emocional tanto faz ele tá chorando como tá cantando, o de comportamento tanto faz ele tá querendo lhe abraçar, lhe beijar como na mesma hora dizer que vai lhe matar, assim, mas isso foi controlado, graças a Deus. Por isso que às vezes ele ficava nervoso, não é uma coisa que ele ficou totalmente curado, é uma coisa que ele tá melhorando aos poucos, aí eu passei esse tempo, achava que esse período não precisava mais de medicamentos pra fazer tipo uma experiência, se precisar a gente volta, se não precisa também não volta mais (E.9).

Além desses fatores, o bullying, já mencionado anteriormente, emergiu como um fator de contribuição para o aumento da obesidade em crianças, tendo em vista que ocasiona experiências traumáticas que induzem a criança a comer mais. O bullying pode ser visto como uma consequência que dificulta o controle da doença o monitoramento por parte dos pais, pois, após sofrer uma ação deste tipo, a criança pode descontar na comida o seu sofrimento. Isto pode ser constatado a partir da análise dos relatos que seguem:

Totalmente negativa, porque de todos os amigos ela é a única que é sobrepeso. Então é muito negativo, porque ela é vista como a gordinha, e que tudo que ela faz: AH, (nome da criança), corre diferente; ah (nome da criança), não sobe na árvore; nos passeinhos, ah, ela tem medo disso. Então ela tem muito medo de altura e isso faz com que ela ache que talvez seja devido ao peso. Aí ela se limita a muitas coisas. (E.7)

Tinha um...é como se fosse um pippos, mas é um salgadinho assado de uma ....e que fazia parte lá, quando eu tinha ido a nutricionista, dos snacks que ele poderia comer uma vez por semana. Só que o salgadinho tem um cheiro horroroso, sabe-se Deus por que. Não cheira como um pipos ou um Cheetos, parece um Cheetospara fazer toda essa coisa da criança gostar, ele é vendido inclusive em casas de alimentos saudáveis. Partiu inclusive da professora dizer que o alimento era fedorento e foi super constrangedor pra ele, ele chorou, a primeira coisa que falou quando entrou no carro, aconteceu isso, chorou bastante e disse que nunca mais queria levar este alimento, e soube desta história. E sofre bullying porque é gordinho, até que agora diminuiu mais, passou o segundo ano, primeira metade do 2º ano dele foi bem chato(E.5).

Esses fatores foram percebidos no decorrer da análise dos fatores e subfatores. Esta percepção demonstra que é possível aprofundar-se nos fatores que parecem amplamente estudados, permitindoa descoberta de novas influências implícitas na convivência social das crianças. Como contribuição, entendemos que os fatores encontrados devem ser inseridos na dimensão microambiental, por estarem associados ao cotidiano e ao núcleo social da criança.