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A análise dos dados relativos à identificação dos alunos prounistas frente aos alunos pagantes da IES fornecem a mesma percepção depreendida por PROF 04, de que “[...] os alunos Prounistas, eles também têm um pouco de receio de qual pode ser a reação diante dessa revelação de que são Prounistas” e, por esse motivo, alguns optam por não revelar o fato, exceto por força da situação. Goffman (1988) considera que uma pessoa está em uma

condição de descrédito quando ela possui atributos que são percebidos como discrepantes ao estereótipo criado acerca de determinado tipo de indivíduo, entretanto essas características não são imediatamente perceptíveis ou conhecidas dos presentes. Com diferentes expressões, todas revestidas de um mesmo sentido de esquiva, os prounistas externam o temor de serem rotulados, e um esforço de acobertamento da revelação de uma identidade percebida como menos positiva frente ao meio.

Mas, eu também não procuro divulgar (P2M-IM).

[...] eu não canto aos quatro ventos que eu sou bolsista (P6M-IM). Não que eu me identifique como se fosse um crachá (P10H-FN).

[...] um ou outro pode saber, mas não como por exemplo: Ah, para que time você torce? (P9H-FM).

Conforme apontam Taylor e Moghaddam (1994), a motivação dos indivíduos está direcionada para o alcance de uma identidade social mais positiva, o mesmo se dando a nível intergrupal pela busca de pertencer a grupos positivamente avaliados. Quando a própria identidade é percebida como inadequada, estratégias comportamentais são adotadas visando mudar a condição existente. Das falas dos alunos entrevistados, pôde-se depreender uma hierarquia de identidades sociais mencionadas pelos alunos. Foram elencadas a condição de cotista, prounista, bolsista e, o que aqui chamamos de, “IESzista” (a fim de preservar o nome da instituição). Embora cientes de que o Programa ProUni é um tipo de cota, por ser hierarquicamente a condição de menor status, não é uma identidade utilizada por estar mais associada a cotas raciais e alvo de preconceitos mais explícitos. A condição de prounista, embora em muitos casos seja evitada, é eventualmente usada. Bolsista, que é uma condição mais genérica, dado que existem vários tipos de bolsas, torna-se a identidade mais assumida por aqueles que preferem não se identificar como do ProUni. Dentro da IES, existem várias categorias de alunos bolsistas, sendo possível obter bolsa por participação na Atlética (concedidas a alunos que integrem equipes esportivas e representam a instituição em competições), bolsa filantropia, bolsa para funcionários e para filhos de funcionários, dentre outras. Por fim, constata-se que alguns alunos omitem durante toda a graduação a identidade de prounista, assumindo a identidade de “IESzista”. As falas a seguir evidenciam essa hierarquização.

Então [se revelasse ser prounista] eles tratariam do mesmo jeito que um cotista, com as mesmas segregações e com os mesmos preconceitos (P1H –

IM).

Uma menina que era cotista, talvez ela fosse prounista, Não sei se ela era prounista ou se ela já foi beneficiada por cota em outros espaços... (PROF

Se você falar que você é bolsista pode até ter preconceito, mas é muito menor do que se você falar que é prounista. Se você falar que é prounista já tem um certo preconceito, sim (P1H – IM).

[...] falaram com a gente lá no auditório [na palestra de integração dos prounistas], que independente da gente ser bolsista ou não, a nossa condição de bolsista não muda em nada a nossa condição como “IESZzista” (P5M- IN).

Mediante situações nas quais são involuntariamente levados a responder a questionamentos, e com isso necessariamente expor a condição de aluno prounista, alguns o fazem, enquanto outros acabam optando por declarar-se bolsista; isto, na compreensão destes, é uma identidade social percebida como de valor menos negativo que a de prounista, embora até mesmo essa identidade seja evitada por alguns.

A maioria da sala sabe porque eu falo. Eu não tenho vergonha [...] Eu falo que eu sou bolsista, não que eu sou prounista (P1H-IM).

Eu sempre falo que eu sou bolsista e nunca me falaram nada além de parabéns. Que legal (P3H – IN).

Se perguntar: Ah! Você é bolsista? Eu falo sim, mas eu não canto aos quatro ventos que eu sou bolsista (P6M-IM).

A teoria da identidade social propõe que os comportamentos intergrupais são guiados pela busca de uma identidade social de valor positivo, uma vez que a distinção intergrupal positiva confere ao indivíduo autoestima positiva (HOGG; TERRY, 2001). O conteúdo das falas desses alunos revela a existência de uma hierarquia subjetiva em suas cabeças, havendo uma distinção entre bolsistas e prounistas, identidades provavelmente associadas à condição de pobreza, que, ao ser comparada em relação ao status dos outros alunos da IES, faz com que a identidade desses primeiros grupos sejam vistas como mais negativas e menos desejadas, afetando, portanto a autoestima destes.

Determinantes para a formação do nosso autoconceito de quem somos, as categorias sociais às quais pertencemos; prescrevem formas de pensamento e comportamentos e, ao mesmo tempo, fornecem referencial para comparação com outros grupos. Assim, as diferenças sociais entre prounistas e não prounistas e o receio de que o dar-se a conhecer como aluno prounista traga consequências negativas para si, influenciam a decisão de como e se a identidade de cada um é revelada ou mantida encoberta.

Você se sente um pouco constrangido em falar que é do programa (P6M- IM).

Mas, eu não procuro deixar muito claro, não. Tirando para as pessoas com quem eu ando, que todo mundo sabe (P2M – IM).

[...] a menina que mora comigo [há um ano] ficou sabendo esses dias que eu sou bolsista (P5M-IN).

De modo semelhante, em sua pesquisa, Souza (2011) já havia constatado a hesitação e temor dos alunos prounistas, relatando o que chamou de manifestação de autodefesa, ou autoproteção, em que os alunos por ele pesquisados também optavam por não revelarem a identidade de bolsista do ProUni, expressando “vergonha” de sê-los. Em seu trabalho, o autor observou que tal comportamento era mais comum no período inicial do curso, alterando-se ao longo dos semestres, porém que isso não ocorria com todos os bolsistas. Na presente pesquisa, verifica-se que todas as evidências de esquiva destacadas acima são provenientes de alunos dos semestres iniciais, mas não são utilizadas por todos eles, o que sugere um padrão similar ao constatado por Souza (2011). Dos alunos em final de curso, metade afirma que todos sabem que são prounistas porque eles mesmos falam, enquanto dois deles só o fazem para amigos mais próximos e um deles não o faz, porque considera que isso é “indiferente” para as outras pessoas. Embora em número menor, alguns alunos que se posicionam e assumem a condição de prounistas, não demonstrando qualquer dificuldade ou constrangimento, afirmam revelar de forma natural e voluntária.

O pessoal da sala sabe. Meus amigos sabem que eu sou prounista e eles falam: nossa que bacana, você é superdedicada [...] Tanto é, que eu falo pra todo mundo que eu sou prounista mesmo [dá uma arrastada na entonação enfatizando o ser prounista] [...] (P4M-IN).

Prounista. Não tenho vergonha não. Para mim é até motivo de orgulho. Eu tenho bolsa 100%, eu consegui, foi meu mérito. Eu estudei para isso. Para mim não tem problema (P11M-FM),

Eu tenho orgulho de falar que eu sou prounista, sabe. Eu acho que é muito bom isso pra gente [...] (P12M-FM).

Se para com outros alunos a identidade de prounista é omitida, com os professores os alunos sentem-se mais à vontade para contar que o são, conforme relatam todos os professores: “[...] alguns alunos se sentem a vontade de me contar que são prounistas, eles gostam de falar pra mim” (PROF 04). “Hoje eu sei quem são meus alunos do ProUni porque a maioria faz questão de falar [...] contaram superorgulhosos” (PROF 02). “Às vezes nunca conversa, às vezes num debate, numa conversa particular: eu sou prounista” (PROF 03). A

PROF 01 diz que os alunos usam a condição de prounistas para “chorar nota”, argumentando

que se “[...] reprovar em três matérias eu perco a minha bolsa, porque eu sou ProUni”. Pode- se observar que de alguma forma os alunos prounistas se sentem ameaçados em relação aos não prounistas, entretanto na relação com esses professores mencionados não existe necessidade de “proteção da identidade”, e eles podem usar sua condição para obter ganhos.

Com prazer, com orgulho pessoal, por se sentirem à vontade com os professores e até, por um lado, a intenção de obter benefícios pessoais, não há reservas de esses alunos em

revelar-se para os professores entrevistados. Por outro lado a reserva em relação aos alunos não prounistas pode ser justificada nos argumentos de Taylor e Moghaddam (1994), que sustentam a existência de forças em conflito entre esses grupos, uma vez que indivíduos pertencentes aos grupos dominantes desejam e lutam para manter o status de condição comparativamente superior, enquanto os integrantes dos grupos de identidade social de valor menos positivo desejam alcançar alguma mudança de status, a fim de aprimorar a identidade grupal para uma condição superior.