O espaço rural tem sido alvo de diversas transformações. Essas transformações referem- se não apenas à sua estrutura social e económica, com grandes repercussões sociais e paisagísticas mas também àquelas que dependem grosso modo, do aumento e do interesse progressivo pelos espaços rurais enquanto espaços de consumo.
O interesse pela recreação no campo surge no séc. XIX como forma de compensar uma determinada saturação das cidades industrializadas, caracterizada em grande medida pelo stresse. Num primeiro momento, salienta-se o acesso generalizado do automóvel, aumentando progressivamente a possibilidade de deslocação e simultaneamente o número de visitantes e turistas do turismo em espaço rural. Mais tarde, o turismo em espaço rural dos anos 70, 80 e 90 passa a estar intimamente ligado ao aumento do tempo para o lazer e às transformações no rendimento disponível (OCDE, 1994; Mesquita, 2009). Actualmente, este tipo de turismo tem
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também favorecido do aumento impressionante e da diversificação da oferta dos voos denominados low cost.
Com efeito, as fragilidades identificadas no espaço rural têm sido muitas vezes associadas ao turismo já que as estratégias de desenvolvimento destes territórios o identificam como um dos sectores fundamentais para o seu desenvolvimento. Apesar disso, importa perceber que não se devem considerar única e exclusivamente os impactes positivos que advêm do turismo. Essa dimensão favorável tem sido recorrentemente ilustrada por aspectos como o crescimento das economias locais através da criação de novos empregos; o aumento da produção; a criação de outras fontes de rendimento; ou a preocupação com a preservação e valorização de elementos relacionados com a memória e a herança cultural (Simões, 1993; Reis, 2012).
A OCDE (1994) refere-se a esses impactes, na sua associação a 17 aspectos e áreas distintas: manutenção de emprego; criação de emprego; diversidade de emprego; pluriactividade; manutenção dos serviços; apoios de desenvolvimento rural; silvicultura; conservação da paisagem; manutenção de pequenos estabelecimentos; ofícios rurais e artísticos; oferta cultural; conservação da natureza; ambiente histórico construído; precauções e consciencialização ambientais; pequenas comunidades de pesca; papel da mulher; e por fim, novas ideias e iniciativas.
Vários autores têm-se dedicado ao estudo das transformações dos territórios rurais e de facto, tem-se assistido à transição dos espaços rurais de lugares de produção a lugares de consumo. De espaço produtor de alimentos e de reserva de mão-de-obra, para espaço gradualmente multifuncional onde se combinam as produções agrícolas e florestais com as produções agrícola e florestal com outro tipo de actividades e funções, nas quais se inclui o desenvolvimento de actividades associadas ao turismo, ao recreio e ao lazer (Figueiredo, 2012). O reconhecimento de que a principal função do espaço rural não ter que passar necessariamente pela produção de alimentos e de que a agricultura seja a actividade predominante já se consolidou (OCDE, 1994).
Ainda assim, o turismo não pode nem deve ser interpretado como a única ou a mais importante ferramenta de desenvolvimento das áreas rurais. Nessa perspectiva, deverá antes ser considerada uma actividade complementar, com capacidade de melhorar a diversidade e a sustentabilidade da base de muitas economias locais, sobretudo num período de claro declínio
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da agricultura, como o que temos vindo a acompanhar nas últimas décadas (Page e Getz, 1997; Kastenholz, 2002).
Isso significa que o turismo enquanto actividade económica com potencial para proporcionar maior valor acrescentado a territórios com património natural e sociocultural, pode simultaneamente colocá-los em perigo acentuando as suas fragilidades e portanto não se deve considerar apenas a perspectiva económica (Luís, 2001/02). Como se analisou no primeiro capítulo através da clarificação dos conceitos de ‘turistificação’ e de capacidade de carga, podem emergir diversos problemas com o desenvolvimento de actividades turísticas.
Não obstante, o desenvolvimento das diversas actividades turísticas nestes territórios depende de diversos factores de ordem social e psicológica, que por sua vez caracterizam as motivações dos turistas. A essa ideia está subjacente a necessidade real ou imaginada de se quebrar a rotina, escapando da vida quotidiana procurando contactar e experienciar com algo que não existe no local de residência ou de trabalho e o distanciamento de pressões quotidianas do ambiente citadino em busca de descanso, relaxamento, tranquilidade e contacto com a natureza num ambiente rural (Silva, 2007). Apesar destes serem apenas alguns exemplos, são suficientes para que se consiga perceber a ideia de que muitas vezes a caracterização do espaço rural e das actividades que nele se desenvolvem, nas quais se incluem as turísticas, se consolida em contraposição ao espaço urbano. O espaço rural é portanto, um espaço de consumo e de contemplação (Mesquita, 2009). Alvo do olhar dos urbanos, a ruralidade tem sido constantemente reinventada, instituindo-se o facto de que estes territórios são objecto de apreciação estética (Ploeg, 1997; Figueiredo, 2009) e a perspectiva de que o campo e as aldeias
se constituem de amenidades18. É certo que a valorização e a preservação dessas amenidades
rurais, se referem a uma “fonte de atracção da população urbana para o campo, podendo da mesma forma ser encarado como um caminho, dentre as várias possibilidades, de permanência da população rural (Azevedo, 2010:1).
Nesse sentido, a reinvenção do espaço rural percepciona-se na análise do olhar dos urbanos: existe uma determinada “hegemonia em termos de representações sociais do campo como lugar de recreio e lazer” (Figueiredo, 2009:2). Esta ideia remete-nos para a importância do imaginário urbano que define estes territórios e proporciona a formação de determinadas
18 Também Page e Getz (1997) salientam a importância das amenidades identificadas no espaço rural, já que muitas vezes, as pessoas se
deslocam para os territórios por causa disso. Para aqueles que se mudam permanentemente para o espaço rural essas amenidades não devem ser alvo de grandes transformações por via do turismo.
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imagens. Acontece que a oferta turística tem reafirmado a construção dessas imagens e
satisfeitosimultaneamente os desejos de quem procura esses lugares (Figueiredo, 2009). É aqui
que se coloca em causa a autenticidade e a genuinidade de tais lugares e daquilo que os constitui. Assim, os turistas detêm aquilo que alguns autores designam de ideias-tipo sobre a ruralidade; ao mesmo tempo eles esperam contactar e experienciar paisagens grandiosas e abertas; com paisagens bucólicas, nas quais se mistura elementos agrícolas com outros naturais; sensação de paz e tranquilidade; contacto com gastronomia típica, feiras e festivais tradicionais, por exemplo (Silva, 2007; Figueiredo, 2009).
Em síntese, a reinvenção do espaço rural tem-se estabelecido em contraposição a características mais negativas, com as quais o turista contacta no espaço urbano todos os dias. A obsessão com a necessidade de dar resposta às expectativas do visitante e do turista tem acentuado o confronto entre as perspectivas dos primeiros e a população residente dos lugares em causa. Por conseguinte, não deixa de ser contraditório que as expectativas de romper com a rotina urbana sejam depositadas em toda uma experiência vivida no espaço rural; tal experiência construída através de uma série de reinvenções, tem na realidade conferido ao espaço rural características semelhantes às dos lugares dos quais se pretendem distanciar.
Apesar disso, enquanto que por um lado se verifica a ‘desruralização’ destes espaços (Figueiredo, 2009), autores como Ploeg (1997) defendem que futuramente iremos assistir à sua ‘reruralização’, onde o rural vai reemergir enquanto elemento imprescindível da civilização, sendo que essa transformação não se refere apenas ao turismo. O turismo em espaço rural associa-se por fim, a grandes expectativas: de um lado, expectativas exteriores sustentadas pelo visitante e pelo turista, e de outro lado, sustentadas pelo poder local e pela população residente em geral, que vê no turismo uma oportunidade de se superarem os mais diversos problemas locais.
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