Se, como vimos, a concepção de sujeito foi revista a partir da teoria da enunciação, a concepção de autor e sua relação com o texto passou a ser motivo de profunda reflexão no campo dos estudos literários a partir dos anos 50, com Blanchot, Barthes e Foucault. Passo diretamente ao texto de Foucault e, a seguir, à releitura de Giorgio Agambem, já que ambas me parecem das mais interessantes para pensar o autor na literatura contemporânea e, no nosso caso, no ensaio.
Em “O que é um autor?”150, de 1969, Foucault reflete sobre a relação entre texto e autor, investigação inspirada por comentários críticos recebidos por As palavras e as coisas. O autor parte da idéia já desenvolvida anteriormente por Blanchot e Barthes, a de que a escrita contemporânea fundamenta-se na abertura de um espaço onde o sujeito escritor não cessa de desaparecer. Os caracteres individuais do sujeito cedem lugar à ideia de sujeito concebido a partir da enunciação. Contudo, Foucault afirma ser necessário superar a simples reiteração da morte do autor para buscar localizar o espaço vazio deixado por essa desaparição bem como entender as funções que a noção de autor desempenha em nossa cultura.
Para isso, parte primeiro de uma diferenciação entre o nome próprio e o nome de autor, mostrando como o nome de autor não se situa entre o estado civil dos homens e tampouco na ficção das obras que marca, mas sim na ruptura que instala entre alguns discursos dotados da função autor e outros dela desprovidos: “a função autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade”151. Quais seriam, portanto, em nossa cultura, as funções desempenhadas por essa noção, já que ela não é exercida da mesma maneira em todas as épocas e em todas as formas de civilização?
A primeira função-autor, diz Foucault, instala um regime de propriedade no universo
150 FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: MOTTA, Manoel Barros da (org.). Michel Foucault. Estética:
literatura e pintura, música e cinema. Ditos e Escritos v.3. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009, p. 264-298.
dos discursos. Além disso, a noção de autor funciona como princípio de certa unidade de escritura, ainda que tal unidade não possa ser atribuída de forma simples e espontânea e sim por uma série de operações complexas (aproximações entre textos, características estabelecidas como pertinentes, continuidades admitidas, exclusões...), e que podem variar conforme a época, constituindo algo como regras de construção de autor. Em terceiro lugar, a função autor não é exercida da mesma forma conforme os diferentes tipos de discurso: essa diferença não se dá apenas entre a função de autoria no campo literário e no campo científico, por exemplo, mas pode se dar no interior de cada campo.
Por último, para Foucault, a função autor não remete pura e simplesmente a um indivíduo real, podendo dar lugar a vários ego simultâneos, a várias posições sujeito, que podem ocupar diferentes classes de indivíduos. Ela se efetua na cisão, na distância que se abre entre o escritor real e o locutor fictício (o narrador): “Seria igualmente falso buscar o autor tanto do lado do escritor real quanto do lado do locutor fictício”152.
Por meio dessa análise das funções-autor em nossa sociedade, e diferenciando-se nesse sentido do passo dado por Barthes, Foucault está menos interessado em investigar a margem de liberdade a partir da qual o sujeito se apropria da linguagem para nela constituir-se, do que em descobrir, ao contrário, as condições, limitações e regras sob as quais um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos153. Trata-se, como em Barthes, de quitar de um sujeito prévio à escrita o papel de fundamento originário do texto, mas em outro sentido: analisando a função de autoria como um dispositivo que restringe a livre circulação e manipulação das obras154.
Em sua leitura desse texto de Foucault, já bastante posterior, Agambem155 mostra como a identificação do sujeito-autor que se constitui a partir dos dispositivos que consolidam sua função na sociedade reitera um gesto que marca profundamente a estratégia foucaultiana: por um lado, a afirmação de um trabalho sobre o sujeito; por outro, o fato de que no contexto de suas pesquisas o sujeito como indivíduo vivo apareça sempre sob a luz dos dispositivos que o constituem.
Nesse sentido, a investigação do sujeito como indivíduo cede lugar ao levantamento das condições e das formas sob as quais o sujeito pode aparecer na ordem do discurso. Segundo Agambem, o próprio Foucault reconhecia a aparente aporia implicada no método e afirmava
152 idem ibidem, p. 279 153 idem ibidem, p. 287
154 Questão mais viva do que nunca, em pleno momento de crise do copyright.
155 AGAMBEM, Giorgio. O autor como gesto. In: Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007, p.55-63. O original em
que rejeitar o recurso filosófico a um sujeito constituinte tinha por objetivo iluminar os processos pelos quais sujeito e objeto se formam e se transformam uns em relação aos outros, o que não significava agir como se o sujeito como indivíduo vivo não existisse156.
Ao questionar-se sobre a figura do autor, é justamente essa aparente aporia que Agambem pretende investigar. Existe um sujeito-autor que, no entanto, se atesta unicamente pelos sinais de sua ausência ao constituir-se como autor, ou seja, ao constituir-se a partir de dispositivos e como dispositivo que o inscrevem em um mecanismo de poder. Como então uma ausência pode ser singular? O que significa para um indivíduo ocupar o lugar de um morto e deixar suas pegadas em um vazio?157 Em outras palavras, o que Agambem se pergunta a partir de Foucault é se existe alguma possibilidade de pensar um sujeito como indivíduo, ainda que sob a luz dos processos de subjetivação que o constituem no discurso como autor.
Apoiando-se em outro texto do próprio Foucault, A vida dos homens infames, de 1982158, Agambem procura trabalhar esse paradoxo. Nesse texto, escrito originalmente como prefácio a uma coletânea de documentos do século XVIII, Foucault analisa como os registros de internação de homens e mulheres daquela época assinalam a presença de uma vida para nós inacessível, mas também irredutível à marca infame pela qual essa existência se eternizou no arquivos do poder. Mais do que a inscrição em um discurso, porém, tais vidas foram “postas em jogo” por sua ética singular e transgressora. Para Agambem, a ética dessas vidas, grito mudo no umbral dos arquivos, gesto invisível que se advinha para além do discurso infamante, pode ser aproximada ao paradigma da presença-ausência do autor.
Se chamarmos de gesto o que continua inexpressão em cada ato de expressão, poderíamos afirmar então que, exatamente como o infame, o autor está presente no texto apenas em um gesto, que possibilita a expressão na mesma medida em que nela instala um vazio central.159
O autor “põe-se em jogo” permanentemente em sua obra. Seu gesto ilegível é atestado unicamente por essa presença incongruente que permanece irrealizada, como um vazio, na margem silenciosa da obra à qual dá vida. Junto com o autor, o leitor também se põe em jogo, realizando-se como gesto, aceitando ocupar o lugar vazio que permite a emergência da obra. Trata-se, portanto, de uma ética de escritura/leitura que implica autor e leitor em uma escolha: lançar-se ou não em um conflito, arriscar-se ou não no corpo-a-corpo com os dispositivos da
156 idem ibidem, p.57 157 idem ibidem, p.58
158 Na versão dos ditos e escritos, v.IV o texto é datado em 1977. 159 AGAMBEM, op.cit. p.59
linguagem.
Retomando a aporia apresentada no início, Agambem dá uma volta a mais no argumento para pensar que, assim como o autor deve permanecer como lugar vazio na obra e justamente assim sublinhar sua presença irredutível, também um sujeito se deixa ver e resiste justamente no ponto em que os dispositivos o põem em jogo: “Uma subjetividade produz-se onde o ser vivo, ao encontrar a linguagem e pondo-se nela em jogo sem reservas, exibe em um gesto a própria irredutibilidade a ela”160. Em suma, em sua releitura de “O que é um autor?” cruzada com reflexões da obra tardia de Foucault, Agambem sublinha uma perpectiva ainda não formulada no primeiro texto: a partir da luz lançada sobre o Autor pela noção de gesto, forma-se uma sombra que deixa adivinhar uma existência humana, uma ética de vida, embora ilegível e muda, no limiar do texto.
A ideia do autor como gesto poderia ser aproximada talvez à releitura da morte do Autor por Antoine de Compagnon161. Dialogando sobretudo com a tese de Barthes, ele discute a concepção de intenção que se pode depreender de todo o debate sobre autoria. Se a morte do Autor é sobretudo uma crítica justificada à busca das intenções originais do Autor para explicar os textos, por outro lado, diz Compagnon, talvez seja possível rever a radicalidade das teses “anti-intencionalistas”. Para Compagnon, tais teses exilaram a intenção autoral de tal modo que poderiam quase sugerir que os textos são concebidos como produtos do acaso, o que não confere com a maneira como lidamos com eles e nem com o modo como buscamos elementos para compreendê-los (ou seja, dificilmente relegamos à irrelevância conhecimentos sobre o contexto histórico ou dados biográficos do autor, por exemplo). Para a superação desse falso dilema, diz ele, a noção de intenção, reduzida a biografismos e sociologismos da crítica tradicional, precisa ser entendida de forma menos simplista. Seria necessário resgatar a intenção humana em ato que é o texto: origem de sentido do qual podemos desprender múltiplas significações. De certo modo, todas as leituras partem de conjecturas implícitas que respondem a essa intenção humana.
Ainda que o debate sobre a noção de autor não esteja circunscrito ao campo do ensaio, ele ganha contornos singulares em um regime de escrita cujo locutor em primeira pessoa relaciona-se com um nome de autor, referenciando-se a uma trajetória singular de leituras e experiências que uma análise ingênua tenderia a aproximar sem mediações ao escritor fora do
160 idem ibidem, p.63
texto. Afastada essa possibilidade, por outro lado, a noção de gesto ajuda-nos a não perdermos de vista a intensão humana que subjaz ilegível no texto.
De todo modo, a compreensão do ensaio solicita nosso olhar ao “eu” que se põe ao alcance, que se deixa ler, que quer falar e quer ser lido, e sobre o qual o autor projeta-se junto com outras máscaras que se intersectam na enunciação subjetiva. Compreender o modo como se constrói essa subjetividade no texto e as personas com que o autor a reveste para fazê-la pronunciar-se em primeira pessoa, é uma das chaves fundamentais para a leitura do ensaio.
Partindo da noção de função-autor assinalada por Foucault, Beatriz Colombi busca analisar especificamente a representação de sujeito na escrita ensaística. Segundo essa autora:
La primera persona del ensayo está contaminada de múltiples proyecciones, donde podemos identificar al escritor fuera del texto, a un hablante ficcional, a la voz del letrado y/o intelectual que se expresa en nombre de un sector especializado de la sociedad, es decir, a máscaras y entelequias dispares. El yo del ensayista no se identifica plena y exclusivamente con ninguna de ellas, sino que se conforma en su intersección162.
É portanto nesse intervalo onde oscilam múltiplas configurações que podemos ler quem está falando. A autora também chama a atenção para a projeção da voz do intelectual tão presente na representação do ensaísta, singularmente nos ensaios hispano-americanos do século XIX e início do século XX, que constituem o corpus por ela investigado. Essa voz do intelectual que se entrelaça ao enunciador constitui uma das estratégias de persuação retórica tradicionalmente importantes do ensaio. Em uma literatura de idéias, o ethos do sujeito letrado mostra-se como um fiador do discurso que reforça a argumentação163.
Por outro lado, acercando-nos mais diretamente ao nosso tema, podemos nos perguntar pela particularidade dos ensaios cujos autores são reconhecidos, sobretudo, por sua trajetória como escritores de ficção, trajetória que se sobrepõe como representação à voz do intelectual, sublinhando ainda mais a atitude auto-reflexiva do ensaio, o estranhamento da linguagem a partir da qual desenvolve sua leitura singular da literatura e do mundo.
Cabe então, perguntar finalmente quais as configurações do ensaísta presentes em El río sin orillas? Com quais máscaras se reveste a subjetividade construída no texto? De que maneira esse sujeito se mostra invadido por seu tema? Qual o estranhamento que inaugura a escrita? A quem se dirige? É a partir de tais perguntas que poderemos ver a eleição de um lugar singular de onde o ensaísta conta sua história argentina.
162 COLOMBI, Betariz, op.cit. p.6. 163 Idem ibidem, p.7
Para tal investigação detenho-me especialmente na apresentação do livro, buscando identificar marcas no texto a partir das quais se desenha um “eu” e se evidencia a eleição do lugar de fala, bem como as conseqüências dessa escolha para o relato. O foco na apresentação do ensaio justifica-se pelo fato de que é nela onde a construção desse lugar de enunciação configura-se explicitamente como um problema, além de nos permitir mapear o “momento de arranque” do ensaio164.