RECONSTRUÇÕES DO PENSAMENTO DE SANDINO NA VIDA E OBRA DE
ERNESTOCARDENAL
Apesar de Ernesto Cardenal ter apenas oito anos quando Augusto César Sandino foi assassinado numa emboscada em Manágua a mando do então líder da Guarda Nacional, Anastásio Somoza, sua história de luta e o modo como concebe a espiritualidade, a sociedade e a política terão enormes implicações no pensamento refletido pela vida e obra do poeta. Compreendê-lo enquanto base de elaboração e execução do projeto de formação de uma hegemonia cultural na Nicarágua revolucionária das décadas de 60 a 80, portanto, deve passar necessariamente pela análise das estruturas ideológicas nas quais se apoiava Sandino, quando teve início efetivo a luta anti-imperialista nicaraguense, no princípio do século XX. Isso, porque, segundo distintos pesquisadores que realizaram estudos sobre seu pensamento, não é possível realizar diretamente a sistematização de suas ideias e práticas revolucionárias. Sua proposta ia muito além da mera derrota do invasor imperialista:
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Por sua formação, Sandino imprimiu a seu movimento um modelo ideológico em que se conjugaram diversas doutrinas e conceituações do mundo sem que por isso alguma delas tenha chegado a dominar por completo seu pensamento. Nesse sentido, rechaçou várias tentativas de que o fizessem aceitar modelos ideológicos. (CUEVAS MOLINA, 2008, p. 81)
Assim, “Revolução Mexicana, Revolução de Outubro, ideias teosóficas e espiritualistas formavam parte do ambiente ideológico em que Sandino estava imerso” (ALFONSO; MOLINA; 2012). Apesar das constantes tentativas de fazê-lo transformar o movimento de defesa nacional do qual era líder, essa era a estrutura básica sobre a qual se sustentava seu pensamento. Como ele mesmo chegou a afirmar em entrevista a Belausteguigoitía,
esse movimento é nacional e anti-imperialista. Seu objetivo é manter a bandeira da Liberdade para a Nicarágua e para toda a América Hispânica. Quanto ao restante, no terreno social, preconizamos um sentido de avanço das aspirações sociais. Aqui vieram nos ver, para influenciar-nos, representantes da Federação Internacional do Trabalho, da Liga Anti- imperialista (...)... Sempre se opuseram a nosso critério decisivo de que esta era uma luta nacional. (SANDINO entrevista BELAUSTEGUIGOITÍA, 1934, p. 203)
Apesar de sua luta ter assumido um caráter eminentemente nacionalista, de combate à intervenção norte-americana, não podemos, no entanto, limitá-la a esse aspecto. Sandino sempre foi sensível à situação de miséria e exclusão na qual vivia a maior parte do povo nicaraguense e, dessa forma, uma de suas propostas centrais é a construção de um novo país, livre da exploração. Isso, porque desde que era operário de uma petrolífera no México teve contato com os mais radicais sindicatos, consolidando sua consciência de classe, aspecto que seria fundamental na constituição do seu pensamento revolucionário. Por isso mesmo, embora sua recusa de seguir rigorosamente modelos ideológicos pré-concebidos, tenha chegado a flertar durante algum tempo com o Partido Comunista, representado especialmente pela figura de Farabundo Martí 22.
Nesse contexto, já em 1928 o VI Congresso da Internacional Comunista chegou a publicar uma resolução na qual apoiava efetivamente a luta anti-imperialista de
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Farabundo Martí era um revolucionário comunista salvadorenho que apoiou substancialmente a luta revolucionária de Sandino, na Nicarágua, tendo, inclusive, atuado junto ao movimento como capitão e secretário geral.
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Sandino. Para Armando Amador, “esta linha de ação corresponde ao pensamento marxista de Julio Antonio Mella (...) a José Carlos Mariátegui, quem teve fecunda fidelidade à causa de Sandino até o final de seus dias (...)” (AMADOR, 1987, p. 19).
Como já vimos no item 1.3, Mariátegui é um intelectual latino-americano que, apesar de analisar a história a partir do método dialético da teoria marxista, não percebe sua perspectiva europeia como única fonte de interpretação. Nesse sentido, abre as portas para que esse método seja introduzido na América Latina e nas lutas de libertação nacional empreendidas no continente no início de século XX. É interessante perceber que, embora de fato nunca tenha assumido ideologicamente o comunismo, o pensamento de Sandino, como veremos, sem dúvida alguma contribuiu de forma decisiva para a formação intelectual de todos aqueles que, na década de 80, se propuseram a construir um novo tipo de socialismo na Nicarágua e, entre eles, Ernesto Cardenal. As raízes desse socialismo, portanto, se encontram especialmente na teoria leninista que, nos primeiros momentos da Internacional Comunista, entre 1919 e 1924, defendia a tese de construção de uma Frente Única Anti-imperialista. Daí que o nacionalismo de Sandino não tenha se limitado a um só país, mas abarcado todo o continente. Trata-se de um nacionalismo latino-americanista. Como bem acentua Sérgio Ramírez, portanto, Sandino é “indo-hispânico e não tem fronteiras na América Latina” (RAMÍREZ MERCADO, 1979, p. 272).
Apesar do processo de stalinização da União Soviética ter promovido uma mudança da linha da Internacional Comunista, que passou a defender a “pureza ideológica” como um de seus principais postulados (e, como consequência, de seu afastamento do movimento nacionalista latino-americano), o caráter universalista da proposta de Sandino continuará tendo enorme impacto sob aqueles que restaurariam sua luta a partir da década de 60. Assim, o indo-hispanismo, que defende, tem como tema central “a valorização da mescla entre tradição indígena e cultura hispânica em oposição ao mundo anglo-saxônico” (RAMÍREZ MERCADO, 1979, p.79).
A revalorização das raízes dos povos do continente, no entanto, é projetada por ele a um nível político. Longe de ser um assunto local, a luta de libertação da Nicarágua atravessa as fronteiras do país para converter-se em luta pela nacionalidade indo- hispânica. É com base nesse postulado de identidade cultural que Sandino propõe a criação de uma aliança entre as nações do continente. Para ele, nos dizeres de Rafael Molina e Paulette Alfonso,
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o fundamento do conceito de raça é a origem cultural indígena e espanhola dos povos latino-americanos. Também se baseia na história política comum que viveram e seguem vivendo estes povos: a luta de independência contra a Espanha e a luta de libertação contra os Estados Unidos. A nacionalidade latino-americana construída e imaginada por Sandino tem, pois, em primeira instância, esta dimensão cultural. Podemos depreender do exposto, o orgulho de ser latino-americano, que se considera como um valor de primeira ordem, que se contrapõe a visão depreciativa que, a partir dos Estados Unidos, se tem muitas vezes de nossos povos. (ALFONSO; MOLINA, 2012)
Como veremos nos capítulos 04 e 05, a questão do resgate da identidade cultural será uma das maiores preocupações de Ernesto Cardenal enquanto revolucionário comprometido com a formação de uma ideologia hegemônica sandinista em seu país. Para ele, portanto, o projeto de libertação nacional, empreendido por Sandino, deveria, necessariamente, passar pelo incentivo à arte e à poesia camponesas, bem como pelo resgate das tradições indígenas. Só assim haveria a “redescoberta” da identidade nicaraguense, o que despertaria no povo um sentimento de pertença continental e, como consequência, levaria ao fortalecimento da luta anti-imperialista. É justamente por isso que, Cardenal, enquanto Ministro da Cultura, promoveu uma verdadeira revolução nesses setores, que deveriam caminhar lado a lado com o processo de educação da população local.
Para Sandino, a ideia da existência de uma cultura indo-hispânica estava, também, diretamente relacionada à existência de um conjunto de valores éticos, comuns a esses povos. Sérgio Ramírez lembra, inclusive, que ao receber a proposta de rendição ao final da Guerra Constitucionalista, ele e seu grupo preferem manterem-se firmes com o objetivo de “rechaçar com a dignidade e altivez próprias de nossa raça, toda a imposição que com cinismo de grandeza os assassinos dos povos débeis estão desenvolvendo em nosso país” (SANDINO apud RAMÍREZ MERCADO, 1979, p. 79). Assim, os primeiros valores que podemos destacar da prática política e da vida do general Sandino são os da valentia e da entrega à causa em que se acredita.
Não há dúvida de que esses eram também valores consagrados por Ernesto Cardenal, identificados especialmente em El Evangelio en Solentiname (CARDENAL, 2006), livro que descreve seus sermões nas missas realizadas naquela comunidade. Quando comenta, por exemplo, as tentações de Jesus no deserto, passagem descrita em Lucas 4, 1-13, afirma que na verdade, elas são apenas uma
que Jesus se apresente como o messias dominador e triunfalista que esperavam os judeus. E esta seria uma verdadeira tentação para ele, e ele a
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rechaçou sabendo que sua libertação teria que ser feita por meio do sofrimento e da morte. (CARDENAL, 2006, p. 64)
Assim como Sandino, portanto, e mesmo por suas leituras sobre a vida e luta do revolucionário, a abnegação à causa é um dos traços que marca o pensamento político- ideológico de Ernesto Cardenal. Sendo assim, nada mais natural que ele seja transmitido não apenas aos jovens de Solentiname que alguns anos depois aderiram ativamente à guerrilha contra a ditadura de Somoza, mas também que se constituísse como um dos elementos centrais de seu projeto de formação de uma hegemonia revolucionária e cristã, na Nicarágua, junto à Frente Sandinista de Libertação Nacional. Ser sandinista, portanto, era estar completamente dedicado à causa de libertação, mesmo que isso custe a vida, já que para eles é, sem dúvida alguma, preferível “morrer como rebeldes a viver como escravos” (SANDINO apud RAMÍREZ MERCADO, 1979, p. 79).
Para Cardenal, a formação dessa consciência está diretamente relacionada à educação e à formação cultural de seu povo. Apesar de Sandino ter sido um homem de ação, fez apenas algumas vagas reflexões sobre as necessidades políticas que sua guerra nacionalista exigia. Assim, “as implicações que podem ser deduzidas sobre a educação provenientes de Sandino podem ser tiradas, então da sua prática, e devem ser examinadas no conjunto de seu pensamento” (ALFONSO; MOLINA, 2012).
O referente popular é uma interessante pista para desvendar sua compreensão sobre a questão educacional: “Minha maior honra é surgir do seio dos oprimidos, que são a alma e o nervo da raça (...)” (SANDINO apud RAMÍREZ MERCADO, 1979, p. 87-88). Nesse sentido, Sérgio Ramirez aponta que não podemos perceber a ideia de nacionalismo do general libertário “fora do contexto em que está colocado, nem as reivindicações pela soberania e pela liberdade que estão no pensamento de Sandino, fora dessa concepção popular” (RAMÍREZ MERCADO, 1979, p. 104). Todo esse seu orgulho de estar vinculado aos interesses e necessidades dos setores mais populares da sociedade garantem, segundo Rafael Molina e Paulette Alfonso, uma estreita relação de suas ideias com aquilo que emana do que é próprio, do que está ao redor do ambiente no qual estavam inseridos (ALFONSO; MOLINA, 2012). Essa constitui uma das diretrizes sob as quais se assenta, para os pesquisadores, o ideário educativo latino-americano sandinista “isso quer dizer, uma educação que dê conta das necessidades e interesses de nossos povos, que não copie, que seja original (...)” (ALFONSO; MOLINA, 2012).
Esse aspecto de valorização do popular no pensamento sandinista encontrou respaldo, algumas décadas depois, na Teologia da Libertação e em seu postulado de
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opção preferencial pelos pobres. Como fruto não apenas dessa teologia, mas também do pensamento de Sandino, esse referente sempre assumiu um importante papel nas obras e na atuação política de Cardenal. Em sua antologia poética, As riquezas injustas (CARDENAL, 1977), por exemplo, o linguajar do poeta “borbulha de um popularismo vegetal, de uma gíria tipicamente de mass média, porém como transvasada numa caneca
hippieou num barro maia” (CASALDÁGLIA, prólogo solidário, CARDENAL, 1977)
Ouçam-me todos os povos
Escutai todos vós habitantes do mundo plebeus e nobres
os proletários e os milionários Falarei com provérbios e sábias palavras
acompanhado da harpa... (CARDENAL, 1977, p. 26)
Assim como Jesus, que falava através de provérbios, Cardenal anuncia que sua mensagem será oferecida de forma simples, para que todos possam compreender. Dessa forma, desde o período em que conviveu com os camponeses de Solentiname, valorizava tudo o que havia de mais puro e mais inato à cultura popular nicaraguense. Para ele,
Na Nicarágua sempre houve muito boa poesia, das melhores da América Latina; na minha opinião a melhor; mas sempre havia sido uma poesia de elite, de gente culta; os versos do povo haviam sido sempre ruins, apenas de rimas. O povo de poetas que era o povo da Nicarágua era um povo de rimadores. Eu percebi que era necessário ensinar a nosso povo, que era amante de poesia, as técnicas da boa poesia moderna. Sobretudo o verso livre. E fizemos isso em nossos talleres. (CARDENAL, 2004a, p. 354)
Enquanto foi Ministro da Cultura a arte dos pobres e ricos, totalmente demarcada no passado, cada vez tinha uma diferença menos marcante e, em alguns casos, tinha mesmo desparecido “Havia agora no povo o orgulho de ser nicaraguense. Parecia que pela primeira vez nos sentíamos nicaraguenses; e não apenas parecia, mas pela primeira vez éramos” (CARDENAL, 2004a, p. 358).
Entretanto, o referente popular que impregnava o pensamento de Sandino não teve implicações apenas na maneira como Cardenal conceberia a arte e a educação. Segundo Alejandro Bendaña, enquanto esteve no México, o líder nacionalista sofreu forte influência do socialismo libertário, que professavam os anarco-sindicalistas daquele país (BENDAÑA, 1994, p. 338). Não se trata de um anarco-sindicalismo que
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nega qualquer tipo de autoridade, mas aquele que dá à autogestão um papel fundamental, justamente por considerar a ditadura do proletariado autoritária, impopular. Depreende-se daí a admiração que Cardenal tinha dos governantes mexicanos que lutavam para enfrentar a intervenção estrangeira e, ainda assim, respeitavam a Constituição Nacional. É importante lembrar que, de todos os governos nicaraguenses, o único que havia adotado uma postura similar havia sido o do liberal Zelaya (1893-1909). Os demais se submeteram incessantemente às diretrizes do governo norte-americano, por isso mesmo, a essência da luta política de Sandino era que a “construção do Estado nacional na Nicarágua repousasse num governo legalmente eleito, respeitador da constituição, nacionalista e anti-imperialista” (DOSPITAL, 1994, p. 124).
Esse traço especial do pensamento sandinista vai marcar de forma decisiva não apenas o ideário político de Ernesto Cardenal, mas a forma como o socialismo seria construído na Nicarágua a partir da revolução de 1979. É claro que, como veremos, o caráter democrático conferido pelo movimento a seus líderes vai sofrer diversas críticas. Não podemos esquecer que o país experimentou uma guerra civil e ideológica apoiada pelos Estados Unidos após a vitória da Frente Sandinista de Libertação Nacional. Nesse contexto, algumas medidas restritivas acabaram sendo tomadas pelo governo, como por exemplo, a censura aos meios de comunicação contrarrevolucionários. Nada disso, no entanto, desqualifica a tentativa peculiar da Revolução Nicaraguense de implantar no país um novo tipo de socialismo, sustentado sob as bases da democracia. A prova é que o processo revolucionário teve fim dez anos depois, com a vitória nas urnas da candidata da oposição, Violeta Chamorro.
O fato é que, sob a influência de Sandino, os membros da FSLN, inclusive Ernesto Cardenal, enalteceram a democracia e tentaram de fato edificar um país mais justo e liberto da opressão norte-americana, amparando-se nessas bases. Bem antes do triunfo da Revolução Sandinista, em Vida en el Amor (CARDENAL, 1993a), por exemplo, o poeta já menciona o Reino dos Céus como sendo social, uma comunidade, um marxismo espiritual. Para o ele, esse “é uma ordem ao contrário. E é um reino sem súditos, um reino democrático, ou um povo de reis, como diz São Pedro (Primeira Carta, 2, 9)” (CARDENAL, 1993a, p. 127). Anos mais tarde, quando do triunfo do movimento sandinista em 1979, mais uma vez ressalta a importância da democracia para o novo governo que estava se constituindo: “o caráter democrático da revolução podia ser constatado nas concentrações de massa, que eram como grandes assembleias
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(...). A oratória dos dirigentes muitas vezes era como uma conversa com o povo (...)” (CARDENAL, 2004a, p. 395). Segundo Cardenal, a revolução “não era só de um partido político, mas de uma massa do povo, uma imensa maioria, todo um povo” (CARDENAL, 2004a, p. 394).
Do extremo valor conferido por Ernesto Cardenal à democracia como constituinte do movimento revolucionário nicaraguense depreende-se, sem dúvida alguma, seu anseio em promover também a democratização da cultura, seja através dos talleres de poesia, das festas de resgate ao folclore nacional ou mesmo do incentivo ao desenvolvimento da pintura primitiva. Para ele, assim como para Sandino, democracia política não seria alcançada sem o resgate da cultura pátria e da educação e conscientização do povo. Assim, junto a seu irmão, Fernando Cardenal, Ministro da Educação, promoveu a jornada da alfabetização e, finalmente, como ele mesmo disse, “a batalha foi vencida”, “a Nicarágua tinha mais da metade de seus habitantes analfabetos, e uma metade da Nicarágua alfabetizou a outra metade em cinco meses. (...) O pais todo havia germinado lindamente. E tudo isso havia sido um triunfo do amor” (CARDENAL, 2004, p. 278).
A construção de um governo democrático na Nicarágua, para Cardenal, deveria, portanto, passar pela educação e conscientização do povo em relação à sua realidade e à exploração a qual foi submetido durante vários anos. Daí sua inserção ativa no projeto partidário de construção de uma hegemonia cultural revolucionária nicaraguense que, ao mesmo tempo, pudesse valorizar e consagrar valores enraizados no imaginário cultural popular daquele país. Um exemplo disso, como já vimos, é sem dúvida alguma a tradição cristã de seu povo. Apesar, no entanto, de não ser cristão,
uma revalorização da religiosidade de Sandino parece hoje importante não só para entender sua experiência, na qual a inspiração religiosa parece ter tido uma tarefa fundadora, mas também para descobrir as raízes mais profundas do encontro entre fé cristã e militância sandinista que é um dos traços mais originais dessa revolução. (GIRARD, 1989, p. 41)
O pensamento religioso de Sandino se inspira na escola teosófica, ocultista e espiritualista que conheceu em Yucatán, no México, entre 1929 e 1930. Como já vimos no capítulo 01, sua experiência religiosa está vinculada à sua reflexão sobre a história e, por isso mesmo, para ele o cristianismo é a religião dos opressores, dos conquistadores. Está, portanto, consciente de que sua luta de libertação terá necessariamente que inverter essa história. Por isso,
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embora a teosofia na qual se inspira tenha um caráter moralista e espiritualista, alheio a luta de classes, Sandino a reinterpreta a partir de uma nova visão de mundo a partir de uma nova experiência, militante e militar, a partir de uma práxis libertadora. Reinterpreta a mensagem religiosa, que assume um caráter de compromisso político-militar. (GIRARD, 1989, p. 47)
Note que essa linha de pensamento já se relaciona com o que anos mais tarde se edificaria como Teologia da Libertação, para a qual a práxis histórica era o verdadeiro caminho de construção do Reino de Deus. Assim, para Giulio Girard, “o Deus-Amor de Sandino não vive numa solidão distante e neutra, mas está presente na luta, ao lado dos oprimidos, até o triunfo final (...). No centro de sua visão está Deus, que é Amor” (GIRARD, 1989, p. 48 e 49).
Esse aspecto em especial aproxima incondicionalmente o pensamento religioso de Sandino ao de Ernesto Cardenal que, assim como ele, intui que “Deus está em todas as partes, mesmo na Broadway (...)” (CARDENAL, 1993a, p. 33). A divindade, portanto, não figura-se como algo totalmente transcendente, mas está em todos os lugares e, por isso mesmo, nos obriga a agir em favor de um mundo melhor na terra. Não há que se esperar pelo Reino de Deus no céu porque, afinal, se Ele está presente em nossa vida, ela também deve ser transformada em favor da construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Cadenal intui do pensamento religioso de Sandino que Deus é amor. Por isso o homem também é amor, porque é feito à Sua imagem e semelhança. Nesse sentido, somos fios condutores da alta corrente de tensão do amor, e por isso não deve existir amor-próprio, porque ele só atua como seu isolante. É por isso que, para o poeta, “devemos amar aos outros como a nós mesmos, porque amarmos mais a nós é interferir no amor. Devemos entregar-nos totalmente ao amor e permitir que sua corrente corra através de nós: ser transmissores do amor” (CARDENAL, 1993a, p. 38). Ora, transmitir amor, nesse sentido, implica necessariamente comprometer-se com o outro, lutar pelo outro. Por isso, assim como para Sandino, a espiritualidade em Cardenal é um motor do movimento revolucionário: “a utopia religiosa coincide fundamentalmente com a utopia histórica” (GIRARD, 1989, p. 50 e 51). Desta forma, portanto, como postula o movimento da Teologia da Libertação no qual Cardenal está inserido, a prática prevalece sobre a teoria. Daí o fato de que
cristãos e sandinistas quase se confundem quando indicam a fonte de sua luta e de sua utopia: o amor até entregar a vida, a identificação com os pobres,