• No results found

VURDERING AV SAMFUNNSØKONOMISK LØNNSOMHET

Lemos em As vidas dos artistas de Calvin Tomkins que “em termos de pura persistência estética, nada supera a saga de James Turrell e a Roden Crater53” (2009, p. 110).

Desde 1974, o trabalho de Turrell tem se concentrado em converter um vulcão extinto no extremo ocidental do Painted Desert, no norte do Arizona, num observatório a olho nu de eventos celestes. O material artístico de Turrell é a luz. Seu trabalho não é sobre a luz, nem é um registro da luz; ele é a luz – a presença física da luz que se manifesta de forma sensorial. Na cratera, ele construiu nove câmaras subterrâneas e um enorme espaço aberto (a cavidade da cratera) “para capturar e aprender a luz” do sol, da lua e das estrelas e também para demonstrar como criamos e formamos nossas percepções do mundo visível (TOMKINS, 2009, p. 110, grifo do autor).

Estamos então de volta a uma caverna, em que alguém, 17.000 anos depois do Homem de Lascaux, intenta captar a luz – não representá-la, nem tampouco produzir imagens reconhecíveis, mas construir espaços em que a presença física da luz se manifeste para um observador colocado em situação propícia para viver a experiência. Por exemplo, sob a abertura do Olho da Cratera foram colocadas plataformas de arenito; quando se deita de costas sobre uma delas, esta se inclina para trás, de tal forma que a cabeça fica ligeiramente abaixo dos pés. “Só vejo céu, mais céu do que jamais vi em toda minha vida”, relata Tomkins. Vivendo esta experiência, ele lembra que “temos uma sensação parecida quando ficamos de pé em um campo aberto, mas, a certa distância acima do solo, a experiência se torna (...) esmagadoramente intensa, e de uma beleza extraordinária” (TOMKINS, 2009, p. 116). É um

53 Imagens disponíveis em http://rodencrater.com. Acesso em 27 de

fenômeno de percepção chamado de abobadamento celeste, acessível a todos em ambiente fechado e escala humana, mas sem interpretação dos fatos naturais, pois, diz Turrell, “‘minha arte consiste no que você vê”’ (op. cit., p. 116). Desde criança, Turrell centra-se no fenômeno da luz como fonte de sua pesquisa estética, seja fazendo minúsculos furinhos na cortina Black out de seu quarto de dormir para observar a trajetória da luz projetada nas paredes, seja bem mais tarde, já formado em arte, quando alugou um prédio e ali fez furos no teto e nas paredes, permitindo a entrada de feixes de luz. Algumas de suas obras de arte consistem em espaços de cor–luz, paredes que o espectador atravessa contrariando a ilusão de que seriam sólidas.

Em entrevista durante exposição de seus trabalhos na Garage Center for

Contemporary Culture em 2011, Moscou54, James Turrell fala um pouco sobre seu trabalho. Como o nosso objetivo é nos aproximarmos do fenômeno da cor, e este não existe na ausência de luz, transcrevemos a seguir trechos de seu depoimento.

“Em lugar de um trabalho sobre a luz, ou tentativas de representações da luz, esse trabalho é luz. Temos uma relação essencial com a luz, e com o fogo. (...) O poder da luz pode ser diminuído se você a usa para contar histórias, como num filme. Mas quando não há narrativa, como no fogo, o poder da luz existe55, porque não há imagem. (...) O que mais me interessa é a fisicalidade da própria luz, é o que ela revela em si-mesma, em lugar de ser veículo da revelação. (...) Não há molduras como na tradição; mas eu sinto que faço parte da tradição: arte existe desde sempre, em qualquer meio – há 45 anos eu uso a luz como material.” A seguir, Turrell nos dá um exemplo, com imagens no

vídeo: “Se você pega tinta azul e mistura com amarela, você tem tinta verde;

mas se você pega luz azul e mistura com luz amarela, você obtém luz branca! Isto é um choque para muita gente. (...) Então temos que aprender o espectro de cores e como os olhos veem a luz: para trabalhar com a própria natureza da luz você tem que receber uma outra educação”. Lembrando o trabalho do

compositor Scriabin, com cores e sons, Turrell, entusiasmado, diz que Scriabin

54 Em www.youtube.com/watch?v=vyhwhdi_j-Q, acesso em 02 de junho de 2013.

55 A mãe e a avó de Turrell eram quacres; com 7 ou 8 anos de idade ele lembra sua avó lhe dizendo o que devia fazer num culto quacre: “Entre e saúde a luz” (TOMKINS, 2009, p. 117- 118).

“perseguia a sinestesia – exatamente com que eu trabalho. Isto é muito

inspirador para mim: trabalhar com um sentido – ouvir, e a percepção de outro sentido – ver [cores]. Estas coisas existem, nós as esquecemos; não há nada de novo nisto, mas são aparentemente novas, em novas expressões”. Turrell

relata que, no começo, trabalhava com a qualidade hard da luz (a luz em objetos) e depois passou a trabalhar com a qualidade soft, “habitando o espaço e confrontando esse espaço habitado por outra luz – algumas vezes sendo banhado por ela, andando nela, algumas vezes tendo-a por trás”.

Em uma das obras de Turrell – Light Reignfall (2011), a pessoa entra numa câmara esférica, que é fechada, e recebe impulsos luminosos de diversas cores; fechando os olhos veem-se imagens internas destas luzes, a experiência consistindo em um dueto entre visão interna e externa, como num sonho, “tornando visíveis as imagens que estão na cabeça”. Então isso não é o mundo real. Mas o que é o mundo real? pergunta Turrell. “É esta realidade que

arranjamos por um consenso – mas os consensos mudam!’’.

O trabalho de Turrell56 evidencia que a cor nos coloca frente a um problema fenomenológico – sem a presença do observador, sem o engajamento de sua sensibilidade, o fenômeno simplesmente desaparece. Para a manifestação do fenômeno da cor, mais que a aliança entre céu e terra que biblicamente sugere o arco-íris, é preciso uma conexão tríplice entre observador, objeto e luz.