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Com mais ou menos intensidade todos os concelhos algarvios foram atormentados pela escassez de cereais panificáveis, géneros essenciais ao quotidiano das populações. É possível traçar o dia-a-dia daquela escassez e de todas as implicações relacionadas com o comércio dos cereais, desde a sua aquisição, transporte, distribuição e comercialização.

Entre 1915 e 1918, expressões como: é «absoluta a falta de farinha e de trigo» são recorrentes por toda a província.

Embora nos concelhos de Alcoutim, Monchique, Aljezur e Albufeira os ecos da escassez de subsistências não sejam muito intensos, temos conhecimento que em determinadas alturas destes anos, os cereais e o pão foram em quantidades insuficientes e que as suas populações se agitaram.

Em Vila Real de Santo António, mercê da sua localização geográfica, muitos foram os produtos que eram exportados ou contrabandeados para Espanha563. Foi uma das localidades que pela sua importância industrial as referências à falta de cereais foram constantes. Em meados de Junho de 1916, neste concelho havia grande falta de

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ADF. Fundo Governo Civil, Registo de Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1918 (Mç2/Cx761), «Ofício do Presidente da Comissão Administrativa de Faro», n.º 562, de 11 de Outubro de 1918.

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O Algarve, n.º 539, 19/05/1918, p. 2.

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farinha e acenava-se com possível motim, pelo que o seu administrador solicitava ao Governador Civil de Beja o envio daquele produto que havia em Mértola564.

Os meses de Março a Maio de 1918 foram críticos pela falta de farinha565. Em meados de Junho566 constatava-se que havia pão apenas para dez dias, precisamente na época em que a indústria de conservas estava em plena laboração567, pelo que se rogava ao governador civil, que adquirisse farinha no Alentejo, prescindindo de qualquer auxílio do Estado, à excepção das famosas guias de trânsito568.

No concelho de Tavira, a freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo, em 1915, atravessava graves dificuldades. Assoberbavam- na problemas financeiros, a falta de trabalho e a falta de cereais. Para resolver estes dilemas a Junta de Paróquia daquela pequena localidade incentivou a cultura do trigo nos baldios comuns569.

Na Câmara dos Deputados, em Abril de 1916, Aresta Branco, depois de criticar o Governo pela falta de providências para debelar

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ADF. Inventário do Governo Civil, Livros Copiadores de Telegramas do Governo Civil, 1913-1921 (299A), «Telegrama ao Exmo. Governador Civil do Districto de Beja», de 20 de Junho de 1916

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ADF. Fundo Governo Civil. Registo de Documentos Relativos à Saúde Pública, 1918, Mç 13/Cx 874, «Telegramas ao Governador Civil», de Março a Maio de 1918.

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O presidente da comissão de abastecimento transcrevia uma carta de pessoa estranha ao assunto que narrava as prováveis negras consequências da falta de farinha: «Não fazem ideia do que vae suceder a Vila Real dentro de pouco tempo; mas dentro em breve adquirirão a certeza. Essa vila vae ficar sem pão logo que se acabe a existencia do que ahi tem. E quer saber a razão? Em quanto ahi se vão entretenndo com a aprehensão as fabricas de Mertola, ao contrario do que seria para esperar, trabalham de dia e de noite, sem parar, e um sem numero de carradas de farinha estão a sair d‟aqui diariamente para a estação de Beja. Ainda hoje d‟aqui sahiram 13 carradas e amanhã sairão outras tantas ou mais» (ADF. Fundo Governo Civil, Registo de Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1918, Mç2/Cx761, «Ofício do Presidente da Comissão de Subsistências de Vila Real de Santo António», n.º 86, de 21 de Junho de 1918).

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ADF. Fundo Governo Civil, Registo de Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1918, Mç2/Cx761, «Ofício do Presidente da Comissão de Subsistências de Vila Real de Santo António», n.º 86, de 21 de Junho de 1918.

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ADF. Fundo Governo Civil, Registo de Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1918, Mç2/Cx761, «Ofício do Presidente da Comissão de Subsistências de Vila Real de Santo António», n.º 85, de 19 de Junho de 1918.

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ANICA, Arnaldo Casimiro, Monografia da Freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo. Da Sua Criação à Actualidade, Edição da Junta de Freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo, 2005, pp. 76- 77. Ver Anexo Documental. A Economia Algarvia.

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a fome que varria o país, afirmava que a fábrica de Tavira estava sem trigo para laborar e, matriculada havia anos, queixava-se que lhe tendo sido distribuída certa quantidade no «papel», não a recebera. Do Algarve, chegavam-lhe informações de que no prazo de oito dias não haveria pão, porque não havia farinha, nem trigo. De toda a província, de Tavira ao Guadiana, Vila Real de Santo António e Alcoutim, o povo não tinha pão e não tinha trabalho570.

O milho teimava em escassear neste concelho, apesar de no último arrolamento, haver em quantidade suficiente para o seu abastecimento, embora não aparecesse no mercado para venda. O semanário a Província do Algarve, interrogava-se porque não se obrigava a colocar em venda o milho arrolado. Para este jornal unionista, a «paz podre» em que se vivia, apenas favorecia os açambarcadores, mas prejudicava as classes pobres que tinham neste género uma das bases da sua dieta. Implicitamente, como era apanágio deste periódico, o culpado era o governo democrático571. E, escassos dias depois, mais precisamente a 3 de Maio, havia «mulheres do campo bastante apoquentadas por não

encontrarem farinha á venda em nenhum estabelecimento»572.

Cerca de Outubro de 1918 faltava o pão573, mas, também a carne, «carissima,

ruim e pouca», o leite, caro e mal medido, os ovos, os legumes, o azeite, o toucinho, o

arroz, as batatas e o peixe, «vendido por um preço esmagador»574.

Durante o ano de 1915, agora em Olhão, deparamos com algumas notícias que nos dão conta da falta de farinha neste concelho575, o encarecimento dos géneros de primeira necessidade e que o pão era ruim e caríssimo. A agravar a situação o ano cerealífero tinha sido «deficientissimo»576.

Em Agosto, os importadores de Olhão queixavam-se que as fábricas de Lisboa não lhes forneciam farinha, alegando terem as fábricas paralisadas. O vereador da edilidade olhanense, Joaquim dos Santos Pité, propunha ao Governador Civil que intercedesse junto do governo para que a Manutenção Militar fornecesse aquele género

570

Câmara dos Deputados, Sessão de 4/4/1916 e Província do Algarve, n.º 380, 10/4/1916, pp. 2-3.

571

Província do Algarve, n.º 382, 23/04/1916, p. 2.

572

Província do Algarve, n.º 384, 07/05/1916, p. 2.

573

Para além das intermináveis «bichas» que as populações de Tavira tinham de suportar e das manigâncias dos padeiros, estes ainda exigiam que se trouxesse o dinheiro já trocado (“Os mantimentos”, Província do Algarve, n.º 504, 3/11/1918, p. 1). Consultar Anexo Documental.

574“Os mantimentos”, Província do Algarve, n.º 504, 03/11/1918, p. 1. 575

AHMO. Fundo Documental: Câmara Municipal de Olhão, Livros das Actas das Sessões das Vereações, sessão ordinária de 18/3/1915, SR:B/A.1.13, 1914-1917 e ADF. Inventário do Governo Civil, Livros de Registo de Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1913-1916 (395), «Ofício do Administrador do Concelho de Olhão», n.º 1172, de 15/10/1915..

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nas quantidades que fossem necessárias aos negociantes de Olhão, sob responsabilidade da Câmara577. A 2 de Setembro, o Governador Civil confirmava que a Manutenção Militar iria fornecer toda a farinha que fosse necessária ao concelho578.

Todo o concelho de Olhão atravessava uma época negra como era o caso da freguesia da Fuzeta, em Março de 1915579 e, novamente em Março de 1917, onde faltava farinha e pão, mas, diariamente, subtraindo-se à proibição, centenas de quilos de farinha eram enviadas para Setúbal. Como? O engenho humano sempre foi rico em procurar subterfúgios. Aquele produto era remetido «pelo correio em encomendas de

sete quilos e meio ...»580.