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6.3 Halo effect

6.3.2 Shading with LIC

O fato de simplesmente ler uma compilação seria suficiente para desenvolver a habilidade ou haveria pressupostos e escolhas que proporcionasse um resultado melhor na prática da leitura? Essa questão não é tão difícil responder, pelo menos superficialmente. Foram vistas no Capítulo 2 várias questões que parecem pertinentes ao que pode influenciar a tarefa de leitura de um violonista.

Os violonistas comentaram que se pode dispor de um tipo de compilação, com obras relativamente simples, como será discutido em seguida, mas Meirinhos inferiu informações que pode proporcionar um bom diálogo com a literatura, quando disse a um aluno, que ao seguir a leitura da compilação, inusitadamente leia um peça de maior dificuldade e a seguinte volta ao nível em que estava, pois “sempre [é bom] uma ‘instigada’, um ‘choque’ em alguns momentos” (Eduardo Meirinhos).

Sobre a forma de organizar o material de estudo da leitura Fireman em sua tese de doutorado (2010), como mencionado no Capítulo 2, propôs a três grupos de alunos de Licenciatura em Música ordens diferentes na dificuldade de uma compilação peças, com o objetivo de perceber se haveria diferença no desenvolvimento da leitura. Ele utilizou uma ordem47 de dificuldade progressiva, uma regressiva e outra aleatória. Apesar da avaliação do primeiro grupo ter sido em partes, prejudicada com a desistência de voluntários, conseguiu perceber diferenças significativas no desenvolvimento dos três grupos. Ressaltamos particularmente os dois grupos restantes – regressivo e aleatório – que obtiveram resultados interessantes que vai de encontro ao senso comum de que seria de compor uma compilação apenas com obras de dificuldade “progressiva”. Resultados contextuais a parte, esse dado está em consonância com a ideia de Meirinhos de repentinamente mudar a ordem de dificuldade do material de leitura.

A escolha de um material simples e familiar foi recomendada por Fernández48, a fim de realizar mais do que uma leitura mecânica, depende de um conhecimento pré-adquirido na formação tradicional, segundo Sloboda, (2005, p. 19) e não apenas um tipo de contato informal com o estilo em questão.

Para tanto, Ulloa sugere na via de praticar leitura com materiais musicais simples, a escolha de partitura para instrumentos melódicos, dando a entender que o aspecto harmônico do violão pode ser uma das questões que dificultaria a leitura. Até certo ponto a sugestão de Ulloa é pertinente, levando-se em conta o grau de congestionamento visual que uma obra violonista pode oferecer em alguns casos. Meirinhos, ao recomendar algo “confortável” para ler, parece não necessariamente, tratar de obras do Classicismo do violão, mas fica subentendido em outras partes do discurso. A ideia de Meirinhos de sugerir a seleção de algo “confortável” para ler, está em consonância com a de Pinto (2005, p. 31).

47 Fireman utilizou duas séries de Estudos para violão de Ferdinando Sor, a partir de alguns aspectos os compilou

em ordem de dificuldade, e em seguida propôs sequências de peças diferentes: progressiva (do mais fácil para o mais difícil); regressiva (do mais difícil para o mais fácil); e aleatória.

Nessa direção, concordamos com Meirinhos, Pinto (2005) e outros dois autores que recomendam o uso de obras do classicismo para uma prática eficiente da leitura (SLOBODA, 2005; FIREMAN, 2010).

A ênfase na escolha de um material simples para a leitura facilita a busca de padrões, que é uma das estratégias recomendadas pelos métodos de aperfeiçoamento da leitura à primeira vista e discutida com o apoio de alguns autores. Esta busca tem sua relação direta com a capacidade de organizar as informações em chunks, como apontaram Lehmann e McArthur (2002) quando falaram sobre a memória buffers e a percepção em unidades significativas (p. 139). Unidades quem pode ser desde um pequeno grupo de notas associadas ou frases inteiras (SNYDER, 2012, p. 108).

Em casos de bons leitores, essas podem ser até unidades estruturais da música, como cadências, marcações de separação de partes na partitura, etc. (SLOBODA, 1977, p. 117; GOOLSBY, 1994, p. 121). Os violonistas entrevistados demostraram a percepção que condiz com a constatação dos autores acima, como na fala de Zanon, quando diz que nós percebemos estruturas e não microelementos, ou na fala de Ulloa, ao detectar como está estruturada formalmente uma das situações de leitura49.

Esse tipo de discernimento visual é o que parece caracterizar o que Fernández chama de “meta-leitura”, diferenciando-a do “mero deciframento”, sendo, para isso, necessária certa familiaridade, pois como nos traz Fireman (2010), “a complexidade do material interfere na velocidade e acuracidade da leitura à primeira vista” (p. 64).

Delume, apesar de se utilizar também de obras do Classicismo – como já foi sugerido por outros violonistas e autores – para planejar sua aula, acredita que não é um estilo ou período específico da História da Música que possibilita a melhoria na leitura e sim, dispor de uma boa variedade, desde que sejam simples de ler, para aguçar escritas e sonoridades diferentes ao aluno, ampliando ambas as habilidades visuais e auditivas; ela explica e sugere algumas obras do século XX, tais como Exercitium tonale de Farkas, Ten preludes de Brindle, dentre outros.

A ideia de manter o aluno em contato com obras de vários períodos da História da Música talvez seja um fator que deva estar presente desde a iniciação, com o intuito de ampliar, como na prática docente de Delume, a gama de possibilidades de escrita e sonoridades que o aluno conhece e entende. Destregia (2012), contextualmente concorda com

Delume ao utilizar obras contemporâneas com alunos de iniciação ao piano e relata ter tido bons resultar (p. 1304).

Acreditamos que, apesar da grande maioria dos alunos iniciantes no contexto brasileiro ter contato exclusivamente com a música tonal da mídia, outras linguagens podem ser utilizadas para aguçar a criatividade e curiosidade na iniciação musical e no instrumento. Nesse sentido, percebemos empiricamente em aulas de violão para crianças, que existe um interesse significativo e intuitivo pela música instrumental contemporânea que utilizam efeitos diversos, como percussão, ou uso de objetos inusitados na composição da performance.

A aproximação com outros gêneros musicais desde a iniciação poder ser útil no estudo posterior no instrumento e no reconhecimento de outros símbolos utilizados na partitura.