Alexandre Filho nasceu na cidade de Bananeiras, no interior da Paraíba, em 1932. Morou durante alguns anos no Rio Grande do Norte, trabalhando como ajudante em um mercadinho; foi candango em Brasília, comerciário em Recife e no Rio de Janeiro, até o ano de 1966, quando pintou os primeiros trabalhos, estimulado por amigos e vizinhos, sendo selecionado com três telas para o XV Salão Nacional de Arte Moderna no Rio de Janeiro.
A originalidade e a poética do seu trabalho encantaram o meio artístico do período, na década de 1960. Alexandre já começou grande, expondo pela primeira vez em um dos mais importantes salões de arte do país. Seu sucesso foi meteórico; fixou ateliê no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Esse espaço tornou-se um ponto de encontro da boemia carioca da época, ajudando a consolidar a sua obra.
Elogiado pela mídia nacional, virou matéria do Jornal do Brasil23 durante o período do salão, sendo considerado a revelação e o artista mais original do evento. Artistas e críticos da década de 1960, como Luís Canabrava, Homero Homem de Melo, Carlos Paschoal Magno e Edilberto Coutinho escreveram artigos elogiando o seu trabalho.24 Participou, desde então, de
22 Galeria mais tradicional de João Pessoa, com mais de duas décadas de funcionamento. Desde sua criação,
trabalha e incentiva a produção dos artistas naїfs.
23 ALEXANDRE FILHO, A PINTURA SEM ESCOLA. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, terça-feira, 9 de
novembro de 1971.
24 MAGNO, Carlos Paschoal. Texto de apresentação da exposição “Alexandre Filho: pinturas”. Rio de Janeiro:
Grupo Financeiro Andrade Arnaud, 1971.
HOMEM, Homero. Alexandre Filho, pintor da memória ecológica do Nordeste. Texto para divulgação da
inúmeras exposições coletivas nacionais e internacionais.25 Sua obra foi adquirida por artistas e colecionadores de todo o mundo, fazendo parte de importantes coleções particulares26 e citada pelos principais catálogos de arte brasileiros e nas publicações especializadas em arte
naїf de todo o mundo.27
Atualmente, Alexandre reside na cidade de João Pessoa, no bairro de Mangabeira I, onde continua desenvolvendo sua atividade artística. É considerado um dos mais importantes artistas Naїfs brasileiros vivos. Seu quadro “Lúcifer”, exposto no Salão de 1966, foi incluído no Superstock Fine Art Catalog, publicado pela Agência Keystone, entre imagens de obras de artistas como Paul Cézanne, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Henry Matisse, Leonardo da Vinci, Michelangelo (RODRIGUES, 2001, p. 27-28).
A obra desse arista é peculiar por representar de forma poética o seu universo fantasioso, traços da sua infância, adolescência, e suas crenças pessoais, arquétipo de um mundo idílico e encantado: trabalhos repletos de paisagens frondosas, linhas curvas, flores e frutos fantásticos, que remetem à paisagem tropical do brejo paraibano. O contato com materiais impressos, durante a infância e a adolescência, na mercearia onde trabalhava, por meio dos jornais ou da Revista O Cruzeiro, despertou no jovem Alexandre o desejo de rabiscar, desenhar formas e imagens - era o artista formando seu olhar ( ALEXANDRE FILHO, 2006).
Na década de 1950, mudou-se para o Rio de Janeiro, sob a influência da irmã, que lá fixara residência na busca por melhores condições de vida. Chegou a trabalhar como vendedor e, depois, como operário na fábrica da General Electric. Por intermédio de um COUTINHO, Edilberto. Caju, nuvem e terra na arte de Alexandre Filho. Rio de Janeiro: Jornal O Globo, ano LVIII, 2º caderno, sábado, 12 de fevereiro de 1999.
25 Suas principais participações em exposições são: 1966 – XV Salão de Arte Moderna (RJ); 1967 – XVI Salão
de Arte Moderna (RJ), I Bienal de Artes Plásticas da Bahia (Salvador – BA), XVII Salão de Arte Moderna (RJ); 1968 – Galeria Domus (RJ), Consulado Geral do Brasil (Nova York), Lirismo Brasileiro (Lisboa), Galeria de Brel (Paris), Galeria Quijote (Madri), Courtney Gallery (Huston – Texas – EUA), Manhein Gallery (Londres – Inghlaterra), Arte negra (Nigéria – África); 1970 – Musée D’Art Naїf (Ile de France); 1976 – Festa de cores – MASP (São Paulo), Encontro Urugayo-brãsileno de Arte Naїf (Bruxelas) e IX Salão Nacional de Arte da Pampulha (Belo Horizonte – MG).
26 Sua obra faz parte da coleção particular do compositor Tom Jobim, do cirurgião plástico Ivo Pitanguy, dos
bailarinos Rudolf Nureiev e Margot Founthein, da milionária Cristina Onassis, do teatrólogo Agnaldo Farias e do
Beatle John Lennon, que comprou a sua obra “Adão e Eva” durante a Exposição “Brasilian Primitives Contemporary Works of Art” em Londres no ano de 1970.
27 A obra de Alexandre Filho foi citada pelas seguintes publicações:
AQUINO, Flávio de. Aspectos da pintura primitiva brasileira. Rio de Janeiro: 1979.
PONTUAL, Roberto. Dicionário de Artes Plásticas do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. JACOVSKY, Anatole. Les Proverbs Vus Pars Les Peintres Naїfs. Paris: Max Fourny, 1973.
BRANCHARD, Roger. La Chanson Traditionnelle Et Les Naїfs. Paris: Max Fourny, 1975. FINKENSTEIN, Lucien. O mundo fascinante dos pintores naїfs. Rio de Janeiro: Ed. MIAN, 1988. AYALA, Walmir. Dicionário de Pintores Brasileiros. 2 ed. Rio de Janeiro: Spala, 1977.
amigo, foi para Brasília, tentar um emprego em uma construtora, como office-boy, assumindo o emprego como auxiliar de topógrafo. Não durou muito no novo emprego e, imediatamente voltou para o Rio de Janeiro, para trabalhar como transportador de cargas no aeroporto, de onde foi demitido por descuido com as bagagens dos passageiros. Tentou outros empregos, foi mais uma vez para Brasília, trabalhar como almoxarife em uma empresa, mas não se adaptou, voltou ao Rio para trabalhar como vendedor de uma loja de departamentos, onde ficou durante quatro anos (ALEXANDRE FILHO, 2006).
Encontrou no carnaval do Rio o amigo Edson Nery da Fonseca, antigo conhecido do Recife, que lhe ofereceu o apartamento do seu irmão, o jornalista Gasparino da Mata, no bairro de Santa Teresa, para que morasse por dois anos, já que o irmão estava de mudança temporária para Gana, na África, como secretário do embaixador Souza Dantas; e o apartamento iria ficar vazio. Alexandre aceitou o convite e tomou contato com a coleção de arte particular do dono do apartamento (ALEXANDRE FILHO, 2006).
No apartamento de Gasparino da Mata, Alexandre tomou contato com obras de artistas como Djanira, Guignard, Ivan Serpa, Iberê Camargo, Volpi, Luís Canabrava, entre outros. O ateliê de Luís Canabrava era vizinho ao apartamento. Logo fizeram amizade, e Alexandre começou a freqüentar o ateliê do artista (ALEXANDRE FILHO, 2006).
Estimulado por Canabrava, Alexandre passou a criar suas imagens idílicas, coloridas, uma verdadeira poesia pictórica, retratando animais, vegetação, flores, frutas e tipos humanos de um nordeste mitológico. Abandonou o emprego por influência do amigo, passando a dedicar-se desde então integralmente à pintura.
Apesar do apoio de pessoas importantes do meio artístico, como a empresária e socialite Rute de Almeida Prado28, Alexandre, elogiado por artistas e críticos, continuou como um homem simples, caseiro e despretensioso. Os poucos registros que guarda dessa época, foram doados pelos amigos. Por questões pessoais, recusou todos os convites que recebeu para sair do país.
Acuado pelo aumento dos índices de violência urbana no Rio; Alexandre resolveu voltar à Paraíba, pensou inicialmente em morar em João Pessoa, mas, temendo a violência que julgava igual à do Rio, resolveu mudar-se em 1982, para Guarabira, cidade situada no brejo paraibano. Chegou a morar em João Pessoa temporariamente, alternando períodos em Guarabira, até que, em 1995, fixou definitivamente residência em João Pessoa (ALEXANDRE FILHO, 2006).