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3 Theory

3.3. Vocabulary

Essa narrativa aborda as experiências no curso da pós-graduação, em antropologia social, PPGAS, na Universidade de Brasília-UNB. Experiência que está marcada e entrelaçada, que foram constituídas entre encantos e desencantos pela uma mulher indígena, a partir da perspectiva de diálogos e visibilidade dos saberes ancestrais.

Para o meu ingresso no doutorado, aconteceu da seguinte forma: um belo dia eu recebi um e-mail de uma amiga que fez o mestrado comigo, o qual falava sobre o edital, caso eu tivesse interesse e que divulgasse para as pessoas interessadas que havia duas vagas, sendo uma para o mestrado e uma para doutorado, para indígenas das vagas da ação afirmativa.

Assim que recebi resolvi ler o edital e fiquei pensando, será que vou me inscrever? O que é ser antropólogo? Morar em Brasília? Como será? Foram essas indagações que emergiram na minha mente. Fazer o doutorado era algo que almejava, porém, era algo que para mim estava distante.

Naquele momento não pensava em fazer o doutorado, era só o mestrado e acabou. Mas por outro lado, as circunstâncias da vida foram proporcionando para que eu pudesse elaborar o projeto e lançar ao desconhecido.

Neste intervalo, conversei com um professor que deu aula para mim no mestrado, o Henyo, através de e-mail, e fiz várias perguntas, queria saber informações. Ele fez uma breve explicação e disse que seria interessante eu tentar a seleção. Diante disso, resolvi pedir ajuda a uma amiga, a Hellen, para que ela me desse sugestões e fazer a correção do projeto. Então, fiz o projeto de pesquisa com todos os critérios que tinha que seguir no

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edital e lancei-me, pensei “vou tentar” e realizei a inscrição no processo seletivo enviando as documentações.

Passei por vários processos da seleção, como a avaliação do projeto de pesquisa, avaliação do dossiê, prova oral, que foi a entrevista, prova de interpretação e compreensão de texto na área de antropologia, em língua inglesa.

Enfim, fiquei aguardando com expectativa positiva o resultado da seleção. Era dois concorrentes, sendo eu e o meu amigo Francisco Apurinã, para uma vaga do doutorado. Assim, saiu o resultado da aprovação e eu estava entre os aprovados, em segundo lugar, fiquei muito feliz e empolgada.

Diante do contexto, como havia só uma vaga tanto para o mestrado quanto para o doutorado, nós, os indígenas concorrentes, nos reunimos e fizemos um documento, e foi enviado para a comissão da pós-graduação sobre a possibilidade da abertura para o segundo aprovado, para que aquele ingressasse no curso, visto a importância do processo das ações afirmativas, bem como a presença indígena e o diálogo da diversidade cultural dentro do Departamento da Antropologia Social-DAN/UNB.

Ficamos aguardando a resposta da comissão em torno de 30 a 60 dias, a referida respondeu dando deferimento na documentação, foram momentos significativos, mesclados de emoções, empolgações, alegrias e receio. Fui aprovada, uma conquista e novamente os desafios a serem percorridos e enfrentados, e me ingressei no curso do doutorado, no ano de 2015, em Antropologia Social no Departamento de Antropologia- PPGAS, na Universidade de Brasília-UNB.

A princípio, a pesquisa teve como título: Trabalho, Educação e sustentabilidade dentro do território do Povo Umutina, o referido estudo versa a investigação do trabalho que venho desenvolvendo dentro do âmbito escolar, pois, sou professora na minha comunidade, ressaltando que este trabalho tem a participação dos anciões, professores e estudantes da escola de educação indígena “Jula Paré”.

Estar no doutorado é um sonho que se concretizou, de estar novamente no espaço acadêmico com novas frentes de desafios, pois, diferente do mestrado, o doutorado é acadêmico, é uma dedicação exclusiva, uma forma de colocar em pauta o diálogo para a inserção de novas epistemologias dentro do campo da antropologia, também mostrar e divulgar a história e os saberes indígenas, a luta e a resiliência dos povos indígenas, em particular dar visibilidade ao povo Umutina, grupo étnico do qual pertenço.

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Nesta conjuntura atual, viabiliza-se enquanto indígena a narrar a própria história, através da oralidade e consequentemente através da escrita, a pesquisa, tendo um olhar a partir do pensamento indígena, do saber da ancestralidade, contribuindo e produzindo conhecimento, possibilita aguçar novas formas que agregam a visibilidade de diferentes saberes no espaço da Universidade.

Para fazer o curso de doutorado em Antropologia, tive que me ausentar da aldeia e ir morar em Brasília durante 4 anos, pois, como já mencionado, o doutorado exige uma exclusividade, responsabilidade, um esforço amplo e complexo de estudo e pesquisa.

Então, comecei a articular as documentações para solicitar a “Licença Profissional para a Qualificação” para enviar a Secretaria da Educação e Cultura-Seduc/MT. Reuni-me com a equipe da gestão escolar que estava à frente no ano 2015, o conselho escolar-CDCE e os professores da escola Jula Paré, expus a situação que havia aprovado no curso e, em seguida, pedi apoio e compreensão nesta nova empreitada de estudos na UNB. Foi feito o documento dando respaldo do apoio e da importância do estudo, sendo eu a primeira indígena Umutina a cursar o doutorado. O referido estudo contribuirá no processo de ensino-aprendizagem da comunidade escolar, tanto interna como externa a escola da aldeia, o fortalecimento das práticas pedagógicas e a visibilidade das práticas de saberes indígenas Umutina.

Nesse processo de transição das documentações que foram enviadas à Seduc, e a minha ida para Brasília, os estudantes da escola fizeram uma despedida, uma confraternização para mim, com homenagens, foi um momento fantástico de interação e despedida, visto que estaria ausente da escola Jula Paré por um bom período.

Nesta nova empreitada do caminho que iria iniciar no doutorado tive pessoas especiais e essenciais que me apoiaram, incentivaram dando força, sou grata aos amigos (as), a equipe da gestão escolar, os professores e, em especial, os meus familiares, que são as minhas irmãs Edna e a Edinete, o meu pai Edson Monzilar e, em memória, a minha mãe Nice Boroponepá, minha eterna gratidão.

Após, em torno de 60 dias, recebi a resposta a qual tratava do deferimento do processo da licença profissional para a qualificação, foi uma alegria, em partes, pois, havia conseguido durante 2 anos, após esse período, tinha que solicitar para mais dois (2) anos, totalizando os 4 anos do curso, enfim, apesar disso, foi algo positivo para o meu estudo.

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Então, me lancei ao novo horizonte, diferente da realidade que até aquele momento estava vivendo na aldeia, agora, cidade grande, a capital, vida acadêmica, desafios a trilhar ao mundo dos wase, porém, com grandes expectativas.

No início, quando cheguei a Brasília, uma amiga e professora, Terezinha, que havia dado aula no mestrado, foi quem me hospedou em sua residência nos três primeiros meses, foi uma pessoa que me ajudou muito nesse começo de processo de adaptação e logística, sou grata pelo seu apoio e incentivo. Neste período, encontrei com o meu amigo Francisco Apurinã, ficamos sendo parceiros e grandes amigos para enfrentar juntos as alegrias e as tristezas na caminhada acadêmica.

Posteriormente, com muita luta diálogos e reunião, conseguimos um apartamento na Colina, este é um espaço para hospedagem de acadêmicos oriundos de vários lugares distante de Brasília, fica próximo da UNB, isso foi durante um ano. No ano subsequente, consegui alugar uma kitinet próximo da universidade.

No ano de 2017, fui convidada para participar de um intercâmbio, ou seja, doutorado sanduíche em Suriname, no Projeto intitulado: Diálogos de Saberes Interculturais Brasil-Suriname (Edital SECADI/CAPES nº 02/2014).

Durante os quatros anos de estudos, no curso do doutoramento, foi construído e moldado um processo marcado por encantos e desencantos. Encantos por proporcionar aprendizagem contínua em distintos espaços dentro e fora da academia, diálogos em diversos contextos, as aulas das disciplinas: Organização social e Parentesco, História da Antropologia Clássico 1, História da Antropologia: Autores Clássicos 2, Seminário Avançado em Teoria 2, estágio docência, essas disciplinas abordavam diferentes eixos temáticos referentes às teorias antropológicas que me instigaram a continuar e a enfrentar a partir das perspectivas de diálogos para dar visibilidade e fomentar diferentes saberes indígenas.

Conheci pessoas legais e simpáticas que tornaram amigos que me ajudaram nas leituras e socialização para o entendimento dos textos teóricos, principalmente textos em inglês. Teve vários momentos que se reuniu para o estudo em grupos, pessoas que foram abertos para fazer esse diálogos e estudo em grupo, docentes abertos, sensível e flexível ao diálogos no que tange a questão indígena, a acesso e a permanência dos indígenas na universidade, em particular ao departamento da antropologia.

A experiência do Intercâmbio Intercultural em outro país, o Suriname, como já mencionei acima, me oportunizou ter a oportunidade de conhecer e conviver com os

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indígenas do Suriname em contextos culturais e linguísticos em distintos lugares. Também participei do intercâmbio com os indígenas da Colômbia, conhecendo o trabalho desenvolvido no que se refere à Educação Intercultural.

O estágio docência realizado no segundo semestre do ano de 2016, foi uma experiência desafiadora por eu ter sido a primeira indígena a atuar ministrando aula de introdução a Antropologia para a turma de graduação dos diferentes cursos, dentre estes o Serviço Social, foi um momento de adrenalina, porém, soube conduzir de forma equilibrada, trazendo novas abordagens no processo de ensino-aprendizagem. Houve estranhamento por parte de alguns discentes, por outro lado, consegui despertar novos olhares referentes à questão da diversidade cultural e os povos indígenas, na qual nos relatos disseram que gostaram das aulas.

Pude passar pelo processo de apresentação de trabalhos em vários eventos, congressos, seminários em diferentes lugares do Brasil, assim, como em eventos internacionais e publicações de artigos.

Os desencantos foram me deparar com o sistema acadêmico, que é amplo, complexo, rígido, radical, sistemático, competitivo, experimentar esse diálogo assimétrico e, por outro lado, ter uma perspectiva de vislumbrar um diálogo amistoso, porém, nem sempre acontece.

No entanto, observa-se que a Universidade ainda tem muita resistência de proporcionar para o diálogo do outro, do diferente, dos saberes dos indígenas e de outras comunidades tradicionais. Lembro-me de um fato muito tenso e difícil que aconteceu em que alguns docentes do departamento começaram a questionar sobre a entrada dos indígenas e de um item do edital indígena com relação à produção de texto dos teóricos da antropologia para os indígenas, esse momento foi muito tenso e discutido no colegiado, houve debate acirrado com relação ao acesso dos indígenas. Observei que alguns docentes são muito radicais e que apresentam um pensamento eurocêntrico enraizado. O que vêm à memória foi uma fala de um docente “que os indígenas acadêmicos tinha que dominar os cânones da antropologia”.

Percebe-se que a Universidade, a antropologia que estuda os indígenas, ainda tem resistência para perceber a essência e ter a flexibilidade de entender a especificidade indígena, há uma assimetria neste espaço e no diálogo que mostra uma discriminação diante a esse caso em questão dos indígenas e, assim, para com a diversidade intercultural. Essa

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questão me remete a uma reflexão do pensamento do indígena Daniel Munduruku, o qual em seu texto descreve:

“Ainda que ignorado, negado ou transformado pelos colonizadores – do corpo e da alma - o saber que sempre alimentou nossas tradições se manteve fiel aos princípios fundadores. E isso desnorteou os invasores dos idos de 1500 e continua desnorteando os invasores de nosso tempo que teimam em destruir as tradições originárias que permanecem resistindo, não sem muitas baixas, ao “canto da sereia” do capitalismo selvagem, cujo olhar frio concentra- se na fragilidade humana que é capaz de vender sua dignidade e ancestralidade em troca de um conforto e bem estar ilusórios. E esta resistência permanece viva até nossos dias” (MUNDURUKU, 2009, p. 21-29).

Nota-se que a presença indígena na Universidade provoca um estranhamento, desconforto e incômodo por parte de alguns profissionais, assim, como para os discentes da própria Universidade, estes ainda não estão preparados para receber esses autores e buscar mecanismos que possam viabilizar novas formas de pensar e produzir conhecimentos.

No entanto, diante da situação exposta, um indígena acadêmico do curso de antropologia levantou e falou:

Temos que estar abertos ao diálogo para construir algo positivo. E que neste olhar os antropólogos que vão à aldeia e estudam os indígenas tinha que ser também conhecedores da língua e dos saberes do mundo indígena. E destacou-se: ‘Os docentes teria que ver a realidade de cada indígena acadêmico que vem de distintos lugares e formação específica de acordo com cada realidade’” (indígena acadêmico).

Foi um momento crucial e pode-se perceber que os profissionais que atuam e defendem a causa indígena e, principalmente, o tema relacionado às ações afirmativas que versam o acesso e a permanência dos indígenas no ensino superior, no caso no espaço da antropologia.

Enquanto coletivo dos indígenas acadêmicos, marcamos presença para dar visibilidade e foi feito um documento dos anseios e reivindicações para fortalecimento das práticas das ações e relações que visa estreitar laços amistosos e amplo, é um gargalo, um desafio constante a ser enfrentado no cotidiano no espaço universitário.

Outra questão de estranhamento é trazer a oralidade e a memória dos interlocutores e dialogar com a teoria antropológica, foi e é um dilema que está sendo filtrado, a meu ver é um desafio, sei da importância dos estudos dos teóricos da antropologia, porém, a tese tem um formato diferente de produção da escrita que parte do pensamento de estudiosos e

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pessoas indígenas, este revela outros modos de pensar o mundo, os distintos saberes, no caso particular os Umutina, quebrando paradigmas existentes, instigando novas reflexões sobre a natureza, o conhecimento, as relações, interações do sujeito e o objeto em diferente contexto.

Outro desencanto foi quando não aceitei a orientação de uma determinada docente, a qual cortou relações comigo e teve uma atitude muito radical, uma postura que não imaginava. Semelhante a essa situação constrangedora aconteceu na Universidade do Suriname com uma docente que disse: “como que você não sabe inglês, você tem PHD. Eu sei várias línguas”.

Essas situações foram constrangedoras e mostrou como de fato a academia está enraizada no poder e em um pensamento etnocêntrico, que o conhecimento é dividido em uma caixa e que a mesma torna as pessoas egoístas, sistemáticas, com um pensamento superior dos outros conhecimentos, sem ter a flexibilidade de entender as diferentes realidades das pessoas.

As experiências do doutorado foram um marco em vários aspectos da minha vida pessoal, acadêmica e profissional. Possibilitou mudança de pensamento e, estar aberto ao outro, uma postura holística da realidade dentro e fora a aldeia.

Tive fôlegos e ainda continuo a ter, principalmente por ser indígena e uma mulher de estar nesse espaço, teve a certeza de que tudo que passei me fez tornar mais forte e guerreira. Como dizem as pessoas mais experientes, os guerreiros não abandonam a luta, nem que ele perca, continua lutando sempre. Acredito que assim foi feito, talvez não alcancei a perfeição, porém, segui em frente, pois, a aprendizagem é um processo contínuo em nossa vida.

Passei a conhecer e compreender um pouco do mundo dos wase amplo, encantador, dominador, complexo, e contínuo a fazer. Aprendi a interagir e partilhar aprendizagem em distintas realidades e com pessoas pertencentes aos grupos étnicos. Tudo isso me possibilitou novas redes de contatos e amizades, práticas inovadoras para contribuir no âmbito do trabalho na comunidade indígena. Ser persistente, ter a ousadia e lutar pelos meus objetivos e defender a causa indígena e principalmente jamais deixar a essências das minhas raízes indígenas, de ser uma mulher indígena Balatiponé Umutina.

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Capítulo 2

Para além da escolarização e das memórias de outras experiências fora

da aldeia