“A confiança na vida se foi; a vida mesma tornou-se um „problema‟. – Mas não se creia que isso torne alguém
necessariamente sombrio. Mesmo o amor à vida é ainda possível – apenas se ama diferente.”
(Friedrich Nietzsche, Assim F alava Zaratustra )
“... eu quero tornar-me terra, para encontrar o meu repouso naquela que me gerou.”
(Friedrich Nietzsche, Assim F alava Zaratustra )
Se todo o ideário transhumanista se constitui numa busca prometeica de transcendência ao humano e, mais ainda, a tudo que diz respeito à natureza e suas supostas limitações e imperfeições, Deleuze e Guattari fizeram de toda a sua filosofia uma espécie de geofilosofia254, isto é, construíram toda uma máquina de guerra conceitual de afirmação à imanência pura, à vida como intensidade, hino a Terra e à Natureza como motivo spinozano. (1997c, p. 66). Assim é que, essa primeira parte do capítulo será dedicada a explicitar a distinção que os autores operaram em sua obra entre o plano de imanência e o plano de transcendência, com a problematização quanto ao transhumanismo, suas implicações políticas, e a consequente diferenciação entre ética e moral.
Pensando a relação entre filosofia e imanência, Deleuze e Guattari (1997c, p. 51) afirmam serem os conceitos filosóficos255 totalidades fragmentárias, nascidos de lances de dados que não compõem um quebra-cabeças, isto é, não formam uma unidade, já que suas bordas não se ajustam umas às outras. No entanto, os conceitos ressoam e a filosofia que os cria sempre apresenta um Uno-Todo ilimitado256, não fragmentado, mesmo quando aberto, que os contêm a todos num só e mesmo plano. É o que denominam plano de consistência, ou plano de imanência dos conceitos. Ambos, conceitos e plano são correlativos, mas não devem ser confundidos, não sendo o plano de imanência um conceito, nem mesmo um conceito que
254
Cf. DELEUZE; GUATTARI, 1997c.
255
É bem conhecida entre os leitores de Deleuze e Guattari a especificidade da tarefa da filosofia em criar conceitos, enquanto as outras duas maneiras de criar e de pensar, notadamente a ciência e a arte, produzem respectivamente, funções ou functivos e afectos e perceptos. Cf. DELEUZE; GUATTARI, 1997c.
256
O ilimitado da Univocidade do plano tem o sentido de abertura à multiplicidade de conceitos que podem ser elaborados, conforme a variedade de problemas que surgirem e impulsionarem o pensamento à invenção em sua relação com o fora.
abarcaria todos os conceitos. Tal confusão seria fatal à filosofia em sua especificidade, pois nada impediria a unificação dos conceitos, ou sua transformação em universais, e ainda nada impediria que o plano perdesse sua abertura.
Deleuze e Guattari (1997c, p. 51) definem a filosofia como um construtivismo que comporta dois aspectos complementares, mas que diferem em natureza: a criação de conceitos e o traçado do plano. O plano envolve movimentos infinitos e é o meio que se move infinitamente a si mesmo, e assim comporta os conceitos e seus movimentos finitos de velocidades infinitas: “É necessário a elasticidade do conceito, mas também a fluidez do meio. É necessário os dois para compor „os seres lentos‟ que nós somos.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 51).
O plano é uma espécie de reservatório ou deserto que os conceitos-acontecimentos vêm povoar. Eles são a únicas regiões do plano, e o plano é a única salvaguarda dos conceitos. O plano não possui outras regiões além dos conceitos-tribos que o povoam e nele se deslocam. Assim, é o plano quem assegura aos conceitos seus ajustes e suas conexões sempre crescentes, enquanto os conceitos asseguram o povoamento do plano sobre uma curvatura renovada, sempre em variação.
O plano de imanência não é um conceito pensado ou a ser pensado, mas diz respeito a uma imagem do pensamento, imagem que dá a si mesmo sobre o que significa pensar, fazer uso do pensamento. Não é um método, e nem é, como imaginam os transhumanistas, “um estado de conhecimento sobre o cérebro e seu funcionamento, já que o pensamento não é aqui remetido ao lento cérebro como o estado de coisas cientificamente determinável em que ele se limita a efetuar-se, quaisquer que sejam seu uso e sua orientação.” (1997c, p. 53). Aquilo que cabe ao pensamento não deve ser confundido com os acidentes que remetem ao cérebro, ou às opiniões históricas. Com isso, a perda de memória ou a loucura, por exemplo, não devem se referir ao pensamento enquanto tal, como seu obstáculo, mas a um simples acidente cerebral, a um mero fato. Da mesma maneira, contemplar, refletir e comunicar não são outra coisa senão opiniões que se fazem sobre o pensamento, em tal época e em tal civilização. O que é próprio do pensamento é o movimento que pode ser levado ao infinito, é ele quem constitui a imagem do pensamento, uma imagem não dogmática.
Segundo apontam Deleuze e Guattari (1997c, p. 54), o movimento do infinito não obedece a coordenadas espaço-temporais, que determinariam posições sucessivas de um móvel e os seus pontos fixos de referência. Assim, o mergulho no pensamento não implica nem num ponto de referência objetivo, nem um móvel que se exprimisse enquanto sujeito, desejante do infinito e ou que dele necessitasse. Essa parece ser uma característica dos
transhumanistas, que se colocam como sujeitos fabricadores/idealizadores do infinito em sua marcha sucessiva de evolução tecnocientífica em direção à cura dos males e imperfeições do humano e da Natureza, e sua consequente transcendência triunfalista e redentora. Mas para os filósofos franceses o que se encontra em movimento é o próprio plano enquanto horizonte absoluto (não o horizonte relativo um sujeito), o plano de imanência que nós ocupamos sempre e já. É a Terra se desterritorializando, o pensamento e seus movimentos aberrantes257, seus movimentos infinitos, de ida e volta (desterritorialização/reterritorialização), que vai em direção a uma destinação, mas com retorno perpétuo sobre si, um duplo movimento, uma dobra de um ao outro, do plano sobre si mesmo, do pensamento sobre si mesmo, de um (o plano) e de sua imagem do pensamento, um em relação ao outro. É nesse sentido, dizem os autores, que ser e pensar são uma só e mesma coisa,
Ou antes, o movimento não é imagem do pensamento sem ser também matéria do ser. [...] O plano da imanência tem duas faces, como Pensamento e como Natura, como Physis e como Nôus. É por isso que há sempre muitos movimentos infinitos presos uns nos outros, dobrados uns nos outros, na medida em que o retorno de um relança um outro instantaneamente, de tal maneira que o plano de imanência não para de se tecer, gigantesco tear. Voltar-se-para não implica somente em se desviar, mas em enfrentar, voltar-se, retornar, perder-se, apagar-se. (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 54-55).
Ora, dizem Deleuze e Guattari (1997c, p. 57), a filosofia começa com a criação de conceitos, não pressupostos, e com isso o plano deve ser considerado como pré-filosófico. O plano sim é dado, de modo que os conceitos possam ser remetidos eles mesmos a uma compreensão não-conceitual. A filosofia aqui coloca o plano como uma potência pré ou não- filosófica, como um deserto movente que os conceitos vêm ocupar, povoar. É até mesmo provável que o não-filosófico esteja mais no coração da filosofia que a própria filosofia, e isso quer dizer que a filosofia não pode contentar-se em ser compreendida exclusivamente de maneira filosófica ou conceitual, mas como forma de pensar que se dirige também, fundamentalmente, aos não-filósofos. A filosofia, como criação de conceitos, é, assim, distinta daquele que a pressupõe (o plano), mas é ao mesmo, inseparável dele. A filosofia é, simultaneamente, criação de conceitos e instauração do plano. “O conceito é o começo da filosofia, mas o plano é sua instauração.” (1997c, p. 58). O plano não se confunde com um programa, um projeto, não é um fim ou um meio; o plano é o plano de imanência que se dá
257 Cf. DELEUZE, 1992. Sobre os movimentos aberrantes como máquinas de guerra de possível resistência ao
que debilita a vida, mesmo e, sobretudo, com as promessas de aperfeiçoá-la e eternizá-la (transhumanismo), sem nada problematizar de sua depreciação pelos poderes abomináveis da contemporaneidade, cf. LAPOUJADE, 2015.
como solo absoluto da filosofia, se constitui como sua Terra ou sua desterritorialização, sobre os quais ela cria seus conceitos. Ambos são imprescindíveis, criar os conceitos e instaurar o plano.
Não se pensa para obter conforto existencial, por vaidade intelectual ou para adquirir estabilidade emocional. Verdade, centralidade/unidade referencial ou subjetiva são imagens pálidas do pensamento, imagens de transcendência, algo próximo do que fantasiam os transhumanistas com seu ideário de purgar todo sofrimento, enfermidade, envelhecimento, e até pela noção pessoal de imortalidade que sustentam. Sua concepção de centrar toda a ontologia humana e da natureza em informações, sejam genéticas, sejam neuronais, com a pretensa extensão ilimitada de aperfeiçoamento via informações digitais pelo suposto mapeamento preciso e completo de tais dimensões, parece somente atualizar técnica e cientificamente as antigas e modernas leituras metafísicas da vida, com suas conjecturas racionalistas, evolucionistas, universalistas, essencialistas, substancialistas, identitárias, em que o humano, o “eu” – por mais que seja reclamado à superação, à pulverização por meio de fluxos258 – ainda permanece como registro fundamental. Melhoria, aperfeiçoamento, superação, correção, complementação, etc. não problematizam de fato a imagem-figura do humano em suas formas históricas, homem-divino/homem-secular.259 Apenas prolongam e tornam tal imagem mais extravagante, hiperbólica, imagem transcendente do pensamento, imagem-escapista da dimensão das sensações puras, da pele do mundo.
Deleuze e Guattari (1997c, p. 58) alertam que o pensamento em princípio causa certa indiferença, e que é um exercício perigoso, arriscado. Somente quando os perigos se tornam evidentes é que a indiferença é interrompida, mas ainda assim os riscos permanecem de certo modo imperceptíveis, pois intrínsecos à própria empreitada do pensar. Justo porque o plano de imanência é pré-filosófico, e vai operando ainda sem os conceitos, é que ele vai se dando como uma experimentação de risco, inquietante, desassossegante, tateante, e vai recorrendo a meios-outros que o da altíssima racionalidade. São meios nada convencionais, inconfessáveis pela tradição ocidental e suas versões contemporâneas (o transhumanismo, por exemplo), “da
258 Nas sociedades de controle, diz Deleuze, os poderes operam não mais de modo a fixar, a formar, como nas
sociedades disciplinares – que eram regidas especialmente por localidades enclausurantes e mantinham certa estabilidade de posições e identidades – mas funcionam por fluxos, por formatações e modulações permanentes, mais móveis e eficazes. Cf. DELEUZE, 1992. E também DELEUZE, 1999. A imagem dos poderes e seu correlato humano, identitário, muda, mas nem assim nos libera de seu projeto tanto mais dominador e
desvitalizador, basta observar os sonhos transhumanistas, que prometem nos dar a “liberdade” de nos refazermos
de corpo e subjetividade ao infinito, porém sob o regimento hegemônico da figuração antropocêntrica, seu alargamento, seu superapoderamento. Mesmo quando supostamente posto em questão, o antropocentrismo é conservado entre os transhumanistas, pois o humano é sempre o centro, seja de cuidado, seja de controle, seja como meio privilegiado de evolução em relação às demais forças da Natureza.
ordem do sonho, dos processos patológicos, das experiências esotéricas, da embriaguez ou do excesso.” (1997c, p. 58). Pensar sob o plano de imanência não traz qualquer tranquilidade, o retorno de seu mergulho é com os olhos injetados de sangue, ainda que seja com os olhos do espírito. São linhas de fuga extraordinárias o que o pensamento persegue, são voos de bruxa, velocidades e movimentos infinitos, furiosos, nada apaziguadores. E, no entanto, tal turbilhão como meio não aparece no resultado, visto que este deve ser tomado em si mesmo e calmamente, dando ao perigo do pensamento imanente um outro sentido:
...trata-se de consequências evidentes, quando a imanência pura suscita, na opinião, uma forte reprovação instintiva e a natureza dos conceitos criados ainda vem redobrar a reprovação. É que não pensamos sem nos tornarmos outra coisa, algo que não pensa, um bicho, um vegetal, uma molécula, uma partícula, que retornam sobre o pensamento e o relançam. (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 59).
Aqui sim, o humano é atravessado por outras forças que não as que meramente o espelham, o projetam, que o mantém como centro onto-epistemológico, político e ético, estético ou qualquer outra dimensão que o privilegie numa posição hierárquica superior em detrimento das demais forças da Natureza. Aqui o humano se abre a multiplicidade de devires (devir-animal, devir-vegetal, devir-mineral, devir-imperceptível), se desdobra de si mesmo e produz um pensamento da pura imanência, pensamento inumano (não desumano), intempestivo260, que não simplesmente pulveriza as identidades-fixas modernas, mas também quebra com o registro identitário persistente nas sociedades de controle, com suas identidades
prêt-à-porter261, com os perfis-fluxos-identitários, móveis e variados que os mercados
contemporâneos investem como novidades adequáveis às permanentes necessidades de domesticação política e maximização econômica. Assim, os devires funcionam como um processo de singularização que nada tem a ver com a noção de indivíduo,262 de identidade, com a relação de sujeito e objeto (interioridade ou exterioridade)263, mas produz em cada único uma relação com seu fora, fora do eu, fora do humano, fora de sua maioria, de sua
260 Sobre o intempestivo, cf. DELEUZE; GUATTARI, 1997c. 261
Sobre tais identidades, cf. ROLNIK, 1997.
262 Deixar claro que para Deleuze a ideia de indivíduo propriamente está ligada ao mundo clássico, sendo o indivíduo coextensivo ao ser. Já no mundo romântico, é a pessoa quem aparece “definida como coextensiva à representação”. (DELEUZE, 2006c, p. 185). A contemporaneidade apresenta uma outra figura segundo Deleuze: “Nós descobrimos, todavia, um mundo de singularidades pré-individuais, impessoais. Elas não se reduzem aos
indivíduos nem às pessoas, e nem a um fundo sem diferença. São singularidades móveis, ladras e voadoras, que
passam de um a outro, que arrombam, que formam anarquias coroadas, que habitam um espaço nômade.”
(DELEUZE, 2006c, p. 185). Para uma verificação mais detida sobre a questão do indivíduo e das singularidades pré-individuais em Deleuze, cf. DELEUZE, 1998. Também, DELEUZE, 2006c.
dominância, e a experimentação do outro, um outramento de si, uma saída do confinamento de si sem a mera dispersão e/ou indiferenciação.
Deleuze e Guattari (1997c, p. 59) anotam que o plano de imanência é como um corte no caos e que opera como um crivo. O que é próprio do caos são as velocidades infinitas com a qual as determinações se esboçam e diluem sem que haja movimento de uma a outra, visto a impossibilidade da relação entre duas determinações, já que uma não aparece senão quando a outra já desapareceu. O caos não é nem inerte nem estacionário. O caos não é também uma mistura ao acaso. O caos caotiza, desfaz no infinito toda consistência. O problema da filosofia frente ao caos, em sua luta com o caos, é o de conquistar certa consistência sem perder o infinito no qual o pensamento mergulha (o caos aqui é ao mesmo tempo de ordem física e espiritual). A tarefa da filosofia é dar consistência ao caos sem abrir mão das velocidades e dos movimentos infinitos, algo distinto do trabalho científico, que busca dar referências ao caos, renunciando assim às velocidades e movimentos infinitos, operando por limitação das velocidades, tendo por princípio um horizonte relativo.264 Com a filosofia se dá algo diverso, supõe e instaura o plano de imanência, assume as velocidades e movimentos infinitos sem moderação, e ao operar um corte no caos, faz apelo à criação de conceitos.265
Mas a filosofia é desde seus começos ameaçada por certa confusão: do Uno imanente ser remetido a outro Uno, um Uno além; o que ocorre, por exemplo, com Platão e seus sucessores neoplatônicos. A imanência, seja como matéria de Ser seja como imagem do pensamento, passa a ser imanência em relação “a” algo, o Uno-Todo imanente estando “no” outro Uno, este transcendente. Ora, alertam Deleuze e Guattari:
Cada vez que se interpreta a imanência como “a” algo, produz-se uma confusão do
plano e do conceito, de modo que o conceito se torna um universal transcendente, e o plano, um atributo no conceito. Assim mal entendido, o plano de imanência relança o transcendente: é um simples campo de fenômenos que só possui secundariamente o que se atribui de início à unidade transcendente. (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 62).
264 O uso tecnocientífico pelos transhumanistas é aí bem peculiar. Quando prometem, por exemplo, uma
transformação infinita e ilimitada tanto do corpo quanto da subjetividade humana, e até da Natureza em geral, é ainda sob certa finalidade e limites do humano como centro e referência universal. Tanto a velocidade quanto o movimento que aventam são do tipo paradigmático, com figuras que confundem suas operações com o plano de transcendência propriamente religioso (imortalidade, perfeição, abolição da dor, do sofrimento, etc.), que projetam certa uniformidade de desejo relativo a sujeitos frente ao horizonte a ser conquistado. Sobre a relação ciência e religião, cf. DELEUZE; GUATTARI, 1997c.
265 Se a tarefa específica da filosofia é criar conceitos sobre um plano de imanência, a ciência tem por objeto
Dizem os autores (1997c, p. 62) que, com o cristianismo a situação só se agrava. A posição de imanência não é por completa dispensada, ao contrário, se mantém como “instauração filosófica pura”. O problema aqui é que a imanência é suportada apenas em pequenas doses, é rigidamente controlada pelas exigências de uma transcendência emanativa, e mais ainda, criacionista. Nesse momento, os filósofos ficam reféns da autoridade religiosa, e devem demostrar que a dose de imanência que aplicam no mundo e na alma, não ameaça a transcendência do Deus que só aceita a imanência como instância secundária inferior. Ora, a imanência é a pedra de toque ardente de toda a filosofia, pois ousa enfrentar todos os perigos, todas as condenações, perseguições e negações que esse modo pensar se depara. É dessa forma que o problema da imanência não parece ser algo de meramente abstrato ou teórico. A imanência é tão perigosa porque ela devora os sábios e os deuses, como imanência pura só é imanente a si mesma, banha tudo, toma para si o Todo-Uno sem nada deixar como outra dimensão a que ela seria imanente. Porém, toda vez que se confunde a imanência como imanente “a” algo, este Algo termina por reintroduzir o transcendente.266
Segundo Deleuze e Guattari (1997c, p. 63), é a partir de Descartes, e com Kant e Husserl, e a emergência do cogito, que o plano de imanência pode ser tratado como campo de consciência. A imanência passa a ser supostamente imanente a uma consciência pura, a um sujeito pensante. Kant dará a este sujeito o nome de sujeito transcendental, e não transcendente, pois se trata do “sujeito do campo da imanência de toda experiência possível, ao qual nada escapa, o exterior bem como o interior.” (DELEUZE, GUATTARI, 1997c, p. 63). Por mais que recuse qualquer uso transcendente da síntese, Kant ainda assim remete a imanência ao sujeito da síntese, agora como unidade subjetiva, ao contrário da suposta unidade transcendente objetiva concernente ao platonismo e ao cristianismo. E mais: ainda que faça a denúncia das Ideias transcendentes, fazendo delas o horizonte do campo imanente ao sujeito, ele encontra justo aí uma nova maneira, moderna, de salvar a transcendência. Não é mais a transcendência de um Algo ou de um Uno superior a ser contemplado, mas “a de um
266“A imanência só é imanente a si mesma, e então toma tudo, absorve o Todo-Uno, e não deixa nada subsistir a
que ela poderia ser imanente. Em todo caso, cada vez que se interpreta a imanência como imanente a Algo, pode-se estar certo que este Algo reintroduz o transcendente.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 63). Esse
Algo como sugerem Deleuze e Guattari é uma das “figuras” da filosofia: objetidade de comtemplação, sujeito de
reflexão, intersubjetividade de contemplação. Tais figuras conforme os autores são fundamentalmente paradigmáticas, projetivas, hierárquicas, referenciais. Cf. DELEUZE; GUATTARI, 1997c. Mais explicitamente,
esse Algo o qual é reintroduzida a transcendência na imanência é “Deus, o Ser, o Espírito Absoluto, o Significante”. (GUATTARI, 1992, p. 132).
Sujeito ao qual o campo de imanência é atribuído por pertencer a um eu que se representa necessariamente um tal sujeito (reflexão).” (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 64).267
Há ainda outro aspecto em que a transcendência se apresenta no campo imanente: visto que a imanência se tornou imanente a uma subjetividade transcendental, esta quando referida a outra consciência, se apresenta como transcendência comunicativa de um eu a outro eu. Husserl e outros de seus sucessores concebem ao Outro e ao fluxo do mundo vivido na subjetividade todo o trabalho da transcendência no seio da imanência, mundo intersubjetivo povoado de objetos intencionais, de outros eus, “uma terceira vez como transcendência objetiva de um mundo ideal povoado de formações culturais e pela comunidade dos homens.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 64). Desde a modernidade, a imanência não é mais referida a uma transcendência, esta é pensada no interior da própria imanência, e é dela que se espera uma ruptura definitiva. É por dentro do campo mesmo de imanência, que fazem por toda parte dela transbordar a transcendência. Não basta mais reduzir a imanência ao transcendente, é preciso a partir de então que a imanência remeta à transcendência e a reproduza, que a fabrique.
Ora, o problema fundamental que se coloca aqui é o de saber se – além dessas três modalidades de Universais (contemplação, reflexão, comunicação), que são segundo Deleuze e Guattari (1997c, p. 65) como que três idades da filosofia (a Eidética, a Crítica e a Fenomenologia), que não se separam da história de uma longa ilusão – é possível incluir contemporaneamente a filosofia transhumanista como maneira de idealizar/experienciar, e