2.2 Tutorial
2.2.9 Visualization of vector fields
O litoral norte paulista no início do século XIX se apresenta como uma região que estava reclusa a uma faixa estreita de terra, comprimida entre a serra e o mar, com vias de acesso extremamente precárias ao Vale do Paraíba, restando somente o mar como uma única forma de comunicação eficiente com o mundo externo.
Era através do mar que chegavam notícias, riquezas, produtos que a própria região era incapaz de produzir e os escravos, tão necessários aos seus pequenos roçados e afazeres domésticos. Pelo mar também se levavam os seus excedentes de açúcar, farinha, aguardente, café, peixes, louças, fumo, entre outros produtos agrícolas, para serem comercializados com o Rio de Janeiro e Santos.
Quando o dito pequeno comércio se viu privado da liberdade desse pequeno círculo de comercial, através de duas restrições em suas exportações, as estruturas econômicas que cercavam a produção do açúcar e da aguardente foram abaladas e o potencial de riqueza que o açúcar estava tentando gerar se viu arruinado.
A região só conseguiu retomar o desenvolvimento quando a plantação do café toma fôlego na segunda década do século XIX. O número de escravos e da população total aumenta, a posse de escravos se intensifica, e até os pequenos proprietários de terras e escravos participam da nova economia até mesmo com seus pequenos pés de café e seus poucos cativos.
É neste momento que se dá a presença de estrangeiros diferenciados no litoral norte paulista. Eram ingleses interessados em uma riqueza que essas
pessoas não tinham incluídos em suas receitas de exportação até então. Esses estrangeiros aportaram e quiseram valer um direito que diziam ser deles, o direito de explorar a riqueza das madeiras que há anos estavam praticamente intocáveis pelos seus moradores.
O uso que os litorâneos faziam da mata nada mais era do que utilizar em suas poucas construções de casas e benfeitorias diversas e, também para alimentar o fogo de seus poucos engenhos existentes. Mas, a partir do momento que alguns senhores de engenho, perceberam a possibilidade de utilizar a mão-de-obra escrava em mais essa empreitada junto ao desejo dos ingleses, eles começaram a dedicar uma pequena parte do tempo em arrancar da terra aquelas madeiras de alto valor comercial que possivelmente não apresentava um mercado no Brasil capaz de consumir tanta madeira como os ingleses estavam dispostos a absorver.
Para melhor intensificar a extração e conhecimento das qualidades de madeiras que existiam, os ingleses deslocam para o litoral norte paulista, um construtor naval para não só observar o desenrolar dos negócios, mas, para interferir diretamente nele, como um intermediário disposto a fazer contato com proprietários de terras que tinham árvores de alto valor comercial que não tinham possibilidade ou, acharam melhor arrendar o direito de exploração.
Na década de 1810 a 1820 houve uma presença constante de navios ingleses no canal de São Sebastião esperando embarcar as pranchas aparadas dessas madeiras. O governo de São Paulo, para melhor observar o comércio e extração, nomeia a vila de São Sebastião para salvaguardar os interesses portugueses e verificar se não havia abusos nesse negócio, mas,
totalmente incapaz de evitar a intromissão inglesa já que não tinham nem uma só braça de terra com reserva florestal real.
As nossas fontes totalizaram aproximadamente 5300 pranchas de madeiras de 46 qualidades diversas que foram embarcadas nos navios britânicos de 1810 até 1818. Terminando por acrescentar um algo mais na riqueza acumulada pelos proprietários.
O café continua por se desenvolver no litoral, aumentando e desenvolvendo a riqueza local com o funcionamento da exportação ocorrendo de forma livre, após o Tratado de Abertura dos Portos em 1808. As listas nominativas que findam em 1836, provam que a região ainda estava em franco desenvolvimento em 1836, mas, a partir dessa data, nos resta quase nenhuma documentação que permite considerar o momento que o café inicia a sua decadência fruto da concorrência de mercado do Vale do Paraíba e região fluminense. O marco da decadência, na verdade, está na falta de possibilidade de desenvolvimento, ao longo da história, de suas vias de acesso ao planalto e Vale do Paraíba. Enquanto que trens começaram, na segunda metade do XIX, a ligar o interior a São Paulo e ao porto de Santos e, São Paulo ao Rio de Janeiro, o litoral norte paulista ficou refém do esquecimento e isolamento da rede comercial que começou a se desenvolver ao se redor.
Esse esquecimento e isolamento só foram resolvidos quase cem anos depois, quando nos anos 40 e 50 do século XX, o turismo se interessa pela região, e também, quando a Petrobrás, na década de 60 se instala em São Sebastião. São outros tipos de pessoas que se aventuram no comércio da região a partir desse momento, de um lado o governo federal de caráter militar, com um projeto de desenvolvimento econômico nacional e, de outro,
especuladores imobiliários que se apossam de terras, construindo casas, invadindo florestas e morros, derrubando a mata, de modo desenfreado, e empurrando uma população restante de gerações do século XIX, de estilo de vida caiçara, cada vez mais para as margens dos bairros e morros.
Com esse caráter de isolamento o litoral norte paulista adentra o século XX, e termina como uma cidade comprimida entre a Serra e o mar, com uma população que cresceu de quase 10.000 pessoas em 1900 e fechando o século XX com uma soma de mais 224.000 pessoas, conforme o IBGE. Hoje ainda se luta para romper as barreiras do desenvolvimento das vias de acesso às cidades litorâneas, para mais uma vez tentar desenvolver o porto que à beira das águas de São Sebastião repousa.