4.1. GEOLOGIA LOCAL
Na região sudeste de Minas Gerais, mais precisamente nos municípios de Dom Silvério, Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Sem Peixe, afloram rochas de fácies granulito que, em termos de grau metamórfico, destoam das unidades adjacentes de fácies xisto-verde a anfibolito que predominam nessa região. Brandalise (1991) atribuiu a esses litotipos a denominação Granulito Córrego Pedra Dourada, a qual foi simplificada, no presente trabalho, para Granulito Pedra Dourada.
A figura 4.1 apresenta a distribuição espacial do Granulito Pedra Dourada na região estudada. Nota-se que essa unidade ocorre como um corpo principal de aproximadamente 45km2 e em afloramentos isolados de localizações distintas. O corpo de maior expressão aflora na porção central da área, entre a cidade de Sem Peixe, a norte, e a calha do Rio Doce, a sul. As ocorrências isoladas situam-se: i) na porção norte da área, nas imediações do distrito de São Bartolomeu, em Sem Peixe; ii) na porção central, a sul do corpo principal, próximo ao distrito de São Sebastião do Soberbo, em Santa Cruz do Escalvado; iii) na porção sul, nas cercanias da cidade de Rio Doce. A partir dessa figura verifica-se que o corpo principal do Granulito Pedra Dourada é consideravelmente maior do que aquele originalmente mapeado por Brandalise (op. cit.) (Fig. 3.2).
O Granulito Pedra Dourada corresponde a uma associação de rochas de fácies granulito de natureza orto e paraderivada. Os litotipos de protólito ígneo são predominantes na região e incluem granulitos de composição charnockítica a enderbítica e granítica a tonalítica, denominados granulitos félsicos, e subordinadamente granulitos de composição gabróica, denominados granulitos máficos. O litotipo de protólito sedimentar foi denominado granulito aluminoso.
As rochas félsicas ocorrem como lajedos no curso de rios e córregos, como paredões em cortes de estrada ou mais comumente como matacões arredondados de dimensões métricas, encontrados em encostas ou às margens dos cursos d’água. As rochas máficas foram encontradas apenas como matacões. As rochas aluminosas constituem lajotas e raros matacões.
As relações de contato entre os litotipos félsico e máfico são diversas. É comum a ocorrência do granulito máfico como blocos subangulosos a arredondados ou como enclaves difusos no granulito félsico (Fig. 4.2a, b). Todavia, também são encontrados afloramentos dominantemente máficos recortados por veios do granulito félsico (Fig. 4.2c). Nesses casos, as texturas sugerem que o granulito félsico corresponda a um leucossoma charnockítico. Os dois litotipos coexistem ainda como uma alternância de bandas félsicas e máficas de espessura centimétrica. Essas bandas podem ocorrer
dobradas ou mostrar contatos subparalelos transicionais, assemelhando-se à estrutura schlieren (Fig.4.2d, e). Não foram observados contatos entre o granulito aluminoso e os litotipos ortoderivados.
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Figura 4.2 - Aspectos de campo das rochas de fácies granulito. (a) Blocos de granulito máfico envoltos por granulito félsico (Ponto K-6); (b) Enclaves de granulito máfico com contatos difusos em granulito félsico (Ponto K-11); (c) Granulito máfico recortado por veios do granulito félsico (Ponto K-6); (d) Granulitos máfico e félsico caracterizando um bandamento com dobras apertadas (Ponto K-6); (e) Granulitos félsico e máfico com contatos difusos, assemelhando-se à estrutura schlieren (Ponto K-5); (f) Granulito aluminoso com veios irregulares e contorcidos, definindo a estrutura flebítica (Ponto K-58). Abreviações: gf – granulito félsico; gm – granulito máfico; ga – granulito aluminoso; ls – leucossoma.
Os granulitos comumente exibem feições alusivas à fusão parcial. Algumas dessas feições podem ser classificadas de acordo com a proposição de Mehnert (1971). O granulito aluminoso exibe estrutura análoga à flebítica – veios quartzo-feldspáticos irregulares, subparalelos e que se apresentam dobrados ou contorcidos (Fig. 4.2f). Nos litotipos ortoderivados ocorrem estruturas equivalentes à:
estictolítica (ou fleck) – agregados de minerais máficos circundados por manto quartzo-feldspático (Fig. 4.3a); schollen – blocos de granulito máfico fragmentados e envoltos por leucossoma (Fig. 4.3b) e schlieren (Fig. 4.3c) – faixas de leucossoma e melanossoma subparalelas com contatos difusos. De maneira geral, o leucossoma é caracterizado por uma granulação média a grossa, por vezes chegando a muito grossa. É composto essencialmente por quartzo e feldspato, mas pode conter também granada, no caso dos granulitos aluminosos, ou anfibólios, como nos granulitos máficos com estrutura fleck.
Os litotipos de fácies granulito encontram-se espacialmente associados a rochas de fácies anfibolito. O corpo principal e as ocorrências meridionais são ladeados por gnaisses dominantemente ortoderivados, de composição granítica a tonalítica, intercalados por anfibolitos, ambos correlacionados ao Complexo Mantiqueira. O corpo setentrional ocorre entre rochas metavulcanossedimentares do Grupo Dom Silvério. As relações de contato entre o Granulito Pedra Dourada e essas unidades regionais não puderam ser estabelecidas, devido à ocorrência de afloramentos descontínuos e contatos obliterados pela ação intempérica.
Na área estudada foram identificadas ainda rochas máficas intrusivas, aparentemente sem indícios de metamorfismo ou deformação. Em geral ocorrem como diques de diabásio que cortam tanto o Granulito Pedra Dourada como o Complexo Mantiqueira. É provável que tais diques também ocorram nas rochas do Grupo Dom Silvério, no entanto tal relação não foi observada em campo. Também são comuns as intrusões pegmatóides que, ora são discordantes da foliação dos gnaisses e dos granulitos, ora se paralelizam a ela. Ao contrário dos diabásios, esses pegmatitos mostram-se variavelmente deformados.
Em termos estruturais, os granulitos e as unidades adjacentes registram graus variados de deformação. Nos litotipos ortoderivados predominam feições isotrópicas ou um bandamento mineralógico milimétrico a centimétrico com foliação incipiente. O granulito aluminoso exibe bandamento composicional e foliação proeminentes, marcada pela orientação da biotita (Fig. 4.3d).
Dobras de diversas geometrias e dimensões centimétricas a métricas foram encontradas indiscriminadamente em gnaisses, granulitos e pegmatóides. Nos gnaisses são comuns as dobras isoclinais, normais a recumbentes. Nos granulitos foram identificadas dobras abertas a cerradas (Fig. 4.2d), algumas vezes redobradas e com geometrias em “z”, “m” e “s”, além de dobras intrafoliais sem raiz. Já nos veios pegmatóides as dobras são suaves a abertas.
Os granulitos mostram também feições tipicamente miloníticas. Essas são representadas por porfiroclastos do tipo augen, orientados segundo a foliação milonítica e definindo uma lineação de estiramento (Fig. 4.3e). Ademais, foram observadas estruturas S-C em zonas de cisalhamento centimétricas, as quais transpõem localmente o bandamento composicional granulítico (Fig.4.3f).
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Figura 4.3 - Feições migmatíticas e estruturais das rochas de fácies granulito. (a) Granulito máfico com
segregados félsicos contendo minerais máficos (no caso hornblenda), caracterizando a estrutura fleck (Ponto K- 52); (b) Blocos de granulito máfico envoltos por leucossoma, definindo a estrutura schollen (Ponto K-11); (c) Estrutura schlieren, definida por faixas difusas de leucossoma e melanossoma em granulito máfico; (Ponto K- 26); (d) Bandamento composicional milimétrico e porfiroblastos de granada em granulito aluminoso (Ponto K- 46); (e) Porfiroclastos do tipo augen em feldspato do granulito félsico (Ponto K-27); (f) Granulito félsico afetado por zona de cisalhamento decimétrica, caracterizando estrutura S-C (Ponto K-6). Abreviações: gf – granulito félsico; gm– granulito máfico; ls – leucossoma; ms – melanossoma; grt – granada; hbl - hornblenda.
4.2. PETROGRAFIA DOS GRANULITOS
A caracterização petrográfica e microestrutural do Granulito Pedra Dourada foi baseada em dados coletados durante diversos trabalhos de campo realizados na região onde foi definida essa unidade. Além das amostras coletadas e das lâminas delgadas confeccionadas durante a presente pesquisa, também foram descritas as amostras e respectivas lâminas dos trabalhos de Jordt-Evangelista (1996), Alcântara & Machado (2010) e Melo & Maia (2010).
A nomenclatura dos litotipos de fácies granulito apresentada priorizou a facilidade de compreensão dos termos adotados. Para os granulitos de protólito ígneo, foram atendidas as recomendações da SCMR (Subcommission on the Systematics of Metamorphic Rocks) da IUGS (International Union of Geological Sciences), publicadas por Fettes & Desmons (2007). Segundo esses autores, o termo granulito félsico deve ser aplicado às rochas de fácies granulito com menos de 30% (em volume) de minerais máficos e o termo granulito máfico àquelas com mais de 30% desses minerais. Assim, rochas de fácies granulito de composição granítica a tonalítica cujo mineral máfico principal é o ortopiroxênio, outrora classificadas como charnockitos, opdalitos e enderbitos (Le Maître 1989) foram englobadas pelo termo félsicas. No caso dos granulitos de protólito sedimentar, optou-se pela denominação granulito aluminoso, a fim de melhor diferenciá-los dos litotipos ortoderivados, devido à sua particularidade composicional, ocorrência restrita e fonte distinta.
A classificação dos constituintes minerais quanto à granulação e à composição modal foi baseada nas orientações dos mesmos autores (Fettes & Desmons op. cit.). Para a granulação, considera-se: >16 mm - Muito grossa; 16 - 4 mm – Grossa; 4 - 1 mm – Média; 1 - 0,1 mm – Fina; 0,1 - 0,01 mm - Muito fina; <0,01 mm – Ultrafina. Em termos de composição modal, os minerais são classificados em: Principal - teor ≥50% do volume da rocha; Maior - teor ≥5%; Menor - teor <5%; Essencial - mineral que deve estar presente em uma porcentagem mínima para satisfazer a definição da rocha e pode ser um constituinte maior ou menor. No caso da abreviação dos nomes de minerais apresentada nas fotografias e fotomicrografias, foram atendidas as sugestões da International Mineralogical Association (IMA) publicadas por Whitney & Evans (2010). Ademais, informa-se que as fotomicrografias foram obtidas em microscópio ótico sob Luz Polarizada Plana (LPP) e Luz Polarizada Cruzada (LPX).
4.2.1. Granulito félsico
O granulito félsico representa o litotipo de fácies granulito mais abundante na área de estudo. Com base no conteúdo de minerais máficos, este granulito pode ser agrupado em dois tipos: (i) Biotita granulito félsico ± granada, pertencente à série granito - tonalito; (ii) Ortopiroxênio granulito félsico, pertencente à série charnockito - enderbito.
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