Para discutirmos a formação da sociedade riopardenses, partiremos do contexto nacional para o local. Duas questões que atingiram o contexto nacional modificaram essa sociedade: a crise do trabalho escravo e a imigração italiana. Ambas estão relacionadas entre si e com outras questões que também afetaram todo o país. Em São José do Rio Pardo, o cativeiro foi mantido até a abolição, concomitantemente à presença dos italianos colonos das lavouras cafeeiras. A crise da escravidão afetou os fazendeiros locais, que contrataram italianos para suas fazendas e a sociedade riopardense sofreu os impactos da presença de um novo grupo cultural.
A crise do trabalho escravo teve início com a Lei Eusébio de Queiroz, em 1850, que proibiu o tráfico internacional, dificultando a chegada de navios negreiros trazendo braços africanos para a lavoura brasileira. As províncias com menor movimentação econômica na segunda metade do século XIX vendiam seus cativos para aquelas em que a economia estava crescendo. Nesse sentido, era comum um fluxo de negros e pardos do vale do Paraíba para o oeste paulista, que saíam de uma região decadente da cafeicultura para outra muito próspera. Da mesma maneira, escravos do nordeste foram direcionados para o oeste da província paulista. Emília Viotti da Costa afirma que, em 1823, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo contavam com 386 mil cativos e Bahia, Pernambuco e Maranhão, com 484 mil. Em 1873, esses números se alteraram drasticamente e as três últimas províncias passaram a ter 346.273 negros e Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo subiram sua população escrava para cerca de 800 mil.98
Na segunda metade do século XIX, o movimento abolicionista cresceu e diversas legislações foram sancionadas, o que acabaria com a escravidão gradativamente, como a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários, ou protegeriam os cativos e suas famílias, como a Lei n° 2.040, de 28 de setembro de 1871. Cristiany Miranda Rocha observou que em Campinas havia uma tendência em se manter as uniões familiares durante as partilhas mesmo antes da sanção da lei de 1871, o que já indicava um respeito às relações pessoais dos escravos.99 Isso também pode ter acontecido em São José do Rio Pardo, já que encontramos registros de casamentos de negros e filhos de famílias cativas sendo batizados.
98
COSTA, Emília Viotti. Da monarquia a república: momentos decisivos. 8ed. rev. e ampliada. São Paulo: Editora Unesp, 2007.
99
ROCHA, Cristiany Miranda. A morte do senhor e o destino das famílias escravas nas partilhas. Campinas, século XIX. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 26, nº 52, p. 175-192 – 2006 e
MATTOS, Hebe. “Raça e cidadania no crepúsculo da modernidade escravista no Brasil”. In.:
GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil imperial, volume III: 1870-1889. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 15-37.
Essas mudanças graduais na legislação e as condutas de proteção do escravo mesmo dentro do cativeiro, de certa forma, refletiam uma modificação na maneira de pensar a escravidão. Segundo Ângela Alonso, havia um movimento de caráter principalmente político na geração de 1870 que discutia o Brasil apropriando-se de teorias e doutrinas europeias e estadunidenses, a partir de uma censura e um recorte próprios.100
Maria Fernanda Lombardi Fernandes discute a relação entre os abolicionistas e os republicanos. Segundo ela, os dois grupos pertenciam à geração de 1870 mencionada por Alonso, mas não necessariamente estavam vinculados entre si: havia uma “postura ambígua dos republicanos em relação à escravidão” 101
. Os republicanos optaram por não se posicionar ou por separar uma proposta da outra, porém havia o problema da mão de obra, que deveria ser levado em consideração. Mesmo que muitos deles fossem abolicionistas, havia uma preocupação com certa isenção e distanciamento dessa discussão. Segundo Fernandes,
para os fundadores do Partido Republicano no Brasil a questão da liberdade do escravo não se colocava como um problema de fato para o estabelecimento de um sistema mais amplo de liberdades no país, ou melhor, não era uma questão propriamente política, daí a não necessidade de se tratar dela.102
No caso do PRP, os republicanos não se posicionavam em relação à abolição. Francisco Glicério, por exemplo, afirmou que os estados da federação deveriam resolver essa questão separadamente, desatrelando a opção republicana do abolicionismo.103 A assertiva de que os republicanos não estavam necessariamente
100
ALONSO, Ângela. Idéias em movimento: a geração 70 na crise do Brasil Império. Tese de doutoramento, Departamento de Sociologia, FFLCH/ USP, 2000.
101
FERNANDES, Maria Fernanda Lombardi. Os republicanos e a abolição, Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 27, p. 181-195, nov. 2006.
102
FERNANDES, op. cit., 2006, p. 189.
103
associados à adoção das ideias abolicionistas é confirmada pela manutenção do cativeiro em São José do Rio Pardo, observada a partir dos registros religiosos. O crescimento da lavoura cafeeira e a demanda por mão de obra fez com que os senhores mantivessem seus plantéis enquanto contratavam e se adaptavam aos empregados italianos. Se havia uma tendência abolicionista entre os republicanos, não houve escritos ou abordagens que justificassem essa crença e a ação desses homens apenas perpetuou o cativeiro até os últimos momentos. Enfim, o instituto da escravidão foi mantido, indicando que se o abolicionismo existia enquanto uma ideologia para esses homens, ela era menos importante que manter as atividades agrícolas.
Ao mesmo tempo em que as discussões abolicionistas floresciam, a redução do número de cativos e a impossibilidade de trazer novas peças encareceram o preço dos escravos. Segundo Emília da Costa Viotti, o valor do cativo aumentou mais de três vezes e isso afetou a mão de obra da lavoura cafeeira do oeste de São Paulo, incentivando a imigração.104 Essa medida seria uma solução para o problema do trabalho na lavoura, mas não abordava a questão da abolição, apenas inseria outro elemento no sistema escravista. Os imigrantes conviveram lado a lado com os escravos e enquanto eram institucionalmente tratados como empregados, algumas vezes, os patrões se esqueciam dessa condição e os tratavam como cativos. Isso demonstrava que a inserção do italiano naquele processo econômico apenas vinha para diminuir o impacto causado pelas legislações abolicionistas.
A imigração no Brasil do século XIX se caracterizou por duas modalidades: a imigração de ocupação de áreas pouco exploradas do território e a imigração para a lavoura cafeeira. Essa primeira modalidade recebeu incentivos do governo imperial com o intuito de colonizar áreas ainda não ocupadas e clarear a cor da
104
pele dos brasileiros. A segunda modalidade teve como principal objetivo sanar o problema da mão de obra da cafeicultura ocasionada pela crise do sistema escravista e foi patrocinada, especialmente, pelos fazendeiros de café do oeste paulista.105
A imigração para a colonização de áreas do território brasileiro começou na primeira metade do século XIX e foram trazidos para o Brasil, principalmente, imigrantes de origem germânica e suíça.106“Nas regras de admissão de estrangeiros o
imigrante ideal, o único merecedor de subsídios, é o agricultor; mais do que isso, um agricultor branco que emigra em família.”107 Esses colonos receberem uma porção de terra para cultivar que deveria ser paga em prestações anuais ao governo, juntamente com os gastos da viagem feitos pelo império brasileiro para trazê-los ao território nacional.108
Já a segunda modalidade de imigração abordada por nós se refere, principalmente, à presença italiana para o trabalho nas lavouras cafeeiras, em substituição à mão de obra escrava. Ela teve início na década de 1870 e, em sua maioria, os italianos foram trazidos pelos fazendeiros de café paulista para a atividade cafeeira. Abaixo segue um gráfico com os números de imigrantes que chegaram ao Brasil e ao estado de São Paulo entre 1872 e 1972.
105
BEZERRA, Maria Cristina dos Santos. Imigração alemã para a cidade de Limeira. Disponível em <
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/seminario5/c_imigra%E7ao_mariacristinabe zerra.doc > Acesso em 01 de agosto 2013.
106
GRANZOW, Klauz. Pomeranos sob o Cruzeiro do Sul: colonos alemães no Brasil. Vitória (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2009, p. 166.
107
SEYFERTH, Giralda. Colonização, imigração e a questão racial no Brasil. Revista USP, São Paulo, n.53, p. 117-149, março/maio 2002. Disponível em < http://www.usp.br/revistausp/53/12-giralda.pdf > Acesso 10 jan. 2013, p. 119.
108
GRANZOW, Klauz. Pomeranos sob o Cruzeiro do Sul: colonos alemães no Brasil. Vitória (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2009.
Gráfico 2
Imigrantes entrados no Brasil e no Estado de São Paulo 1872 – 1972
Fonte: BASSANEZI, Maria; SCOTT, Ana; BACELLAR, Carlos; TRUZZI, Oswaldo.
Atlas da Imigração Internacional em São Paulo 1850-1950. São Paulo: Editora UNESP, 2008. p. 19,
Apud.: ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Disponível em < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/imigracao/estatisticas.php> Acesso em 31 mai 2014
Podemos observar que o número de imigrantes de diversas nacionalidades para o Brasil, entre 1872 e 1900, foi muito alto, chegando a 600 mil pessoas. Em São Paulo, nessa mesma época, período auge da imigração, mais de 400 mil pessoas chegaram ao território. Kátia Petri afirma que,
São Paulo caracterizou-se por investir maciçamente em uma política imigratória. Não interessava a formação de núcleos coloniais, povoamento de áreas distantes, estratégicas para a manutenção das fronteiras ou a venda de terras para incentivar a imigração, o projeto
tinha um objetivo específico: „braços para a lavoura‟. 109
Segundo a autora, cerca de quatro milhões de imigrantes entraram em território nacional e, destes, dois milhões foram para São Paulo no período que
109
PETRI, Kátia Cristina. “Braços para a lavoura”: a subvenção paulista para imigração (1886-1896).
Revista Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade. Disponível em
corresponde ao final do século XIX e início do XX. Nem todos eram de origem italiana, mas a maioria vinha da Itália e chegou à província no final do século XIX110, como mostra o gráfico abaixo.
Gráfico 3
Imigrantes entrados no Estado de São Paulo, segundo a nacionalidade, 1872-1971
Fonte: BASSANEZI, Maria; SCOTT, Ana; BACELLAR, Carlos; TRUZZI, Oswaldo.
Atlas da Imigração Internacional em São Paulo 1850-1950. São Paulo: Editora UNESP, 2008. p. 19,
Apud.: ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Disponível em < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/imigracao/estatisticas.php> Acesso em 31 mai 2014.
Entre 1889 e 1899, o número de italianos atingiu aproximadamente 225 mil, valor muito superior ao das outras nacionalidades que chegaram ao Brasil nesse período.
Ao contrário da imigração sustentada pelo governo para ocupar áreas pouco habitadas do território brasileiro, a vinda dos italianos foi financiada, principalmente, pelos cafeicultores. O governo dava algum apoio à conduta dos
110
PETRI, Kátia Cristina Petri.”Terras e Imigração em São Paulo: Política Fundiária e Trabalho Rural.”
Histórica, Revista Eletrônica do Arquivo do Estado, nº 2, jun 2005. Disponível em <
http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao02/materia01/> Acesso em 20 mai 2013.
fazendeiros, tais como a construção de hospedarias e a propaganda no exterior para atrair as famílias.111 E os fazendeiros, com a peculiaridade de ser um negócio, pagavam as passagens de navio de todos os familiares, o período de permanência na hospedaria e o transporte da região portuária às colônias nas fazendas112, cobrando, mais tarde, dos italianos o retorno desse valor. O regime garantia aos colonos uma casa para moradia que, às vezes, era cobrada pelo patrão, uma área de plantação para subsistência e uma porção de cafezais para o cuidado: plantio, limpeza e colheita. Em algumas fazendas, eles podiam plantar milho ou feijão nos corredores de café, produzindo um excedente para a venda.113 Em outros casos, eles plantavam em meação com o proprietário da terra, o que criou oportunidades para reunir recursos financeiros e quitar a dívida com os patrões.114
A vinda de famílias italianas para o trabalho nas fazendas transformou a sociedade paulista, nos aspectos econômico, político e social. Na economia, isso se deu
111WITTER, José Sebastião. “Imigrante, um fator de transformação da sociedade brasileira – São Paulo
(1850-1914)”. In.: ODÁLIA, Nilo; CALDEIRA, João Ricardo de Castro. História do estado de São
Paulo / A formação da unidade paulista. São Paulo: UNESP; Imprensa Oficial; Arquivo Público do
Estado, 2010, p. 119-134.
112
GOMES, A. C. Imigrantes italianos: entre a italianità e a brasilidade. In: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em < http://brasil500anos.ibge.gov.br/en/territorio-brasileiro-e-povoamento/italianos > Acesso 10 jan 2013.
113
MONSMA, Karl Vantagens de Imigrantes e Desvantagens de Negros: Emprego, Propriedade, Estrutura Familiar e Alfabetização Depois da Abolição no Oeste Paulista. DADOS – Revista de
Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 53, no 3, 2010, pp. 509 a 543. 114
Sobre imigração italiana ver: DEL GUERRA, Rodolpho José. A São José, Nostra Nuova Storia. São Paulo: Grass, 1999; FRANÇA, Thiago de Novaes. A substituição da mão-de-obra escrava e a opção
pela Grande Imigração no estado de São Paulo. Dissertação apresentada à banca examinadora como
exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação do Prof Doutor Julio Manuel Pires. São Paulo, 2008; PETRI, Kátia Cristina.
“Mandem vir seus parentes”: a Sociedade Promotora de Imigração em São Paulo (1886-1896).
Dissertação apresentada à banca examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação do Profa. Doutora Olga Brites. São Paulo, 2010. Sobre economia cafeeira, ver: DELFIM NETTO, Antônio. O problema do café
no Brasil. São Paulo: IPE/USP, 1981; HOLLOWAY, Thomas. Vida e morte do Convênio de Taubaté: a primeira valorização do café. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978; NOZOE, Nelson Hideiki. São Paulo: economia cafeeira e urbanização. São Paulo: IPE/USP, 1984; PINTO, Liliane Faria Corrêa. As políticas públicas de incentivo ao cooperativismo em Minas Gerais, 1903-1922. 2006. Dissertação
(Mestrado em História Econômica) – Departamento de História da Universidade de São Paulo – USP,
São Paulo, 2006; PIRES, Anderson. “Minas Gerais e a cadeia global da “commodity” cafeeira – 1850/1930”. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional – RBGDR, vol. 03, n° 02,
pela presença da mão de obra para a cafeicultura; na política, pelas ideias anarquistas e socialistas trazidas pelos italianos; e na sociedade, pela convivência das diferentes culturas e costumes. A crise do trabalho escravo e a chegada de italianos mudaram a vida cotidiana das cidades do oeste paulista. Enquanto os antigos cativos conheciam as relações sociais a que estavam submetidos, os italianos conviviam com os ex-escravos e os ex-senhores em um novo universo social que se formava. Em São José do Rio Pardo, as estratégias dos negros e pardos era a constituição de redes de apadrinhamento fora do grupo para a proteção dos filhos. Para os italianos, as estratégias foram a união do grupo em apadrinhamentos internos e a criação de uma sociedade mutual com o intuito de se preservarem diante das dificuldades da vida na lavoura.