As professoras Alice e Luana tinham um conhecimento muito distinto sobre as formas de trabalhar a compreensão oral. Alice, além de conhecer algumas estratégias, conseguia diferenciar atividades do CD que envolviam apresentação de funções daquelas que envolviam realmente uma compreensão oral. Já a professora Luana desconhecia técnicas e procedimentos de como trabalhar com essa habilidade. Isso resultou no fato dos nossos encontros colaborativos, no tocante ao ensino dessa habilidade, parecerem mais aulas nas quais Alice e eu mostrávamos a Luana o que deveria ser feito.
Uma das formas de provocar maior colaboração dos professores, incentivando a sua reflexão, era pedir a eles que, primeiramente, descrevessem suas aulas. Em outros momentos, como o descrito no excerto 38, acreditei que o melhor caminho seria se a professora visse exatamente a forma como tinha agido em relação a uma atividade de compreensão oral.
Excerto 38
Anelise: Luana, eu queria que você visse esse vídeo. Está começando agora, tá? (O vídeo é passado). O que está acontecendo aqui agora? (enunciado gerador de tensão)
Luana: Nada.
Anelise: Nada. (O vídeo continua a ser passado) Alice: Nessa hora, já falava alguma coisa?
Anelise: Não, é isso que eu estou querendo mostrar. Nada. (O vídeo continua). Nesse primeiro dia... (entra o som do vídeo). Bom, o que aconteceu nesse momento?
Luana: Ah, eu entrei e simplesmente pus o som e não falei nada. Anelise: Nada! Não foi esquisito demais?
Luana: Foi. (reflexão) Anelise: Eu fiquei esperando.
Alice: Mas ela não tinha falado nada antes disso? Não falou que ia preparar o som? (Alice havia chegado atrasada nesse dia)
Anelise: Você viu o começo da aula. [...]
Anelise: Eu sei que tinha motivos, né, sua primeira aula sozinha, a Alice não estava, eu estava com a câmera. Tudo de uma vez, eu sei que você estava nervosa. Mas a gente não pode começar uma atividade assim, não. Você
Luana: Hã hã. (reflexão)
Anelise: Desse jeito que eu mostrei agora. A menina que estava sentada ali, eu estou imaginado o que tava passando na cabeça dela: “o que está acontecendo? O que houve?” Você não fez isso na aula passada.
Luana: Não. [...]
Alice: Primeiro eu acho que você deve contextualizar o seu aluno, mostrando pra ele o que você vai fazer. [...] (tensão colaborativa)
(SC8 – 10/11/07)
Luana, ao ver o vídeo, percebeu que sua postura não estava adequada. Ela reconheceu que não agira como deveria, nem como gostaria. Foram levantados vários motivos que a levaram a conduzir a atividade daquela forma. Evidenciou-se que era preciso evitar que os alunos fossem prejudicados com a inexperiência do professor. Talvez, por isso, esse encontro especificamente transformou-se mais em uma aula sobre o que fazer do que propriamente em uma troca de informações. Luana respondia com monossílabos ou com acenos de cabeça às sugestões que foram sendo dadas.
Uma estratégia que desenvolvi, então, com essa dupla foi não apenas comentar a aula que tinha passado, mas discutir também a aula que seria dada. O objetivo era certificar-me de que a aula e as professoras estavam bem preparadas, para evitar problemas como o apontado anteriormente.
Excerto 39
Anelise: Como vocês dariam a lição 4? Como vocês começariam isso? (enunciado gerador de tensão)
Luana: Eu acho que pelo áudio ia ser um bom começo. (reflexão + ação- transformadora)
Anelise: Como seria isso? Luana: Bom, primeiro o áudio.
Anelise: Imagine: eu sou a aluna. Você chegou na sala de sala de aula e:
“Boa tarde”.
Luana: Boa tarde. Vamos começar a lição 4. Primeiro vamos escutar um áudio, depois eu vou dar pra vocês alguns panfletos de hotéis pra você escolherem o melhor. (reflexão + ação-transformadora)
Anelise: Então tá. O que você acabou de fazer aqui agora que você não considera adequado?
Luana: Primeiro...
Alice: Bom, eu não sei falar o que eu não considero adequado. Eu só sei falar o que eu faria e eu não faria assim. (reflexão + tensão colaborativa) Anelise: Como você faria?
Alice: Se fosse pra começar com o áudio, primeiro talvez eu não deixasse elas verem. Não vão abrir o livro. [...] Mas antes disso, de começar o áudio, talvez eu levasse alguns panfletos. (reflexão)
Luana começa a explicar como seria determinada aula e eu insisto para que, antes qu e passe para outra atividade, explique exatamente como seria o trabalho com a compreensão oral. Nesse momento, ela é interrompida pela outra professora que passa a narrar formas diferentes de conduzir a atividade. Como aconteceu em outros momentos, Luana passou a escutar mais do que trocar informações.
Os professores que estavam conduzindo o curso de Conversação (Andréia e Tiago) praticamente não utilizaram atividades de compreensão oral, uma vez que o material não oferecia essa possibilidade. A exceção fica por conta de algumas músicas que tinham como objetivo testar conhecimentos linguísticos. No final do curso, decidiram trabalhar com vídeos de um seriado brasileiro, A diarista. Infelizmente, não há uma gravação sobre nossas conversas a respeito de formas diferenciadas de se trabalhar com esse material.36 As conversas, entretanto, apontaram para diversas formas de trabalhar e avaliar esse tipo de trabalho.
A posição inicial e ao final do semestre, apresentada no QUADRO 9, demonstra a mudança da postura dos professores em relação ao ensino da compreensão oral.
QUADRO 9
O ensino da habilidade de compreensão oral
Posição inicial Posição ao final do Módulo 1
Andréia e Tiago Música para testar conhecimento linguístico.
Uso de estratégias de compreensão oral em atividades com materiais autênticos diversificados. Alice Conhecimento das diferenças
entre atividades de apresentação de funções e de compreensão oral.
Conhecimento de algumas estratégias de compreensão oral.
Uso de estratégias
diferentes para cada tipo de atividade.
Luana Desconhecimento de estratégias de compreensão oral.
Uso de estratégias de compreensão oral.
36
Apenas as sessões colaborativas eram gravadas, mas nós nos encontramos várias outras vezes e discutimos aspectos das aulas e do curso.