ram inicialmente Morse para Columbia. Ainal, o jovem historiador izera uma breve pesquisa sobre o sistema de ensino nas escolas mexicanas pós-revolução e poderia ter vontade de se aprofundar no assunto. Tannenbaum, que se aproximara do México inicialmente como “ativista”, acompanhando a Revolução (da qual foi um simpatizante e, mais que isso, um divulgador), viajara pelo interior do país inicialmente a im de colher depoimentos e impressões que enviava na forma de reportagens e artigos para diversos jornais e revistas norte-americanos durante todo o ano de 192190. Ali o futuro
décadas, airma que Tannenbaum não foi nem um historiador nem um latino-americanista stricto sensu – dedicando-se a precisar melhor o lugar desse intelectual no mundo americano entre as décadas de 1920 e 1940. Sobre a atuação de Tannenbaum e o “latino-americanismo” em Columbia, cf. também M. Lucia Pallares-Burke, Gilberto Freyre, um vitoriano nos trópicos, São Paulo: Unesp, 2005, pp.299-300.
89 Morse – que se aproveitava da chance dada aos ex-combatentes de voltar a estudar – contaria que pediu a bolsa sem vontade de fazer um doutorado e a única condição “imposta” pelo Programa era de “just keep your mind open...”. Sendo assim, partia para Columbia para aprofundar os estudos mas sem a intenção de concluir uma tese. Cf. Goodwin, Hamill e Stave, op.cit, 1976, p. 331.
autor de Mexican Agrarian Revolution viu experiências comunitárias que o teriam impactado profun- damente, advindas da própria experiência revolucionária que forjava uma nova cultura e construía uma identidade popular91. Tannenbaum “viu nesta Revolução a promessa de uma nova estabilidade
social no México e o anúncio de inevitáveis e dramaticamente perturbadoras mudanças no tradi- cional cenário latino-americano”92. Para Maurício Tenório Trillo, Frank Tannenbaum foi um dos
primeiros intelectuais americanos a combinar na análise da Revolução uma série de inspirações e perspectivas distintas: a tradição radical europeia, o populismo norte-americano e uma forte inlu- ência de intelectuais mexicanos como Molina-Enríquez93, construindo uma interpretação que teria
desdobramentos importantes na forma como os norte-americanos se relacionaram com o México dali em diante94.
Se o México era um país de uma cultura ímpar e de difícil compreensão para um es- trangeiro (protestante e anglo-saxão), com seus padrões de comportamento mesclados a valores ibéricos e católicos e a culturas pré-colombianas, com seus caudilhos e militares a desestabilizarem a organização política da nação, a Revolução de 1910 foi vista por Tannenbaum como a possibili- dade de se conseguir uma almejada estabilidade política sem se descartar as especiicidades do lugar e da cultura. Isso porque a Revolução apoiava-se nos antigos valores indígenas, ou numa herança espiritual pré-colombiana (recuperados por um Diego Rivera (1886-1957) ou um José Vasconcelos (1882-1959), intelectuais que davam forma a mesma), para modernizar o país95. Ao visitar as peque-
deria importantes estudos: The Mexican Agrarian Revolution (1929); Peace by Revolution: An Interpretation of Mexico (1933) e Mexico: The Struggle for Peace and Bread (1950). O tema central desses estudos era a revolução, mas ele abordaria também a história e economia, bem como das condições socais, raciais e culturais do país. Cf. Joseph Maier e Richard W. We- atherhead, Frank Tannenbaum. A biographical essay. New York: University Seminars, Columbia University, 1974, pp.30-1. 91 Segundo Hale, a monograia de 1929 “foi o primeiro estudo sistemático e detalhado do sistema agrário mexicano e das políticas de reforma agrária” que eram implementadas naquele país. Os outros dois estudos, de 1933 e 1950, fariam de Tannenbaum “o maior interprete não mexicano da Revolução de 1910”. Hale, op. cit., 1995.
92 Id., p.24.
93 Andrés Molina Enríquez (1865-1940), sociólogo mexicano, autor de Los Grandes Problemas Nacionales (1909), crítico ao governo de Porfírio Diaz, defendia a reforma agrária no país como forma de superação dos problemas.
94 Maurício Tenório Trillo, “The Cosmopolitan Mexican Summer, 1920-1949”, Latin American Research Review, v. 32, N. 3, pp. 224-242 (http://lasa2.univ.pitt.edu/LARR/prot/search/retrieve/?Vol=32&Num=3&Start=224. Acesso 18/10/2011). Seus biógrafo compartilham da apreciação, airmando que os livros continuavam sendo importantes interpretações sobre a persistência de elementos na história mexicana e um comentário válido sobre as questões ali expostas, consultados até aquela data [1974] como interpretações básicas. Maier & Weatherhead, op. cit., 1974. 95 Vasconcelos, autor de La raza cósmica (1926), e Rivera, um dos criadores do movimento muralista no México, como se sabe foram intelectuais que tiveram um papel no desenvolvimento da revolução, ainda que para Tannenbaum, dife-
nas vilas e pueblos do interior, o antropólogo vislumbrava a possibilidade de um desenvolvimento local baseado no sistema agrário de pequenas propriedades em vias de implementação, forma par- ticular de desenvolvimento que não necessariamente seguia os países centrais. Tannenbaum enfa- tizaria o sentido moral e espiritual daquelas comunidades, não num sentido romântico, mas como a dar força aos mexicanos para conseguirem seguir em frente e levar o país a um desenvolvimento não balizado por parâmetros exteriores96.
O que o intelectual via no México parecia ter particular interesse por sugerir a possi- bilidade de um desenvolvimento combinado entre tradição e modernidade, o contrário da clássica noção de desagregação dos valores comunitários na passagem para a sociedade modernizada, que deixava para trás apenas comunidades desfeitas com a promessa nunca cumprida da integração no mundo moderno, e que se veriicou dali em diante na maioria das situações latino-americanas. Tannenbaum reconhecia num substrato cultural especíico do povo mexicano uma potência que lhes colocava numa situação distinta em relação às outras nações do continente, prontos para criarem novas e particulares formas de desenvolvimento. Não há dúvida que essa forma de com- preensão do tema – que escapava do esquema de “modelos” e “desvios” e se valia da ideia de “sistemas de pensamentos” para pensar o México – rebateu no jovem Morse pesquisador de São Paulo buscando compreender essa cidade também a partir de seu próprio desenvolvimento e de sua própria história97. Desse modo, creio que vale recuperar um pouco mais da trajetória de
Tannenbaum na universidade norte-americana para precisar os laços de ainidade intelectual que o uniria a Morse, bem como para compreender o ambiente que o acolhe em Columbia nas décadas de 1940 e 1950.
rentemente de outras revoluções, a Revolução mexicana prescindira de um líder ou de ideólogos, sendo um movimento totalmente orgânico e popular. Id., pp.30-1.
96 Como exemplo dessa preocupação em pensar a partir dos próprios termos, e não por parâmetros externos, em outra ocasião, ao resenhar um livro sobre a era Vargas (Brazil under Vargas. Nova York, 1942) lançado nos EUA e escrito por um norte-americano, Tannenbaum lamentava que o autor se valesse muito mais das comparações com a Europa e pouco se importasse com os países vizinhos: “É uma pena que [Karl Loewenstein] tenha negligenciado os certamente reveladores exemplos locais. O meio latino-americano é muito mais próximo do Brasil que o são Alemanha, Itália, França ou mesmo Portugal; e uma comparação com a política norte-americana teria roubado à ditadura Vargas muito de sua aparente originalidade.” Frank Tannenbaum, “A Note on Latin American Politics”, Political Science Quarterly, v. 58, n. 3, set., 1943, pp. 415-421. Sua resenha revela uma ampla compreensão do quadro político e econômico da América Latina – como se notará adiante nas atividades que ele desenvolve em Columbia.
97 Para uma crítica dessa apreensão “culturalista”, cf. Elias Palti, Acerca de los lenguajes políticos en el siglo XIX latinoameri- cano: sus nudos conceptuales. Buenos Aires: Siglo XXI, 2007, p. 19.
Nascido na Áustria, Frank Tannenbaum havia ido para os Estados Unidos com sua família em 1904 pelas mesmas razões que a maioria dos imigrantes naquele momento, deixar para trás a pobreza da vida na Europa em busca de um mundo melhor98. Vivendo em Nova York,
Tannenbaum frequentou incialmente a Ferrer School99, escola anarquista que o levaria ao movimento
sindical norte-americano, ao qual logo se iliou, participando ativamente da organização interna- cional de operários da indústria (Industrial Workers of the World). O engajamento na causa operária
leva Tannenbaum a liderar manifestações de desempregados durante a Primeira Guerra, resultan- do em sua prisão em 1915. A experiência renderia frutos, entretanto, transformando-se em uma pesquisa sobre a condição de vida nas penitenciárias americanas, seu primeiro trabalho de cunho “acadêmico”100. Isso porque ao sair da prisão já como um conhecido líder sindical101, Tannenbaum
foi convidado para ingressar na Universidade de Columbia, onde graduou-se entre 1916 e 1921. Em seguida, defenderia um doutorado na recém fundada Brookings Graduate School of Economics and Government em Washington, publicando a tese em 1927 e sendo incorporado como professor de
98 Sua família estabelece-se inicialmente numa fazenda em Massachusetts e Tannenbaum vai sozinho para Nova York, exercendo ali diversas pequenas ocupações, como garçom, ascensorista, etc., para sobreviver. As informações biográicas foram retiradas do ensaio de Maier e Weatherhead, op. cit., 1974, salvo quando indicado em contrário. 99 Chamada também de The Modern Scholl, eram escolas criadas no inicio do século 20 nos EUA a partir da proposta da Escuela Moderna de Francesc Ferrer i Guardia, educador anarquista catalão. Previa educação gratuita para as classes traba- lhadoras, proporcionando ensino secular e liberal e formação política. Durante o dia recebia os ilhos dos trabalhadores e à noite, oferecia cursos de formação contínua aos adultos por meio de palestras. É num desses cursos noturnos que Tannenbaum se engaja (Cf. “History of The Modern School of Stelton”, Modern School Collection, Rutgers University Libraries, http://www.libraries.rutgers.edu/rul/libs/scua/modern_school/modern.shtml. Acesso 15/08/2011). 100 Permanece um ano na penitenciária de Blakwell’s Island, tempo durante o qual publicou diversos artigos, primeiro em revistas operárias e depois em outros órgãos de imprensa, aprofundando-se no tema e se tornando a partir daí um nome respeitado inclusive pelas autoridades judiciárias. Tanto assim que após ser solto, Tannenbaum obteve autoriza- ção para visitar 70 prisões em todo o país, encarcerando-se voluntariamente em algumas delas para observar e melhor descrever a situação. Os artigos escritos foram reunidos em Wall Shadows: A Study in American Prisons (1922), quando além de denunciar as péssimas condições prisionais, elabora suas primeiras observações sobre as motivações dos crimi- nosos: a principal seria a possibilidade de fazer parte de um grupo. Para uma população marginalizada e desenraizada, o crime aparecia não apenas como uma solução de sobrevivência, mas como um lugar de pertencimento – e Tannen- baum passou a estudar esse grupo da perspectiva de formação de uma “comunidade”. Suas constatações sobre crime e comunidade (título do livro escrito em 1938, Crime and Community) seriam adotadas nas faculdades de Direito por todo o país, e utilizadas pela polícia de Chicago. O episódio é descrito detalhadamente em Hale, op. cit., 1995. Cito-o aqui porque de certa forma a mesma perspectiva de “busca da comunidade” se evidencia no trabalho de Morse sobre São Paulo, como se verá no capítulo 3.
101 Id., Ibid. O escritor Upton Sinclair (1878-1968), que havia escrito um romance sobre as condições de vida dos tra- balhadores da indústria da carne em Chicago, A selva (1906), dedicara-lhe o poema “To Frank Tannenbaum in Prison”.
História da América Latina em Columbia em 1935. Segundo Charles Hale, foi na passagem do ativismo sindical para a academia que ele se “desenvolveu intelectualmente, canalizando seu radical ativismo para o mainstream do pensamento progressista nas ciências sociais”, já que ambas as expe- riências acadêmicas, Columbia e Brookings, teriam sido responsáveis por introduzi-lo, não apenas for- malmente, no meio universitário, dando-lhe a oportunidade de inserir-se num círculo de iminentes intelectuais que rapidamente se tornaram seus interlocutores. Adaptando-se ao novo ambiente so- cial com desenvoltura, Tannenbaum manteria da experiência pregressa, entretanto, cautela contra qualquer academicismo ou autonomização do objeto de estudo, fosse ele qual fosse102.
O que é importante notar nessa passagem biográica é o que ela nos revela sobre a construção de um “método de pesquisa”, ou melhor, de um modo de encarar o trabalho intelectual formulado por Tannenbaum justamente na fronteira entre o trabalho acadêmico e a experiência social – atitude bastante comum àquela geração de pesquisadores –, e que de certa forma se reconhece na prática acadêmica de Morse em São Paulo. Atuando no momento em que a especialização começava a ser cada vez mais valorizada e de fato seguida nas universidades americanas, ao mesmo tempo em que as grandes explicações, vistas como impressionistas e pouco adequadas, iam sendo deixadas de lado em nome de uma pretensa cientiicidade do conhecimento (o que implicou na segmentação dos temas e no abandono das perspectivas totalizantes), Richard Morse pôde conviver em Columbia com um intelectual que lançava mão de intuições e hipóteses formuladas a partir da sua própria experi- ência para compreender o mundo que o cercava, as sociedades e suas culturas. Como reforçam seus biógrafos, não se satisfazendo nunca com uma aproximação simplesmente teórica dos problemas, para Tannenbaum eram “a experiência direta e a amizade os meios pelos quais se podia obter a com- preensão de um problema ou de uma situação”. Ao mesmo tempo, suas observações caminhavam no sentido de buscar compreender cada situação a partir dos elementos contidos nela mesma, descartan- do esquemas e julgamentos estabelecidos a priori que eventualmente impediriam novas elaborações, viciando as respostas por avaliações previamente elaboradas103. Ora, Morse pareceu aprender a lição
e levá-la adiante. Em seu trabalho sobre a história da evolução urbana de São Paulo, no qual sempre
102 Id., p. 220.
103 Numa apreciação sobre os sistemas de governo dos países, por exemplo, a despeito de achar que os sistemas britânico e norte-americano fossem os melhores exemplos de uma efetiva e continua estabilidade política, ele se perguntava se eles poderiam mesmo ser “aplicados” em qualquer contexto – o que o levou a estudar o “personalismo” na América Latina para entender as barreiras para o estabelecimento da “democracia moderna”, leia-se liberal, ali. Cf. Maier e We- atherhead, op. cit., 1974, p. 27-8.
ressaltou a importância das amizades feitas no Brasil para o estabelecimento de um ponto de vista sobre a história da cidade, airmando literalmente o seu “amor pela cidade”, o historiador não se dei- xaria convencer por teorias já formuladas sobre a urbanização latino-americana – que nos anos 1950 pipocavam sobretudo nos Estados Unidos mas também por aqui –, buscando antes compreender a especiicidade do caso estudado para posteriormente tirar conclusões e eventualmente formular ge- neralizações ou conceitualizações, como ele parece fazer em 1970.
A hipótese que aqui se coloca é a de que a “forma de compreender o mundo” apren- dida com Tannenbaum – de certo modo já semeada anteriormente por aqueles professores em Princeton – encontrou solo fértil num ambiente paulista que parecia viver um momento de formu- lação de visões particulares sobre o desenvolvimento de São Paulo (e do Brasil) em seus diversos aspectos, e no qual a institucionalização tardia das ciências sociais eram compensada pelas obser- vações das peculiaridades nacionais ixadas na literatura, como certa vez sugeriu Antonio Candido. Como se sabe, se um pensamento social brasileiro se airma no decênio de 1930, nas décadas de 1940 e 1950 os intelectuais paulistas buscaram, na esteira desta tradição, organizar um pensamento cientíico sobre o país dentro da universidade, nos moldes universitários, sem descartar entretanto uma perspectiva mais totalizante presente no trabalho intelectual da geração anterior e que a ideia de cientiicidade pudesse fazer esquecer104. Se essa formulação se dava justamente no ambiente uni-
versitário que começava a se consolidar naquelas décadas, notadamente na Faculdade de Filosoia da recém criada Universidade de São Paulo, era também devido ao círculo restrito ali formado e que possibilitava a convivência e a troca entre todos que nela conviveram que um pensamento mais ou menos comum pôde se estabelecer. O próprio historiador norte-americano relembra como fez sua pesquisa, aproveitando-se do contato com aquele círculo modernista-uspiano:
Então eu ia para os jornais, mas não é possível ler 130 anos de jornal e pegar tudo em todos os campos. Pouco a pouco fui testando minhas ideias com outros amigos que iz ali, como por exem- plo João Cruz Costa – que tinha uma visão da história do desenvolvimento intelectual das cidades e naturalmente falava muito sobre o positivismo – e Luiz Saia – que era diretor do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em São Paulo, conhecia toda a arquitetura a partir da época colonial até nossos dias e também tinha essa visão de uma cidade moderna que podia ser uma cidade funcional, um pouco a visão de Mumford. Luiz Saia foi uma inluên- cia importante. Outra pessoa foi Décio de Almeida Prado, que conhecia toda a história do teatro. Muito importante também foi Oswald de Andrade Filho, Nonê, que era artista e me apresentou a artistas modernistas, como Anita Malfatti, Lasar Segall, Di Cavalcanti e outros. Havia ainda Alice Cannabrava, que estava fazendo uma história econômica que foi muito útil
em termos de fontes documentais. Ela sim, tinha essa visão do desenvolvimento econômico. Não cheguei a conhecer pessoalmente Caio Prado, mas li seus livros publicados na época.105
Não há dúvida que a convivência com esse grupo intelectual foi fundamental para o desenvolvimento do trabalho de Richard Morse sobre a capital paulista. Para além da literatura, a história das ideias e da arquitetura são matéria de peso na sua história da cidade, e o contato com João Cruz Costa (1908-1974)106 e Luiz Saia não teria menor importância aí, como adiantamos. Vale
à pena, entretanto, antes de desenvolver o ponto, mencionar outra aproximação possível entre orientador e orientando – que parecia vir de encontro às ainidades eletivas do jovem Morse na graduação e sintonizava com o que o historiador buscou em São Paulo posteriormente. Sendo um intelectual daquela geração pré-latino-americanista, também Tannenbaum, segundo seus bi- ógrafos, ampliava a ideia da experiência direta tomando a literatura como chave do conhecimen- to. Entendida por ele como fonte privilegiada em relação às pesquisas estritamente cientíicas e acadêmicas, sobretudo as desenvolvidas pelos scholars norte-americanos, a literatura tinha status de matéria de pesquisa. Sendo “um tipo de pessoa aberta [...] apaixonado pela América Latina”, gostava de dizer que para entender a Revolução Mexicana era necessário ler os romancistas, muito mais que os pesquisadores ou estudiosos107. Tannenbaum leu Don Quijote para entender a Espanha,
e Romulo Gallegos e Jorge Amado para entender a América Latina, preferindo, como ressaltou Morse, aproximar-se da cultura ibero-americana sem as mediações acadêmicas108. Essa abordagem
pelo viés da literatura, ou se poderia dizer pela cultura, ao lado da experiência direta, o livrava das
105 Bomeny, op. cit., 1989, pp. 79-80.
106 Quem, segundo Antonio Candido, a partir de sua obra Contribuição à história das ideias no Brasil, “se inscreveu numa constelação fraterna de pensadores latino-americanos dedicados à mesma disciplina em relação aos seus respectivos países, como, entre outros, Leopoldo Zea no México, Francisco Miró Quesada no Peru, Arturo Ardao no Uruguai, Arturo Roig na Argentina”. Cf. Antonio Candido, “Lucidez de Cruz Costa”. In: Recortes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp.165-70, p. 168. A breve descrição também ajuda a entender a “ainidade” que rapidamente se estabe- lece entre Morse e o ilósofo paulista.
107 “Tannenbaum com frequência relativizava a [necessidade de] leitura da produção dos norte-americanos sobre a América Latina, recomendava que bebêssemos na fonte, diretamente... Para ele, era de certa forma dispensável ler as monograias de estrangeiros sobre qualquer país latino-americano, e isso logicamente aliviava muito nossa tarefa e nos livrava do esquematismo natural das teses ‘gringas’.”, Mehy, op. cit., 1990, p.149.
108 Os exemplos não são apenas os literários, também o ensaísmo de interpretação nacional latino-americano era mobilizado como portador do ethos local, do Facundo de Sarmiento, passando por O labirinto da solidão de Octavio Paz até Casa grande & Senzala de Gilberto Freyre, que ele aliás traduziria para o inglês. Gilberto Freyre foi seu contemporâneo em Columbia, cf. Pallares-Burke, op. cit., 2005.
imagens e interpretações pré-concebidas, incentivando o mergulho nas fontes e na perspectiva do próprio tema estudado, numa espécie de visão de dentro que talvez apenas a literatura e a própria experiência pudessem de fato fornecer. Mas isso, no entanto, não implicou em reproduzir a autoi- magem do grupo estudado, dando-lhe as bases, ao contrário, para que Tannenbaum pudesse, como