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A difusão das balanças antropométricas, particularmente nas farmácias, pode ter trazido novas perspectivas de interpretar o corpo e o seu peso. As famosas ‘balanças de banheiro’ também se difundiram posteriormente em consonância com o aumento da preocupação com o peso.

Nas últimas décadas, vários estudos e desenvolvimento de técnicas para a avaliação antropométrica tiveram espaços no cenário científico como o Índice de Massa Corporal, e a circunferência cintura e quadril, que já foram referidos. Somam-se a estas, outras

circunferências e as dobras cutâneas além de métodos mais sofisticados como a bio- impedância. Estes instrumentos e técnicas têm sido difundidos tanto nos atendimentos clínicos, como também nas próprias academias de ginástica. Os entrevistados da academia de classe média utilizaram com freqüência expressões como ‘o meu percentual de gordura’ ou ‘a minha massa magra’, como também as circunferências como a do braço para o público masculino especificamente. Não só as modificações do peso corporal estão em jogo, mas as ‘medidas corporais’ também.

No entanto, estas práticas de controle do peso e das formas corporais, mais científicas, não excluem outras formas mais subjetivas tais como ‘perceber a barriga crescendo’ ou sentir a ‘mudança do metabolismo’. O que mais chamou a atenção foi à vestimenta. Foram intensas as referências sobre as sensações da roupa no corpo no cotidiano como um sensor importante e por vezes decisivo para provocar mudanças. A sensação das vestimentas foi em alguns momentos preferido em relação à própria balança como observa Carla:

Eu estou com trauma de balança. Quando você tenta fazer uma dieta, você está achando que você está perdendo peso, aí você se pesa essa semana, então chega na outra semana, você já engordou 1 quilo ou 2 quilos. Eu acho que você fica muito ansiosa. Aí eu estou procurando muito evitar de me pesar. Eu estou me baseando mais pelas roupas que eu tenho. Se tiver, se eu vê que está folgando, está tendo diferença na roupa. Então eu não estou muito me ligando na balança não (Carla).

Dalva, embora ela acompanhe seu peso e faz os cálculos de quantos quilos precisa perder com base das fórmulas divulgadas pela mídia ou na própria academia, ela mescla com outras formas de controle utilizadas no seu cotidiano:

Quando eu vejo mesmo que as gordurinhas estão extrapolando, que as roupas não estão dando mais, eu já fico ‘Pôxa, têm tantas roupas que eu poderia estar usando’, às vezes eu fico até envergonhada mesmo de me despir de botar uma roupinha assim e ficar, passar do limite, as pessoas ficarem criticando. Aí eu começo (a dieta), vou diminuindo... (Dalva).

Já Álvaro, por exemplo, remonta como ele decidiu a ‘tomar providências’ foi quando ele subiu na balança, como já demonstrado no capítulo II. O poder dos números foi crucial para a decisão de Álvaro em relação ao seu corpo e, mais adiante, ele utiliza a

compra de roupas como uma forma de estímulo para a manutenção do seu trabalho corporal:

Ontem, até eu comprei duas calças número 44, normal que eu uso. Aí eu senti um pouco apertada, eu disse: ‘não, não vou pegar número maior não, porque senão vai ficar muito folgada, aí depois vou ter que apertar, eu vou deixar esse número e vou apertar mais na corrida, malhação pra poder diminuir...’, por que isso aqui não era a calça, era eu (Álvaro).

O número do manequim é uma referência importante e conflituosa. No caso de Álvaro, o problema da calça estar justa residia nele e não na roupa. O emagrecimento pode ser mensurado pelo número do manequim, como Carla declara que o seu manequim era 40 e ela gostaria de voltar a vestir este número66. A roupa também será simbólica nas

sensações de prazer que aporta, seja por proporcionar um melhor ‘caimento da roupa’, ou ainda ‘caber em todas as suas roupas, vê as roupas um pouquinho folgada’. Vejamos como descreve João:

É a pior coisa que existe, é bom você se sentir bem, botar uma bermuda, botar um tênis, botar uma camisinha, ela ficar solta o vento batendo na frente da sua camisa. Pior é aquela camisa estufada com a barrigona, pelo amor de Deus! (...) É muito bom você chegar numa loja, tudo bem que eu sou largão aqui que tenho massa, muita massa, mas de eu chegar, pegar uma camisa, jogar no peito, você não ter aquela coisa para tirar a camisa (João).

Virgínia também menciona o prazer hoje em comprar roupas sem constrangimentos:

As lojas quando eu ia com minhas colegas, minhas colegas tudo magrinhas, tudo bonitinha com as roupas ia a um show (...) estou feliz com meu corpo, vou às lojas e procuro uma roupa e visto, fico muito satisfeita (Virgínia).

A onipresença do corpo desde o primeiro choro até o último suspiro faz com que estas pequenas e aparentemente banais experiências de sensações corporais no cotidiano

66 Uma gerente de loja de confecções em Salvador afirmou que isso é uma prática comum, comprar um número

menor, ou por não aceitar uma numeração mais elevada, ou para estimular a emagrecer e caber naquela vestimenta adquirida. Para os trabalhadores deste ramo, às vezes se torna uma situação um pouco constrangedora a pergunta “qual é o seu número?”. Uma matéria em um jornal local sobre uma loja especializada em roupas para obesos, uma atendente deu uma entrevista sobre a abordagem dos clientes que deve ser cuidadosa com questões indiretas sobre a numeração para não constranger o cliente.

possam se constituir em grandes aspectos para a existência humana de muitos sujeitos interferindo na construção de si.

Em suma, frente às estas imagens que vem sendo construídas em torno do corpo contemporâneo, aqui dissecadas em relação à sua aparência, ao seu interior, na engenharia das partes, nas suas geografias e relevos, nas suas relações generificadas, enfim, o corpo se mostrou como um texto vivo que representa as imagens do mundo contemporâneo. Seguiremos refletindo sobre este corpo em movimento, em particular a atividade física, proposta como um dos pilares para a construção de um corpo moderno, magro, leve, ágil e flexível, e, ao mesmo tempo, belo e saudável.