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8.3 Virtual datasets

Em relação à política de Ações Afirmativas, Eduardo não tem uma visão tão otimista, para ele um recorte racial e étnico (negros e indígenas) pode aumentar o preconceito.. Apesar de sua narrativa também aponta sua consciência da exclusão existente, ao declarar que é a favor do sistema do Prouni com ênfase no social, sendo um bolsista cotista, assim como os opositores das cotas tende a compreender que reforçar o imaginário social de que, a desigualdade é sócio- econômica e não leva em conta que ela é também parte das consequências advindas de relações raciais desiguais. Para Pinto (2006), é preciso estar atento ao processo empírico da adoção da política de cotas, visto que podem existir mecanismos estruturais institucionais que manipulam as identidades raciais e profissionais dos estudantes cotistas e, desse modo, é necessário estar atento tanto às perfomance individual quanto às coletivas desses jovens na avaliação da política de cotas. Sendo assim, este tipo de manipulação pode levar os próprios agentes da política de cotas a não apresentarem nenhuma reflexão em relação a ela, o que pode ser problemático do ponto de vista político, dificultando à re- significação identitária desses estudantes. Para o autor, o próprio curso onde o cotista está inserido pode levá-lo a manipular, desvencilhar ou legitimar sua identidade negra.

O meu sentimento... Olha só, eu acho... eu sou totalmente a favor, por exemplo, do sistema do Prouni. Eu acho que é um sistema integrador sim, mesmo sabe. Eu acho que vai ter de parar um dia. Espero que um dia assim dê conta. Espero, porque eu confesso que não vislumbro assim que um dia ... ah! Vamos conseguir, incluir todo mundo. Acho difícil para caramba. Não sou tão otimista assim. Mas ia ser interessante se pudesse parar o sistema do Prouni para que todo mundo conseguisse. Mas são essas ações, por exemplo, não sei como está na Federal agora. Mas essas propostas de 50% (cinquenta por cento) de aluno de escola pública, essas vagas limitadas assim, eu acho que são interessantes. São pertinentes mesmo. Tem que ter isso porque o... a questão da exclusão é fato, não tem muito o que discutir isso aí. A vaga para negro, para indígena separada assim, elas soam

um pouco estranhas porque ela acaba por criar um pouco de preconceito. (Eduardo, grifo nosso).

Novamente há uma ambiguidade na sua narrativa em relação às Ações Afirmativas ao declarar que a proposta do Prouni é inclusiva e para todos e que não foi uma proposta voltada apenas para os negros e indígenas, como é a proposta de cotas raciais, e que neste sentido atingirá a todos, mas por outro lado, ele chega a mencionar a dívida histórica que se tem em relação à população indígena e negra. Tal relato indica que há um desconhecimento do estudante acerca da realidade racial existente. Eduardo cai no discurso universalista da ineficiência do ensino.

Porque assim, o ensino básico não dá conta. Para...para.... eu acho assim não consegue preparar o estudante pobre... não consegue nos preparar. Porque eu acho que assim, esse..o sistema Prouni além do negro, do indígena que se for pensar assim é uma classe que é... que tem uma dívida histórica, que é um papo que sempre tem. É ele, ele é mais ... ele é muito mais é como é que fala? inclusivo porque ele é um

sistema voltado pro pobre.Não é assim, um sistema que foi criado para negro ... e para indígena e para amarelo. Até... porque eu até hoje eu

não sei quem que é amarelo também.. Então é para pobre chega a abranger assim muita gente. (Eduardo, grifo nosso).

A falta de discussão nas universidades a respeito do racismo e de suas consequências, não só inviabiliza e despontecializa o debate das Ações Afirmativas, como pode não contribuir nos conflitos experimentados nas interações sociais pelos estudantes cotistas nas instituições.

Eu acho muito estranho essa expressão assim. Afrodescendente. Acho ... não me soa bem, não entendi... Sabe porque tem um papo hoje ... eu acho que é um papo de recuperação da cultura africana, que tem

um discurso assim que eu acho muito furado sabe. Porque eu acho muito furado que hoje recuperem ... tem essa visão assim que é recuperar o congado e tal; que é uma coisa daqui. Vamos supor assim... então, mas me parece que o negócio não é uma coisa que é assim... vamos dizer assim, eu posso estar enganado, mas não é uma coisa que é natural. Que é assim espontânea. Parece que virou uma modinha hoje. Ah! se vê um negócio... tambor sabe. Isso virou uma modinha. Parece que virou “cult”. Virou “pop”, esse tipo de coisa. E assim hoje falando num resgate. Mas não um resgate que é igual ao que eu to te falando, que é espontâneo, que é natural. Porque o preconceito continua. Continua com essa coisa toda. Então esse termo afrodescendente para mim parece que está nessa onda ainda sabe. Que não ... que não sabe... igual eu to te falando não conheço a história de como que foi essa discussão nesse sentido ai. Mas para mim soa dessa forma que é uma coisa assim mais ondinha mesmo sabe, porque o preconceito contra o negro continua da mesma forma. (Eduardo).

Ao narrar sua impressão da recuperação e manifestação da cultura africana, que para ele virou “Cult” “pop”, deixa claro o seu desconhecimento em relação à história e a cultura africana. Para analisar o processo de identidade é preciso compreender como elas são produzidas historicamente. Conforme Hall (2000) é necessário invocar recursos da história, da linguagem e da cultura em que uma identidade foi produzida, para sabemos “quem somos” “de onde nós viemos” e para sabermos “quem nós podemos nos tornar”.

Trazemos essa reflexão para pensarmos se uma política inclusiva com uma proposta social e que não inclui ações e mudanças institucionais pode não favorecer o reconhecimento identitário do estudante cotista e ações coletivas na universidade.

A dificuldade de inserção no trabalho, eu imagino que continua do mesmo jeito. Eu me lembro de uma colega minha contando uma vez que tinha um namorado esperando uma promoção ... assim, ...ele era negro e para um cargo alto pra gerente e na época...Hoje ele é até gerente. Mas na época não conseguiu. Tem até um perigo. Alguém pode falar assim: ah! ele não conseguiu porque ele é negro. O outro falar, mas às vezes não. Às vezes ele não conseguiu, porque sei lá, um outro foi melhor no dia, na dinâmica. Não sei o que ... Porque a gente acaba que corre um risco de também começar a generalizar essa história ai. De ficar passando tudo por esse crivo do preconceito. (Eduardo).

Embora não tenhamos o propósito de fazer generalizações entre o relato de Eduardo em relação a outros estudantes, é preciso ressaltar que ele, como futuro profissional da área de Psicologia, parece não levar em conta que as relações raciais podem também influenciar e fazer parte da realidade social e

empresarial, sobretudo, em um processo de seleção e de mobilização no mercado de trabalho de população negra. Trazemos esse fato para mostrar que talvez tal posicionamento seja devido ao fator de o tema das relações raciais não fazer parte das disciplinas que são oferecidas, em alguns cursos acadêmicos, não favorecendo para que os estudantes tenham conhecimento do funcionamento da realidade racial na sociedade. Parece que foi adotado, nas instituições de ensino superior, uma espécie de linha correta por não se falar da existência do racismo, que fica escondido por atrás de um discurso universalista de igualdade em nossa sociedade.

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