apenas para pessoas livres de influências alheias e estrangeiras, e aí está porque Derjávin tem sentimento de povo. E assim, nosso sentimento de povo consiste na
fidelidade da representação dos quadros da vida russa.”
A imitação do estrangeiro e a influência dele na sociedade russa imatura justificam a falta de um amálgama que dê continuidade às apreensões manifestas do sentimento de povo na literatura russa, e isso repercute na posição final de Belínski:
De fato Derjávin, Púchkin, Krylóv e Griboiédov são seus representantes solitários: por enquanto não há outros e não adianta procurá-los. Mas quatro pessoas que não surgiram ao mesmo tempo poderiam compor uma literatura inteira?E, ademais, será que eles não foram fenômenos casuais? Se retomarmos o que antes foi
destacado ao tratar sobre a representação literária da plebe como manifestação de sentimento de povo, teremos a ressalva de Belínski ...mas a vida elevada de um
povo se expressa, de preferência, em suas camadas elevadas ou, mais precisamente, na ideia integral de um povo, o que nos dá a compreensão de que a ideia integral de
19 São todas obras de Púchkin, sendo que as três primeiras exibem inspiração romântica enquanto as duas
um povo depende do reconhecimento por parte de sua sociedade em relação à plebe, pois, aquela, munida pela instrução de forma esclarecida, será capaz de expressar literariamente pela língua a realidade comum que compartilham. O reconhecimento deve implicar, portanto, em reconhecimento humano, e a comunhão da língua viabiliza a expressão de outras semelhanças e de diferenças que a cultura e a história comuns apresentam entre seus integrantes. As inferências feitas aqui a partir do que está e do que não está declarado pelo crítico demonstram o malabarismo de Belínski para expor a ideia central que não pode ser enunciada: a incongruência entre a situação literária almejada e a realidade russa da servidão.
A histórica fratura social russa que Belínski constatava com a inexistência de uma história literária em seu país remetia às duas realidades que se encontravam na Rússia: de um lado, uma aristocracia local que falava francês, desprezando o idioma nativo, por vezes mesmo o desconhecendo, e vivia como que num universo à parte, numa realidade europeia emprestada, em especial, da admirada monarquia francesa; e, de outro lado, uma multidão de servos iletrados e subjugados pela autocracia. As duas realidades estavam atadas por um tzar terreno de legitimidade divina e pela igreja ortodoxa, que assegurava a predestinação celestial do povo russo, unido por vontade divina. O jovem crítico de formação intelectual moderna, imbuído de valores iluministas e animado com a força do ideário romântico, enxergava a fratura da realidade de seu país e se empenhava para colocá-lo em sintonia com a história ocidental. Dessa perspectiva, apostará no esclarecimento da sociedade russa pela instrução e, subentende-se, no consequente afloramento de sua consciência humana de oposição à servidão e de reconhecimento dos integrantes da plebe como seres iguais, já que humanos. Sendo condizente com a visão de Arte que o crítico havia exposto na parte III de sua resenha, o clamor pelo surgimento de artistas verdadeiros, isto é, de artistas por vocação e independentes surge ao final do texto como alternativa para a produção de uma literatura autêntica, que não se manifeste pelo influxo passageiro da imitação e que reflita o espírito do povo russo: Nós temos
muitos talentos e talentos pequenos, mas poucos, muito poucos artistas por vocação, isto é, pessoas para as quais escrever e viver, viver e escrever são uma única e mesma coisa, pessoas que se destroem fora da arte, que não necessitam de protetores, não precisam de mecenas, ou, dizendo melhor, que perecem por causa dos mecenas, que nem o dinheiro, nem a distinção, nem a injustiça matam, que permanecem fiéis a sua vocação sagrada até o último suspiro. A aposta nos
integrantes da camada social elevada do povo russo expressa a confiança do jovem crítico no legado intelectual disponível, jovem que vislumbra uma alternativa no fututro, com a instrução da sociedade russa: Olhem direitinho para a marcha de
nossa sociedade e concordarão que estou certo. Vejam como a nova geração, que se desencantava com a genialidade e imortalidade de nossas obras literárias, ao invés de dar obras imaturas ao mundo, com sede entrega-se ao estudo das ciências e toma da água vital da instrução na própria fonte. E algumas linhas adiante: O tempo chegará, a instrução se difundirá na Rússia como uma torrente ampla, a fisionomia intelectual do povo virá à luz, e, então, nossos artistas e escritores colocarão o selo do espírito russo em todas as suas obras. Mas agora nós precisamos de estudo! Estudo! Estudo!
O hibridismo intelectual do jovem Belínski irá conferir-lhe a credulidade de que o esclarecimento, pelo conhecimento, daqueles que compunham as camadas elevadas pavimentaria o chão necessário para que o ideário libertário e progressista, infundido pelo pensamento romântico, se assentasse na mentalidade da sociedade russa imatura e habilitasse-a a promover as transformações sociais adequadas à progressiva marcha humana, vale dizer, abolindo a servidão e derrubando o regime autocrático com a modernização pelo pensamento liberal. Por esse ângulo, era possível visualizar a inflexâo consciente da sociedade russa esclarecida em direção à massa. Em alguns pontos, ela comungaria com a plebe: com a exclusão da condição servil, comungaria uma identidade nivelada; com uma comunidade linguística, partilharia o reconhecimento mútuo de pertencimento a uma cultura comum, de mesmo credo e de mesma história, além de outros consensos possíveis que um novo arranjo social propiciasse. A consumação de uma integração orgânica entre os participantes desse povo desintegrado teria no sentimento de povo da sociedade pela plebe a motivação maior e gratuita que promoveria o crescimento da pátria russa nos diversos planos de sua existência, ensejando uma literatura de fato.
O sentimento de povo se sintonizava com o momento histórico de virada que a Europa vivenciava com a ascensão do nacionalismo e, por sua vez, expressava uma realidade russa em atraso ante as realidades europeias. O sentido que Belínski dá à expressão sentimento de povo tem diferenças inconciliáveis com aquele que figurava na súmula da doutrina oficial do reinado de Nicolai I. A doutrina oficial pusera a ideia no leito de Procusto, na medida em que conferia legitimidade divina à condição servil e à regência autocrática do povo russo – sentido incongruente com a
horizontalidade entre semelhantes, requerida pelo nacionalismo que o Romantismo introduzia.
A contraface da realidade discutida em Devaneios aparecia em outros canais do meio literário, que vivia uma fase de incremento econômico e o estabelecimento de funções específicas, decorrente da maior profissionalização do meio. A adesão de alguns veículos e pessoas do meio à doutrina oficial do reinado de Nicolai I gerou um braço no meio publicista que mediava o apoio ao tzar e a divulgação dos pensamentos e ideias da doutrina concebida por S. S. Uvárov. Tendo um alcance intenso e extenso, esses meios desfrutaram de um crescente número de assinantes, por meio do que se construiu uma espécie de redoma ideológica na Rússia imperial que, de um lado, pretendia tornar o país inatingível pelas transformações europeias e infenso às ideias e aos pensamentos advindos do Ocidente decadente; e, de outro lado, devido à base religiosa fortíssima da doutrina, operava na construção de uma autoimagem da Rússia como país cristão imaculado e eleito a ser protegido do racionalismo científico, de que a Europa padecia em meio as convulsões políticas experimentadas. Duas dessas revistas terão destaque no cumprimento desse papel, a
Siévernaia ptchelá [Abelha do Norte] e a Bibliotiéka dlia tchtiénia [Biblioteca para Leitura], na década de 30, além dos diários oficiais, naturalmente. Na década de 40,
outras duas ganharam proeminência Moskvitiánin [O Moscovita] e Maiák [O Farol]. Paralelamente às revistas, tinham-se os nomes, aqueles que serão identificados com a mentalidade do governo e lutarão com suas canetas e com seu poder no mercado editorial pela defesa do reinado de Nicolai I.
Exemplo da força editorial dessa ideologização política do sentido de sentimento de povo pode ser encontrado no conteúdo da própria resenha de Belínski, como esse trecho destacado de Devaneios:
E assim, nós precisamos não de literatura, que aparecerá em seu tempo sem quaisquer esforços de nossa parte, mas de instrução! E essa instrução não tardará, graças aos cuidados infatigáveis do governo sábio. O povo russo é inteligente e compreensivo, aplicado e intenso em tudo que é bom e belo, quando a mão do tzar- pai aponta-lhe para o objetivo, quando sua voz suprema chama-o para si! E não poderíamos alcançar esse objetivo quando o governo mostra por si uma forma única e sem precedentes de solicitude para a disseminação da instrução; quando ele despende somas enormes na manutenção de estabelecimento escolares,
incentiva com prêmios magníficos os trabalhos dos professores e dos estudantes, abrindo caminho para a inteligência educada e para o talento para todas as distinções e vantagens! Existe um ano, ao menos, sem haver, de fato, por parte do governo infatigável, novos feitos pelo bem da instrução ou novos benefícios, novas generosidades a favor da classe científica? Uma instituição de classe para preceptores domésticos e professores deve acarretar bens incontáveis para a Rússia, pois irá livrá-la das consequências nocivas da educação estrangeira. Sim! Logo nós teremos o nosso próprio ensino russo e nacional; nós logo provaremos que não temos a necessidade da tutela intelectual alheia. É fácil para nós fazermos isso, quando os famosos dignatários, os correligionários do tzar na difícil atividade da gestão nacional, surgem em meio à juventude ávida de conhecimento no templo central do ensino russo para anunciar para ele a sagrada vontade do monarca, apontar o caminho para o ensino no espírito da Ortodoxia, da Autocracia e do Sentimento de povo...
Nas duas edições usadas neste trabalho, explica-se que o parágrafo acima teria sido introduzido no texto de Belínski por Nadiéjdin, editor e redator de Molvá, o encarte literário em que Devaneios vinha sendo publicado. Na edição das obras selecionadas, é informado que S. S. Uvárov, ministro da Educação de Nicolai I, era um dos correligionários do tzar, que passou a frequentar o templo central do ensino
russo, isto é, a Universidade de Moscou após chegar em Moscou em 1834. S. S.
Uvárov seguia as publicações da revista Tielescóp e do Molvá com cuidado e com
desconfiança, e, mais de uma vez, mencionou a Nadiéjdin seu descontentamento,
reclamando-lhe deferência...
As menções que Belínski fez àquelas publicações alinhadas com o tzar na época de Devaneios, como já comentado, foram breves e cáusticas, sem propor diálogo com elas, apontava direta ou indiretamente o sentido de suas atuações estar limitado pela visão doutrinária. No decorrer do tempo, com o crescente debate que se instala entre os ocidentalistas e eslavófilos, essas atuações ganharam um tingimento até evangelizador com seus veículos, o que não soa exagero considerando-se o fundamento religioso da doutrina oficial. O aspecto que Belínski mais atacará na realidade de 1834 será o viés comercial, chegando a denominar de
Smirdin20 o último período literário de que trata:
E assim, eu contei quatro períodos das nossas letras: o período Lomonóssov, o Karamzin, o Púchkin e o da prosa popular; resta mencionar ainda o quinto, que se iniciou com o aparecimento para o mundo da primeira parte de
Novociélie21 [A Nova Morada] e que se pode chamar de período Smirdin. Sim,