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VIRKNINGER FOR MILJØ, NATURRESSURSER OG SAMFUNN

É bastante raro no contexto de simples canções infantis para coro e piano que técnicas relacionadas com a pós-modernidade e as vanguardas dos anos 60 e 70 façam a sua aparição, no entanto é o que acontece em várias (embora em pequeno número) canções de Sérgio Azevedo, em geral sempre com um objectivo muito definido. Não obstante a relativa raridade do emprego de citações nas canções (embora noutras obras esse uso seja cada vez mais frequente, do que se pode deduzir dos exemplos já referidos que a tendência poderá expandir-se cada vez mais para as futuras canções do compositor), estas são muito específicas e todas têm que ver directamente com os textos, pelo que são ainda mais específicas do que o uso de música popular, nem sempre, como vimos, directamente originada pelo texto.

Já observámos no capítulo anterior como o uso de música popular, jazz e rock é bastantes vezes (embora não exclusivamente) relacionado com o texto, de uma forma a maioria das vezes irónica ou cómica. O mesmo se verifica com as citações de autores muito concretos, como Prokofiev, Janacék ou Chostakovitch, todos eles, como seria de esperar, autores da predilecção de Sérgio Azevedo, o que só confirma a frase de Sir Theodore Martin “Que ninguém parodie um poeta a não ser que o ame” (Hutcheon, 1985:45).

Quadro nº4

Levantamento das citações musicais directas

Canção de Sérgio Azevedo

Obra e compositor citados

Conteúdo do texto e relação

Lacrau (“Bichos

de Arrepiar”)

Popular: Simple Gifts É feita uma alusão humorística ao hino “shaker” Simple Gifts, pelo facto de as características “emocionais” e até fisiológicas do lacrau (o lacrau é lento e a melodia é uma dança rápida), se este fosse humano, estarem em completa divergência com a mensagem de harmonia e concórdia típica desta seita religiosa americana.

Doninha fedorenta

(“Bichos de Arrepiar”)

Janacék: Nursery Rhymes Existe uma citação das Nursery Rhymes de Janacék na sugestão do comportamento sexual das doninhas, devido ao humor desse ciclo para crianças do compositor checo e à sensualidade que contrasta com o notório mau cheiro do animal. Podemos ainda pensar numa alusão a uma figura dos desenhos animados americanos muito célebre, a doninha fedorenta francesa que se apaixona loucamente pelos animais errados, como gatos e coelhos, os quais fogem dela a sete pés.

Osga (“Bichos de

Arrepiar”)

Prokofiev: Romeu e Julieta

Existe uma citação breve do bailado Romeu e

Julieta, de Prokofiev. A ligação com este

bailado romântico/dramático é claramente irónica, dado o texto da canção, que rima “osga” com “pitosga”, e infere da miopia do animal que, se morde, é porque não sabe se o que tem à frente é comida ou um simples dedo de uma pessoa… Formigas (“Canções com insectos lá dentro”) Chostakovitch: Sinfonia nº7, “Leninegrado”

Existe uma citação directa de uma figura de acompanhamento extraída da célebre marcha obstinada do 1º andamento da Sinfonia nº7, “Leninegrado”, de Chostakovitch, dada a ligação dessa obra com a guerra, uma vez que o texto da canção sugere que a organização das formigas é como a dos soldados.

Podemos comparar em seguida (exemplos 20a a 20h) os originais e a citação que deles faz Sérgio Azevedo. Existem frequentemente mudanças de tonalidade, e a citação não é exactamente igual em nenhum dos casos, porém mantém suficientemente presentes os elementos essenciais para se reconhecer a fonte e por isso ser mais do que uma inspiração vaga e entrar na categoria de citação. A razão para tal acontecer deve-se, nas próprias palavras do compositor (Azevedo, 1999b:14-15), ao facto de existirem duas maneiras de citar: a mais directa, que consiste em copiar da partitura original os elementos em questão, e transpô-los tal qual para o novo contexto, e uma citação que Sérgio Azevedo classifica como “onírica” (idem), uma vez que é claramente localizada (o compositor sabe perfeitamente de onde retira os elementos), mas não há recurso à partitura original, sendo o material “extraído da memória auditiva” e sujeito às modificações naturais que a memória tende a produzir, fenómeno que se encontra também nas músicas e tradições populares de transmissão oral.

Na maior parte das vezes é a esta “citação onírica” que Sérgio Azevedo recorre, mesmo quando possui ou tem fácil acesso às partituras originais, uma vez que esse processo permite manter as características do objecto citado (ao fim e ao cabo a razão para se usar um material alheio é essa dialéctica cultural da escuta entre o próprio e o alheio, com toda a carga de tensão devido a essa diferença que é produzida, sendo que, para que tal aconteça, é essencial que se possa identificar a origem da citação), mas introduzir alguma criatividade, uma vez que o objecto não se mantém exactamente igual.

Permite ao mesmo tempo (ibidem) ao compositor uma coisa extremamente interessante: uma vez que é a memória a fonte do material alheio, e não uma fonte directa e exacta como a partitura, por exemplo, e como a memória é uma capacidade altamente selectiva, esse processo permite – mantendo o essencial do original, já o referimos – ao compositor salientar o aspecto que instintivamente lhe é mais próximo da sua própria sensibilidade.

Por outras palavras, os elementos do original citado que são mais importantes para a sensibilidade musical do compositor que cita são os que têm mais hipóteses de serem “filtrados” e permanecerem no contexto final, ao invés das citações exactas, que são impessoais, uma vez que seja qual for o compositor a usá-las, elas permanecem tal qual como no contexto original, e somente experimentam uma mudança de contexto, a qual, embora decisiva para

a maneira como estas são apreendidas pelo público, não é tão radical como o uso “onírico”, que condiciona o objecto citado de duas maneiras:

Através do interior=dele próprio, ao ser ligeiramente modificado e filtrado, e do exterior=novo contexto no qual é colocado:

Exemplo 20a (Popular, “Simple Gifts”):

Exemplo 20b (Azevedo, “Lacrau”):

Exemplo 20d (Azevedo, “Doninha fedorenta”):

Exemplo 20e (Prokofiev, “Romeu e Julieta”):

Exemplo 20f (Azevedo, “Osga”):

Exemplo 20g (Chostakovitch, “Sinfonia nº7, «Leninegrado»”):

Exemplo 20h (Azevedo, “Formigas”):

Como podemos constatar da comparação dos exemplos anteriores, todo o contexto em que a citação está inserida difere consideravelmente do contexto original, bem como a própria citação está distorcida, embora se mantenha suficientemente reconhecível como tal.

Também a ligação com os textos, já mencionada e explanada é pertinente e parte sempre de uma base humorística, bem patente no exemplo da Doninha

fedorenta ou da Osga, ao virarem de pernas para o ar o contexto inicial do

ponto de vista do significado literário, processo que já vimos acontece frequentemente nas obras de Sérgio Azevedo, mesmo quando este não recorre à citação, como é o caso mais frequente. Aliás, pela sua raridade, estes exemplos isolados acabam paradoxalmente por se destacar do conjunto da “oeuvre” no

que toca às canções para coro infantil e piano, mas já vimos que no resto da obra do compositor, seja na dedicada a crianças (caso da também já mencionada

História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a Voar), seja na música de

concerto sem propósitos pedagógicos, este processo é cada vez mais paradigmático da escrita recente do compositor.