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Virkning i friluft

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4 Andre modeller

4.1 Virkning i friluft

Depois de Candido, outros autores dispuseram-se a estudar o universo rural caipira em desajuste. Ganharam destaque as análises produzidas pelos autores da chamada "Escola Sociológica Paulista". Utilizaremos os autores José de Souza Martins (1975) e Maria Isaura

Pereira de Queiroz (1973) para analisarmos a questão específica sobre o caipira no pensamento dessa Escola. No entanto, para isso, achamos necessário nos deter brevemente sobre a formação e consolidação desta escola de pensamento sociológico, posto que ela coloca em questão a relação entre moderno e arcaico no desenvolvimento do país.

1.3.1. Apontamentos sobre a formação do pensamento social da Escola Sociológica Paulista

O surgimento da Escola Sociológica Paulista na Universidade de São Paulo (USP) esteve diretamente ligado ao tipo de institucionalização das Ciências Sociais neste local. Miceli (1987) fez um estudo comparativo sobre a consolidação das Ciências Socais entre São Paulo e Rio de Janeiro, entre os anos de 1930 e 1964. Para ele, foi na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo que ocorreram as primeiras iniciativas para uma consolidação e autonomização das ciências sociais no Brasil. O principal mérito dessa, neste sentido, foi a separação do "fazer científico" da esfera de interesses da política. Esta diferenciação teve origem no fato de que enquanto no Rio de Janeiro a produção intelectual continuou estritamente ligada à elite cultural e política, marcadas por suas relações clientelistas - o maior exemplo é o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) -, em São Paulo criou-se um padrão institucional baseado na hierarquia e na excelência intelectual, nos moldes do padrão europeu.

Este mesmo autor acrescentou, ainda, o fato de que em São Paulo houve uma "democratização" das ciências sociais, possibilitada justamente por este tipo de institucionalização acadêmica que gerou uma classe de profissionais vindos também de grupos sociais emergentes e livres das relações de favor10. Entretanto, isso não quer dizer que aquele tipo de estrutura de criação intelectual, como dada no Rio de Janeiro, não existisse em São Paulo, mas manteve-se confinada na Faculdade de Direito da USP: "Em São Paulo, os cientistas sociais se moviam a distância das lutas acadêmicas e políticas que giravam em torno da Faculdade de Direito ao longo do Estado Novo" (MICELI, 1987, p. 14).

Essa diferença foi determinante para a criação da chamada "Escola Sociológica Paulista". Foi este processo de autonomização científica que gerou condições para que se criasse uma corrente de pensamento crítica ao imediatismo da realidade político-econômica - o desenvolvimentismo. O rigor do método de apropriação científica nas ciências sociais era, portanto, uma novidade no Brasil e se desenvolvia, até então, somente em São Paulo. No Rio de

Janeiro - tomamos como exemplo o ISEB -, permaneceram as análises de cunho ensaísta e generalista, caracterizadas fortemente pelo dualismo, cujos objetos eram definidos em função de sua relevância política - e por interesses individuais -, ou seja, sempre pautados pelo entusiasmo do desenvolvimentismo (MICELI, 1987; ORTIZ, 1990).

O estilo de pensamento dualista ancora-se numa visão linear e evolucionista da história que, aplicadas nas análises sobre os "problemas brasileiros", criou a ideia da existência de dois Brasis, um "moderno", associado ao desenvolvimento urbano-industrial, e outro, "arcaico", associado ao "passado rural" e suas relações sociais características. Segundo essa lógica, fazia-se necessária a destruição deste "passado arcaico" para a imposição do moderno. Nos anos cinquenta, auge do desenvolvimentismo, esse tipo de análise foi disseminado principalmente pelo ISEB11

e servia como aparato ideológico para a implantação de projetos desenvolvimentistas (BASTOS, 2002; IANNI, 2004; MARTINS, 1981; MICELI, 1987).

A Escola Sociológica Paulista, encabeçada por Florestan Fernandes, desenvolveu uma tradição de pensamento que nasceu da crítica ao evolucionismo contido no estilo de pensamento dualista. Segundo Bastos (2002, p. 185-186),

A escola sociológica paulista, denominação que se atribui ao grupo que tem como centro Florestan Fernandes e seus assistentes, apresenta como eixo de sua reflexão a pergunta sobre as razões, o perfil e os efeitos do atraso no Brasil. A especificidade de seu caminho analítico é dada por um objetivo claro: a recusa de uma visão dualista, comum à maioria dos intérpretes, e que aparece nestes como um continuum onde o processo de mudança social teria a função de superação desse retardo. Recusando essa posição, o autor, acompanhado pelos pesquisadores que o cercam ou que descendem dessa tradição de pensamento, toma a imagem e altera-lhe o sentido: em lugar de uma explicação linear, opera como se as duas pontas do continuum se encontrassem e esse encontro gerasse, simultaneamente, o objetivo, a unidade de pesquisa, o desafio à compreensão, a busca de um suporte teórico e método de investigação.

Segundo os autores dessa Escola, no Brasil, o "passado arcaico" não só conviveria com o "moderno", mas tornar-se-ia imprescindível para a realização do tipo específico de desenvolvimento que se deu aqui. Isto é, o processo de desenvolvimento no Brasil depende de uma articulação sui generis entre o "atraso" e o "moderno", que não é a de negação.

Novos elementos foram introduzidos nesse tipo de análise e outros, já comumente usados, foram ressignificados. A ideia de "periferia" - antes, associada ao atraso, inscrita numa relação

11 Sobre a inserção do ISEB como matriz da ideologia do nacional-desenvolvimentismo nos anos cinquenta,

consultamos IANNI (2004). Esse autor chama de "neobismarckismo" este aspecto da produção intelectual deste instituto. Ver também, ORTIZ (2009).

linear e evolucionista da história - passou a relacionar-se com a ideia de "singularidade", isto é, portadora de um desenvolvimento histórico sui generis, impossível de reproduzir o desenvolvimento dos países centrais. As noções de "tensão" e de "crise" passaram a ter importância fundamental para a análise da periferia, pois adquiriram uma concepção "heurística", dialética, diferentemente das análises dualistas em que são vistas relacionadas à ideia de "anomia". Estes são elementos do novo aparato que possibilitou a criação de um padrão teórico metodológico segundo o qual "a partir da periferia percebe-se melhor o movimento da sociedade, possibilitando a verificação dos princípios que a estruturam" (BASTOS, 2002, p. 189). Essa revolução no entendimento dos "problemas brasileiros" só foi possível por conta do tipo de autonomização e consolidação das ciências sociais tal como ocorrera em São Paulo (MICELI, 1987).

1.3.2. O caipira segundo a Escola Sociológica Paulista

É nesse contexto que Maria Isaura Pereira de Queiróz (1973) analisou, sob uma perspectiva crítica a Antonio Candido, a inserção do caipira no processo de urbanização. Queiróz partiu da definição de Candido (1971) sobre o bairro rural como unidade mínima da sociabilidade do caipira. A partir daí, avançou em relação a esse autor no que diz respeito à desarticulação desse modo de vida. Para ela, havia uma margem maior, do que considerava Candido, para a sua reprodução, pois caracterizava-se mais pela condição de pequenos produtores do que pelo ajuste mínimo ecológico e social. Desta forma, poderia haver diferentes meios de inserções dos bairros rurais no desenvolvimento urbano, com maior ou menor grau de desarticulação, ou seja, diferentes relações possíveis entre campo e cidade.

José de Sousa Martins (1975, p. 39) desenvolveu a ideia da Escola Sociológica Paulista de que não se pode considerar o modo de vida rural como arcaico, como “„aberração‟ ante o desenvolvimento atingido pela sociedade urbana brasileira”. Esse autor afirmou que “O desenvolvimento urbano, particularmente o da economia industrial, só foi e tem sido possível, graças à existência de uma estrutura agrária estruturada de modo a suportar e absorver os custos da acumulação de capital e da industrialização”. Para caracterizar o dualismo, ele utiliza a noção de "estilo de pensamento", ou seja, um "modo de conhecer" que não se confunde com o "pensamento em si mesmo" (MARTINS, 1981, p. 14).

Portanto, creio que aqueles de nós que estamos preocupados em ir além dos esquemas dualistas, devemos num primeiro momento demorar não apenas sobre os limites das

dualidades, mas também sobre sua gênese histórica e seus compromissos, para darmos o primeiro passo antes do segundo, isto é, para descobrirmos, primeiramente, a razão do dualismo. É que o dualismo não pode ser ingenuamente reduzido a um engano, uma imperfeição teórica, a um viés. Assim como a análise dialética, ele também tem sua razão que é uma razão anti-histórica, mas historicamente determinada (MARTINS, 1981, p. 12).

A Escola Sociológica Paulista foi responsável por desvendar a "razão anti-histórica" do dualismo que reproduzia o método positivista e evolucionista da história, para o qual o rural brasileiro era tomado como arcaico, relegado à "periferia" do desenvolvimento urbano-industrial e, por isso, fadado a desaparecer. A imagem do caipira, alimentada pela visão depreciativa do Jeca Tatu, mostrava-se como símbolo desse "arcaísmo". Essa primeira crítica ao dualismo foi, ao mesmo tempo, uma crítica à lógica desenvolvimentista que, de fato, corroeu as condições de vida no campo para este tipo social, obrigando-o a alterar seu modo de vida e migrar para as cidades onde já eram estigmatizados.

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