2 B ESKRIVELSE
2.2 Vipping
Nietzsche, filósofo europeu do século 19, era reservadamente um metafísico, que pugnou com problemas de sensibilidade, de invenção, de liberdade
10 Lacan afirma que “A filosofia na alcova surge oito anos depois da Crítica da razão prática. Se,
depois de ter visto que é compatível com esta, demonstrarmos que ela a completa, diremos que ela fornece a verdade da Crítica” (LACAN, 1998, p. 777).
criadora, de exultação do corpo e do prazer-sofrimento decorrente da aventura, ou seja, problemas “ao alcance da mão”.
Professor universitário de filologia, despertou muitas vezes a suspeita acerca de seu fazer filosófico, em parte motivada pela excessiva inovação de seus livros, a ponto de não serem reconhecidos pelo establishment filosófico e clássico-literário da época (CHAMBERLAIN, 2000, p. 16). Embora a quantidade de estudos dedicada ao filósofo aumente a cada ano, é necessário continuar lendo o próprio Nietzsche, pelo seu modo de escrever e seu atinado e excepcional senso crítico sobre a modernidade.
A acolhida ao pensamento de Friedrich Nietzsche, aqui no Brasil, remonta às primeiras décadas do século passado, conforme fica bem estabelecido em “Nietzsche e a cena brasileira”, de Scarlett Marton (2001). Contudo, em 1946, quando as idéias do filósofo passavam pela difamação nos meios de esquerda, o então jovem crítico Antônio Cândido de Mello e Souza escreve o ensaio “O Portador”, sobre o importante trabalho filológico do extemporâneo escritor, nascido na Alemanha (CÂNDIDO, 1983).
Recuperar as palavras de Antônio Cândido, em meio à atual e consistente leitura de Nietzsche nas nossas universidades,11 significa reconhecer o pioneirismo de um leitor que soube apontar os aspectos cruciais e relevantes para uma filosofia do futuro, quando ainda pouco se falava da novidade e pertinência do pensamento para além do bem e do mal. Ao afirmar que a obra nietzschiana pretende nos sacudir e romper uma série de hábitos tacitamente aceitos, Antônio Cândido colocava à posteridade dos estudos literários e brasileiros uma tarefa árdua, porém inovadora:
o seu objetivo é lançar as bases de uma nova ética, acessível aos homens
que se obtêm – homens superiores que alargarão até outros aquilo que
conquistaram penosamente, cauterizando em si a herança de uma civilização desvirtuada (CÂNDIDO, 1983, p. 413).
11 Dentre os vários pesquisadores atualmente vinculados à Universidade brasileira, contribuíram
sobremodo para a realização desta tese os trabalhos, com base no pensamento de Nietzsche, realizados por: Dr. Alberto Onate (UNIOESTE), Dr. Charles Feitosa (UNIRIO), Dr. Clademir Araldi (UFPEL), Dr. Miguel A. Nascimento (UFPB), Dr. Olímpio Pimenta (UFOP), Dr. Osvaldo Giacóia Júnior (UNICAMP), Dra. Regina Zilberman (UFRGS), Dr. Roberto Machado (UFRJ), Dra. Scarlett Marton (USP) e Dra. Vânia Dutra de Azeredo (UNIJUÍ).
A fim de realizar a leitura da narrativa de João Antônio sob o ponto de vista da crítica à moral de Nietzsche, percorremos as marcas filosóficas inscritas em diversos aforismos, visto que o filósofo elabora um mesmo conceito em diferentes formulações. As pegadas desta crítica, por exemplo, estão espalhadas em textos publicados uma década antes de Além do bem e do mal (1886) e Genealogia da
Moral (1887), obras consideradas de referência para o estudo da moral como ruptura
com a tradição.12 A maneira aforística de construir seu pensamento, em contraponto à filosofia catedrática, indica seu descontentamento com “a mutilação do espírito de aventura pela oficialização das doutrinas” (CÂNDIDO, 1983, p. 414).
Nietzsche faz uma filosofia que lida com a possibilidade de tomar diferentes perspectivas a partir de uma idéia. Ele realiza este intento através de pequenos textos que exploram a diversidade de ângulos de um mesmo problema, sendo que as contradições decorrentes deste encontro se tornam compreensíveis, em face da pluralidade de pontos de vista.
Não cabe desenvolver aqui a análise do tema das relações entre filosofia e literatura, tampouco cabe realizar um enquadramento minucioso da moral na agenda do filósofo. O alcance destes objetivos extrapolariam as bordas desta tese, que intenta examinar a experiência do mundo contemporâneo, sob a perspectiva da tese nietzschiana da moral de escravos e da moral de senhor, em alguns contos literários. Todavia, é necessário compreender o fenômeno poético como a junção de campos de conhecimento, conforme observa Gerd Bornheim (ainda que traçando uma distinção entre literatura e poesia):
todo possível diálogo entre filosofia e poesia se instaura, ao menos como ponto de partida, no plano da experiência. Merleau-Ponty tem razão quando vincula o problema à fenomenologia, justamente porque pela fenomenologia fez-se possível um alargamento da compreensão do campo da experiência (BORNHEIM, 1972, p. 110).
A contribuição de Nietzsche aos estudos literários compreende uma tese sobre a vida, a religião e a poesia na Grécia Antiga, em O nascimento da tragédia
12 A crítica de Nietzsche aos preconceitos morais, anterior aos referidos livros, se encontra
principalmente em Humano, demasiado humano (1877) e Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais (1881).
(ZILBERMAN, 1997); a análise de temas relacionados a artistas e escritores, em
Humano demasiado humano; a leitura de Shakespeare, Goethe e outros clássicos,
em A gaia ciência; a criação da personagem Zaratustra, em Assim falou Zaratustra; a leitura de escritores franceses, em Além do bem e do mal; a poética dos povos germânicos via composição musical de Richard Wagner, em O caso Wagner e
Nietzsche contra Wagner.
Outros tantos aforismos, com referência direta à matéria literária, estão distribuídos em seus livros e na compilação de A vontade de potência, cuja primeira edição constituiu-se a partir dos fragmentos póstumos, organizados pela irmã do filósofo, e depois em edição crítica estabelecida por Colli e Montinari,13 ainda não vertidos para nossa língua (RUBIRA, 2001, p. 270). Cabe ainda lembrar que, antes da polêmica tese sobre a tragédia grega, o jovem professor de filologia escrevera um curso de retórica e outros estudos sobre a cultura greco-romana antiga (NIETZSCHE, 1999).
As idéias de Nietzsche sobre arte e conhecimento, outrossim, já foram largamente exploradas por pesquisadores que atuam na área de Filosofia – em disciplinas como Teoria da Arte, Filosofia da Arte ou simplesmente Estética, entre outras - e se tornaram conhecidas pelo trabalho de teóricos ligados à área de Letras.
O filósofo Michel Foucault, autor de Nietzsche, a genealogia, a história (FOUCAULT, 1997), e o professor Paul de Man, autor de Alegorias da leitura, que examina especialmente os aspectos da retórica e a relação entre discurso filosófico e discurso literário (DE MAN, 1996), fizeram com que a obra de Nietzsche atingisse um largo círculo de leitores pelo mundo e pelo Brasil. Contudo, a fonte principal de nosso estudo se encontra na leitura de aforismos que tratam diretamente os conceitos de moral, niilismo, super-homem, vontade de potência e eterno retorno, e na retomada de comentários de leitores que desenvolveram pesquisas tendo como base o pensamento nietzschiano.14
13 MARTON, Scarlett. Um século depois, ainda um extemporâneo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06
ago. 2000. Caderno Mais!, p. 16-17. A autora comenta a genealogia da obra Vontade de potência e a edição crítica das obras de Nietzsche preparada por Giorgio Colli e Mazzino Montinari.
14 Entre nós, há dois eventos que merecem destaque, pela importância do trabalho realizado e pelas
perspectivas que abrem aos novos leitores do pensamento de Nietzsche: o Grupo de Estudos Nietzsche, do Departamento de Filosofia da USP, cuja produção é publicada pelos Cadernos
A necessidade de um exame preliminar da concepção filosófica de Nietzsche - pelo menos de alguns termos que formam o conjunto de suas noções e a mutação e/ou permanência de tais noções na expressão particular da obra – levou-nos inicialmente à leitura direta das principais obras relacionadas aos temas da filosofia de futuro, genealogia da moral e projeto de transmutação dos valores, bem como aos comentários em torno dos conceitos, a fim de comunicar o pensamento sem reduzi-lo a instrumento de decodificação da realidade em que vivemos.15
Em Nietzsche, a moral ocupa um lugar de destaque e constitui uma história dos caminhos pelos quais trilhou o homem, acometido pelas forças do mundo supra- sensível e pelas amarras de uma verdade, aquém de sua vontade de potência. A história natural da moral, nesse sentido, oferece uma chave de leitura das “maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos em vez de nos afirmarmos” (CÂNDIDO, 1983, p. 412).