Com a dissolução do sistema político carolíngio e pela emergência das novas institui- ções de feudalidade e vassalagem, o âmbito religioso do final do séc. X e séc. XI pode ser caracterizado “pela influência crescente exercida pela espiritualidade monástica sobre o povo cristão no seu conjunto” (VAUCHEZ, 1995, p. 37). A Igreja secular dos tempos carolíngios, dirigida pelo soberano e pelos bispos, que até então exercia autoridade sobre os monges, cai em profunda decadência após as grandes perturbações ocidentais do final do séc. IX e meados do séc. X. O processo de secularização19 acelerou-se com o advento do feudalismo e, com isso, o patrimônio eclesiástico sofreu constantes dilapidações por parte de prelados indignos, ou desapropriações por leigos gananciosos. Com isso os clérigos, originários dos meios aris- tocráticos, mudaram seu estilo de vida e se aproximaram mais dos fiéis.
Afirma Vauchez que a grave crise colocou em causa a própria existência da Igreja, ameaçada de dissolução pela secularização do clero e, ao mesmo tempo, pela difusão do sis- tema da igreja privada. Também os mosteiros foram atingidos por essas mudanças, entretanto o monaquismo foi quem melhor resistiu à “Dark Age” (“Idade das Trevas”). Algumas abadi-
19 “O termo „secularização‟ já aparecia nos escritos néo-testamentários do apostolo Paulo designando sob o as- pecto „saeculum’, o século: trata-se da temporalidade deste mundo, a dimensão mundana da vida humana, asso- ciada à dimensão do pecado. Compreende-se assim, que a expressão „retornar ao século‟ significa retornar ao mundo profano, identificando-se desta forma, com a laicização. Mais globalmente, a secularização designa o processo visível desde o final da Idade Média que vê atividades ou dimensões da vida humana ligados à esfera religiosa como a Arte, a Ética, a Moral ou a Política cortar-se de toda referência ao sagrado ou transcendência. Hoje, a expressão secularização é usada para definir um processo no qual o mundo e a história humana se com- preendem a partir deles mesmos, de maneira propriamente imanente” – DAMÁSIO, Celuy Roberta Hundzinski, Secularização na Europa. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/048/48damasio.htm (acesso: 17.08.2010).
as conseguiram manter, não sem esforços, a observância das regras e uma digna celebração do culto divino. Pela expressão das profundas aspirações a uma renovação espiritual, o movi- mento monástico insular unificado reformado promulgado na Inglaterra por volta de 970, pela carta Regularis concórdia, estende-se além fronteiras, marcando o regresso ao antigo fervor. O monaquismo passa a ser considerado pelos cristãos como superior a outros estados de vida.
Quanto à nova sociedade que se edificava sobre o feudalismo, apesar de considerar o povo cristão como uno aos olhos de Deus, em consequência do batismo, organizava sua cida- de terrestre em três “ordens” funcionais: Os oratores – que oram, os bellatores – que guerrei- am e os laboratores – que trabalham (nesta, a aristocracia leiga se distinguia claramente da massa dos trabalhadores). Nenhum desses grupos subsiste sem os outros. Nessa tripartição a oração, função mais valorizada entre as três, era consagrada como utilidade social, indispen- sável à garantia da sobrevivência e à salvação do mundo. À medida que se constituem em
ordo, os religiosos eram considerados uma categoria à parte, situada fora da vida profana. Vauchez assinala a importância de lembrar que, independente de toda influência ideológica transmitida pela cultura, a representação de mundo na primeira idade feudal era a de um mun- do de muita violência, injustiça e insegurança, o que dificultava encontrar na sociedade valo- res positivos. Inicia-se, assim, uma incompatibilidade entre a vida profana e o estado religio- so.
Na época feudal, os principais centros espirituais do Ocidente foram comu- nidades de homens e mulheres que praticavam em conjunto o cristianismo com um grau de perfeição inacessível ao comum dos fiéis. Desde então, e até o século XIII, todos os movimentos espirituais no seio da Igreja terão como ponto de partida ou de chegada a fundação de ordens religiosas. (VAUCHEZ, 1995, p. 40).
O ideal monástico exerceu um fascínio sem precedentes sobre todos os espíritos da época. Além disso, abadias e mosteiros tornaram-se refúgio para os filhos e filhas mais novos das linhagens aristocráticas, que encontraram aí uma solução para os seus problemas sucessó- rios.
O domínio da classe feudal, em seus laços estreitos com o mundo do claustro, marcou as atitudes religiosas fundamentais e impôs, até mesmo no âmbito espiritual, os seus modelos à sociedade ocidental em geral, cujos efeitos se estenderam até o final da Idade Média.
Para Vauchez, a mais grave consequência da difusão da espiritualidade monástica foi a depreciação profunda e duradoura do estado laico que, ao ser atingido pela inferioridade reli- giosa e cultural, “definiu-se negativamente pela sua exclusão do universo do sagrado e da cultura erudita” (VAUCHEZ, 1995, p. 55). Por outro lado, ao aderirem às instituições e aos valores do monaquismo, os leigos traduzem o despertar da consciência religiosa em meios que até então só haviam conhecido um simples conformismo. A isso, sucede-se um período de intensa fermentação. Cada vez mais “simples fiéis começam a ascender a um certo conhe- cimento, se não da Bíblia, pelo menos dos principais preceitos evangélicos” (VAUCHEZ, 1995, p. 58). Alguns deles exageraram na vivência espiritual de forma a provocar, em torno do ano mil, as primeiras heresias no mundo Ocidental, as quais tinham em comum a recusa do mundo e sua violência, o desprezo e mortificação do corpo (considerado terreno de predileção das forças do mal), desprezo pela vida sexual, rejeição de estruturas eclesiais e de sacramen- tos. A ambiguidade do ascetismo exprime simultaneamente a obsessão angustiada pela salva- ção e o desejo de imitar Cristo sofredor – uma das primeiras manifestações de um despertar evangélico.
“O ideal de vida cristã na época feudal é um estilo de vida heróico caracterizado por uma sequência de prodigiosos esforços e por uma busca de superação, à imagem do cavaleiro que incessantemente deverá ultrapassar-se a si próprio, realizando novas façanhas” (VAU- CHEZ, 1995, p. 62). Como resultado do combate a si mesmo surgiu uma espiritualidade das obras. Para aplacar a cólera do Deus-Juiz, os fiéis multiplicaram suas práticas de devoção e caridade. “O esforço físico e concreto substituía [...] o difícil esforço da elevação do espírito para Deus” (TOUSSAERT, citado por VAUCHEZ, 1995, p. 63).
Ao longo do ano mil a ansiedade latente, gerada pelas crenças milenaristas do juízo final, demonstra a ambivalência da expectativa escatológica: reações pessimistas e marcadas pelo temor, bem como o impulso dos fiéis e do clero para uma via de purificação. O quilias- mo ou milenarismo cristão
é a crença num reino, futuro mas terrestre, do Cristo e de seus eleitos, que se supõe durar mil anos, entendidos simbolicamente ou literalmente. Esse período, gozado antecipadamente no tempo da história antes da chegada da „nova criação‟, deveria ser enquadrado por dois momentos de prova: o pri- meiro será cumprido com vitória dos fiéis de Cristo sobre os cúmplices do Anticristo; o segundo, mais breve, marcará a derrota definitiva das forças do
mal. (LÉCRIVAIN, in CAILLÉ, LAZZERI e SENELLART, org., 2003, p. 146).
A partir de meados do século XI a Igreja e a sociedade passam a se beneficiar das e- nergias libertadas pelo afastamento progressivo das perspectivas apocalípticas, conquistando assim transformações e progressos. Muitas foram as iniciativas reformadoras, aqui, no entan- to, citamos apenas a reforma gregoriana, que abarca um conjunto de movimentos heterogê- neos e diversos, mas que convergiam para a reforma do papado – que libertou-se da tutela imperial e ocupou a vanguarda da luta pela liberdade da Igreja, com direito exclusivo de jul- gar a sociedade cristã. O papa Gregório VII estava convicto de que os discípulos de Cristo deviam travar um combate decisivo contra as forças do mal. Assim, o plano escatológico cede lugar ao desejo de construir hic et nunc (aqui e agora) o reino de Deus. Para tanto, o papa re- formador lançou a todos os cristãos um apelo à ação para a reforma da Igreja e da sociedade, pois, para salvar o mundo, não bastava rezar por ele; era preciso dirigi-lo.
Os resultados da reforma gregoriana foram contraditórios: ao dessacralizar o poder temporal e ao exaltar o sacerdócio, ela teve como consequência um acréscimo da distância entre o clero e os leigos.[...] Mas os leigos irão recu- perar largamente, no plano da espiritualidade, aquilo que os faz perder ter- reno devido à evolução da eclesiologia. (VAUCHEZ, 1995, p. 73).
As possibilidades de ação dos fiéis, sobretudo dos combatentes, se ampliam pelas transformações num mundo de confrontos. A Cruzada20, conceituada como opus Dei (obra de Deus), ofereceu à cavalaria um meio de participar diretamente nas graças da salvação, sem ser necessário renunciar ao seu estado de vida. O apelo lançado aos fiéis na reforma gregoriana e retomado num plano diverso por Urbano II em 1095, contribuiu para reafirmar o papel dos leigos – que são convidados a deixar a passividade e a participar diretamente na reforma e na cruzada. Assim, as cruzadas testemunham o surgimento de uma nova religiosidade, na qual as massas foram imbuídas da aspiração à salvação eterna.
Após o afastamento das perspectivas escatológicas e messiânicas, que havi- am marcado as primeiras expedições, a caridade fraterna transforma-se no
20 A Cruzada era uma peregrinação armada, com valor de expiação, que concedia ao fiel que nela se engajasse a total remissão das penas devidas pelo pecado (indulgência plenária). O objetivo da cruzada era a reconquista da Terra Santa (Palestina) que estava sob a posse dos mulçumanos. Esse objetivo se expressava mais claramente no apelo a ajudar aos cristãos do Oriente e a libertar o túmulo de Cristo. Entre os séculos XI e XIII ocorreram 8 cruzadas, das quais participaram senhores e reis de diversas nações cristãs da Europa. O nome cruzadas surgiu em virtude da cruz que os expedicionários usavam na roupa e nas bandeiras.
principal motivo da partida para a Terra Santa. A cruzada é feita sobretudo para libertar os cativos, defender os peregrinos e salvar da destruição os cristãos do Oriente. (VAUCHEZ, 1995, p. 130).
Pela primeira vez a Igreja entreabria as portas da graça em benefício da totalidade dos fiéis. Daí o espantoso sucesso encontrado, em todas as classes sociais, no apelo à cruzada. Com ela, revela-se pela primeira vez no ocidente a existência de uma espiritualidade popular, cujo principal elemento constitutivo é a devoção a Cristo – que faz surgir o desejo de libertar a terra onde Ele vivera e de vingar a honra de Deus, escarnecida pelos infiéis. Uma outra ca- racterística foi o desejo de purificação individual e coletiva.