Em MMV e PM a ordem do narrar é representada, sobretudo, pelo RI, que se relaciona diretamente com o conteúdo temático evocado e verbalizado; a narração, embora não esteja totalmente ausente, tem um estatuto periférico, encontrando-se sobretudo ao serviço dos discursos de tipo interativo.
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3.1.2.1. Relato interativo (RI)
O RI é o TD priveligiado nas memórias para se representar as experiências e vivências pessoais passadas. É esta operação discursiva que, nos textos em análise, determina a classificação episódica (cf. 2.2.2.)94.
A configuração linguística do RI passa, nos textos PM e MMV, pela exploração do sistema de verbos do plano da história (no sentido de Benveniste), pela presença de deíticos pessoais remetentes para o produtor textual e pela presença de organizadores temporais que decompõem o narrar a partir de determinada origem espacio-temporal, explícita ou implícita. Deixa de estar em causa a relação Eu [Tu] – Aqui – Agora, como acontecia com o DI, para se relevar a relação Eu – Lá – Então. As coordenadas temporais dos processos verbalizados no texto geralmente não coincidem com as coordenadas temporais do contexto de produção, tendo, por isso, uma origem autónoma, a partir da qual se perspetiva o processo verbalizado.
(26) No meu tempo de juventude, depois de um dia de trabalho no campo os rapazes
da aldeia sentiam necessidade de se distrair, especialmente no verão, nas noites de luar. Juntavam-se nas tabernas na conversa e por vezes formavam uns grupos de três ou quatro para irem à «rexincha», isto é, iam às propriedades dos vizinhos roubar pêras, figos, uvas etc. e até melões. […]
Uma vez à noitinha estava eu no moinho apareceram-me lá o meu amigo A. da L., que tinha por alcunha «o Marreta», e o seu primo M. J. e o J. L., a convidar-me para irmos aos melões à moita do tio A. P. […] (MMV [5] e [6])
(27) Creio que a ocasião é boa para falar de um outro episódio relacionado com o meu aparecimento neste mundo. Como se já não fosse suficiente o delicado problema de
identidade suscitado pelo apelido, um outro se lhe tinha vindo juntar, o do dia do nascimento. Na verdade, nasci no dia 16 de Novembro de 1922, às duas horas da tarde, e não no dia 18, como afirma a Conservatória do Registo Civil. Foi o caso que meu pai andava nessa altura a trabalhar fora da terra, longe, e, além de não ter estado presente no nascimento do filho, só pôde regressar a casa depois de 16 de Dezembro, o mais provável no dia 17, que foi domingo. É que então, e suponho que
ainda hoje, a declaração de um nascimento deveria ser feita no prazo de trinta dias,
sob pena de multa em caso de infracção. Uma vez que naqueles tempos patriarcais, tratando-se de um filho legítimo, não passaria pela cabeça de ninguém que a participação fosse feita pela mãe ou por um parente qualquer, e tendo em conta que o pai era considerado oficialmente autor único do nascido (do meu boletim de
matrícula no Liceu Gil Vicente só consta o nome do meu pai, não o da minha mãe), ficou-
se à espera de que ele regressasse, e, para não ter de esportular a multa (qualquer quantia, mesmo pequena, seria excessiva para o bolso da família), adiantaram-se dois dias à data real do nascimento, e o caso ficou solucionado. (PM [16])
94
Nos textos em análise há apenas um episódio cuja classificação se baseia no DI (e não no RI) – trata- se do episódio “A minha oração matinal” (MMV [17]), cuja representação de acontecimentos passados tem como ponto de ancoragem enunciativa o momento da interação verbal e se traduz numa aspetualidade de carácter iterativo (iniciado no passado e prolongado até ao presente) dos processos verbalizados (“Ao longo dos anos todos os dias ao levantar-me rezo o terço com os seguintes pedidos […]”).
169 Planificados com base em processos de desencadeamento de tensão simplificada, os segmentos de RI (destacados a negrito) caracterizam-se pela exploração de verbos flexionados no pretérito imperfeito e no pretérito mais que perfeito composto em (26) e no pretérito imperfeito e no pretérito perfeito simples, em (27) e pela presença de organizadores temporais que decompõem o narrar a partir de uma origem autónoma (No meu tempo de juventude; então). A configuração do RI nestes dois excertos apresenta, no entanto, duas especificidades linguísticas condicionadas pelo género adotado: um modo de ancoragem deítica, apesar da não ocorrência de certas formas deíticas e a presença de sujeitos nulos indeterminados que não anulam a implicação do produtor textual.
A ausência de deíticos resulta do facto de os segmentos de RI se encontrarem integrados em unidades discursivas progressivamente maiores – a unidade episódica e a unidade textual/memorialística. Dado que, como diria Rastier, o local é determinado pelo global, e face à ausência de alteração explícita de coordenadas gerais dos mundos, as coordenadas gerais da unidade textual memorialística (cotexto global, interepisódico) mantêm-se nas unidades discursivas intermédias (TD) que as constituem (cotexto local, intraepisódico). O Esquema 30 (página seguinte) demonstra esquematicamente isso mesmo.
A ausência de certas formas deíticas é também determinada pela ocorrência de outros deíticos a nível local. Assim, a existência do deítico pessoal meu no início de MMV [4] é suficiente para estabelecer as coordenadas deíticas pessoais de todo o episódio; torna-se, pois, desnecessário (ou mesmo desadequado, tendo em conta o princípio de economia linguística), explicitar lexicalmente o valor deítico associado a formas como aldeia, tabernas ou vizinhos, no cotexto em questão.
Por outro lado, o RI é ainda marcado por duas unidades linguísticas geralmente associadas ao DT: o pronome pessoal se, com valor impessoal (em Juntavam-se; tratando-se de, ficou-se e adiantaram-se) e a construção passiva (deveria ser feita, fosse feita, era considerado). Esta configuração linguística não é, no entanto despropositada, se for entendida como forma de representação da articulação entre o relato da experiência individual e a integração dessa mesma experiência na experiência coletiva. Ao representar o meio social envolvente, o produtor textual tende a optar por construções linguísticas que traduzam o comportamento social, mas não perdendo de vista que a atorialidade individual se integra na atorialidade coletiva.
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Esquema 30 – Configuração do RI em MMV [1], [4], [5] Cotexto global
(interepisódico) Certo dia lá na loja, o «tio J. C.», um pobre moleiro já velhote, em conversa com meu pai de quem era muito amigo, fez-lhe uma proposta, se meu pai lhe queria comprar o Moinho, e a Azenha, que tinha ali próximo em Santa Susana, que por ser para ele, lhe fazia um preço jeitoso. […] O meu Pai fez o negócio com o Senhor J. C., comprou o Moinho e a Azenha [...] Com o Moinho [do meu pai] e a Azenha [do meu pai] em Santa Suzana, já mais próximo das localidades, meu Pai angariou mais fregueses e começou a ter mais trabalho por isso a ter uma vida mais desafogada.
Cotexto local (intraepisódico)
No meu tempo de juventude, depois de um dia de trabalhono campo os rapazes da [minha] aldeia sentiam necessidade de se distrair, especialmente no verão, nas noites de luar. Juntavam- se nas tabernas [da minha aldeia] na conversa e por vezes formavam uns grupos de três ou quatro para irem à «rexincha», isto é, iam às propriedades dos [seus/nossos] vizinhos roubar pêras, figos, uvas etc. e até melões.
Uma vez à noitinha estava [no meu tempo de juventude] eu no moinho [do meu pai] apareceram-me lá o meu amigo A. L., que tinha por alcunha «o Marreta» e o seu primo Manuel Jacinto e o Joaquim Louro, a convidar-me para irmos aos melões à moita do tio A. P. (MMV [5])
3.1.2.2. Narração
Marcados, fundamentalmente, pela exploração do sistema de verbos do plano da história (no sentido de Benveniste), pela presença de organizadores/localizadores temporais que decompõem o narrar a partir de uma origem temporal autónoma em relação ao momento da produção textual e pela ausência de deíticos pessoais, os segmentos de narração ocorrem de forma residual em MMV e PM, surgindo encaixados no RI. Os exemplos (28) e (29) ilustram a forma a narração se articula com os restantes TD.
(28) Era aí que minha avó e eu íamos dar de corpo quando a urgência apertava e não dava tempo a que nos metêssemos pelos olivais dentro. (Meu avô devia resolver a questão lá por onde andasse com os porcos.) Que não se surpreenda o leitor com a eufemística expressão, dar de corpo. Era a lei natural. Adão e Eva tiveram de fazer o mesmo num recanto qualquer do
paraíso. (PM [55])
(29) Passado algum tempo comecei a trabalhar a meias com o meu pai, dividíamos a maquia, metade para cada um, para que se compreenda melhor esta pequena história, vou tentar dar uma explicação.
Os cereais eram medidos por o alqueire, ou por meio alqueire, medidas que eram feitas em madeira, o alqueire levava catorze litros, o meio alqueire levava sete litros, MMV [1]
MMV [4]
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medidas essas com que o moleiro se servia para fazer o intercâmbio com os seus fregueses, isto é, o freguês mandava para o moinho seis alqueires rasos de trigo, e recebia do moleiro também seis alqueires de farinha, mas com um camoiço, só que um alqueire raso de trigo dava mais do que um alqueire de farinha com camoiço ou seja, uma tarefa com seis sacos de trigo dava sete sacos de farinha, esse saco que dava a mais, chamava-se a maquia, ficava para o moleiro, como sendo seu ordenado, só que havia trigo em que a mesma quantidade, rendia mais ou menos farinha, consoante a sua qualidade, se tinha mais, ou menos impurezas, ou se a farinha era mais fina, aumentava de volume, se era mais arreloada diminuía de volume.
Certo dia ao dividir-se a maquia […] (MMV [20])
O exemplo (28) constitui a conclusão de um episódio de PM, sendo emoldurado por um segmento de DI (Que não se surpreenda o leitor com a eufemística expressão, dar de corpo.), a que se segue um segmento de RI, sem marcas deíticas explícitas, mas refletindo, mesmo assim, o mundo do narrar implicado, como se depreende a partir do cotexto precedente (Era a lei natural.) e, finalmente, por um segmento de narração (Adão e Eva tiveram de fazer o mesmo num recanto qualquer do paraíso.). Este último é marcado por uma organização temporal e atorial distintas dos dois segmentos anteriores, representando um processo cuja origem temporal, inferida a partir do conteúdo temático verbalizado (génese do ser humano) é anterior à coordenada temporal que serve de ancoragem ao RI e cujos agentes remetem para entidades não deíticas (Adão e Eva).
Em relação a (29), atente-se na esquematização da sua configuração discursiva (Esquema 31, página seguinte).
O segmento de narração (destacado a negrito) surge encaixado num segmento de RI que, por sua vez, se encontra emoldurado pelo DI. A narração é marcada por uma organização atorial diferente da dos segmentos discursivos que lhe são contíguos e que a encaixam: se, no RI, o produtor textual se implica como agente (o que é visível nas formas de primeira pessoa – comecei, meu pai e dividíamos), no segmento de narração a sua atorialidade passa a ser muito reduzida – sendo transposta para os moleiros em geral (entendidos como classe). Apesar de localizado temporalmente num momento passado e num espaço que se poderão considerar situados, o conteúdo verbalizado adquire um valor que se poderá classificar como genérico. Embora as coordenadas temporais sejam parcialmente coincidentes com as dos segmentos de RI, cria-se um novo mundo discursivo (o mundo do narrar autónomo), decorrente desse efeito de abstração/des- singularização (corroborado pela própria função explicativa do segmento)95. Repare-se
95
172 que, em termos microlinguísticos, este mundo encaixado é expresso pelo uso do pretérito imperfeito do indicativo com um valor temporal de passado e com um valor aspetual habitual96, criando um efeito de genericidade e anulando a atorialidade do produtor textual. Esse efeito, no entanto, não é gerado exclusivamente pelo pretérito imperfeito, mas resulta da articulação deste tempo verbal com formas linguísticas que constroem uma atorialidade de tipo genérico, baseada em construções passivas (eram medidos) e em operações de quantificação-qualificação (o moleiro ou a maquia).