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Acostumaram-nos tanto com os nomes de Marte, Júpiter, Vênus que [...] a constante repetição dessas idéias as faz penetrar facilmente no espírito e triun far sobre a imaginação [...] Os diversos incidentes de uma peça adqui rem uma espéci e d e relação por sua união em um poema em uma rep resent ação [...] e a vivacidade que a imaginação produ z é maior em inúmeros casos do que aqu ela eng endrada pel o costume e pela experiên cia309.
Principiar por uma perspectiva etimológica nos convém ante a explicitação do lugar da
infância nesta primeira linha de resistência. Infância não concerne à imersão ou adesão da
totalidade das duas heranças do homem – a natureza, a língua natural ou o código genético e a cultura, linguagem exossomática, linguagem humana não integralmente inscrita nos genes -; ela não o concebe enquanto animal que possui linguagem, mas animal que dela é desprovido e que a receberá de fora310. Infância, etimologicamente, é designativo de uma “não-fala” e um “não-saber”, sendo historicamente compreendida como uma “incapacidade”...; proveniente do termo latim infans, que deriva de infantia, formado pelo afixo in – negativo -, mais fari, falar.
308
“ El silencio. Es muy difícil escucharlo. Es muy difícil escuchar, en el silencio, a los otros. Otros
pensamientos, otros ruidos, otras sonoridades, otras ideas. A través de la escucha, intentamos habitualmente encontrarnos a nosotros mismos en los otros. Queremos encontrar nuestros propios mecanismos, nuestro propio sistema, nuestra racionalidad, en el otro. Hay en esto una violencia totalmente cons ervadora. En lugar d e escuchar el silencio, de escu char a los otros, esperamos escu charnos todavía una vez más a nosotros mismos. Esta repetición es acad émica, conservadora, rea ccionaria. Es un muro elevado contra el pensa miento, contra aquello que no es posible explicar, todavía, actualmente. Es el producto de una mentalidad sistemática, basada en los a priori interiores o exteriores, sociales o estéticos. Amamos el confort, la repetición, los mitos; amamos escuchar siempre la misma cosa, con sus pequeñas diferencias que nos permiten demostrar nuestra inteligencia. Escuchar música. Es algo muy difícil. Creo que hoy en día es un fenómeno raro. Escuchamos habitualmente d e un modo literario, escuchamos lo que ha sido escrito, nos escuchamos a nosotros mismos... [...]. Para Musil, si existe una sentido de la realidad, debe existir un sentido de la posibilidad. Lo que hemos elegido no es necesariamente justo; quizás lo que no h emos elegido era más justo aún. Pasamos por esta exp eriencia en el trabajo en el estudio: ha y muchos imprevistos, azares, errores. Pero errores que tien en una gran importancia. Porque el error rompe las reglas. Es una transgresión. Es oposición a la institución establecida. Es lo que nos permite vislumbrar otros espacios, otros cielos, otros sentimientos en el interior y en el ext erior, sin dicotomía entre los dos, contrariamente a la mentalidad banal y maniqueísta sostenida hoy en día. Diversidad del pensamiento musical: no fórmulas, ni reglas [...] Sino un pensamiento que transforme el pensamiento de los músicos, más que entregarles un oficio que les permita hacer una música qu e se dice actual. [...] En el trabajo de investigación o de ensayo estallan los conflictos. Estos son los momentos más emocionantes. Luego vien e la ritualidad del concierto. Pero quizás es posible transformar esa ritualidad y despertar los oídos. Despertar los oídos, los ojos, el pensamiento, el máximo de interiorización exteriorizada: esto es lo esen cial hoy” NONO, L. El error como necesidad. Texto extraído originalmente de um a edição esp ecial da revista de música
contemporân ea Contrech amps, traduzido por Gabriel Paiuk.
309
HUME apud DELEUZE, G. Empirismo e subjetividade: ensaio sobre a natureza humana segundo Hume. Tr. br. Luiz L. Orlandi, São Paulo, Ed. 34, 2001, p. 76.
310
Por conseguinte, “falar” ou “saber” expressam um exercício, uma articulação essencialmente negativa, a fala articulada é impedida no infante, e a infância é propriamente traduzida em termos de uma vida humana, uma forma de existência que indique o “não instituído”, o “resistente” a determinações culturais ou genéticas: abertitude para a potência, o ativo, rumo ao “vazio” do porvir... A infância obstinada é a busca por um permanente “estado de infância”, resistência que se ocupa de uma in-fância da experiência, a experiência muda, interditada aos imperativos do ressentimento – o homem não evoluiu, ou derivou-se de indivíduos adultos, mas das crias de um primata que teria adquirido prematuramente a competência para se reproduzir, e vestígios deste traço fetal estão em nossos corpos e persistem acentuadamente em nossa própria linguagem311.
Obstinar-se na infância é perenizar a gestação sempre de uma “forma anterior”, recusando-se à metamorfose habitual e a qualquer armazenamento de formas definidas pelo homem e a historicidade, cravando-se nos limites da onipotência na medida em que rejeita as formalizações do conhecimento e do saber, não apto para as possibilidades infinitamente repetíveis, mas antes o “constituir-se incompleto”. Restituir ao homem a criança..., escamoteada e cujas forças das relações reativas culturais trata de apagá-la dos traços mnêmicos; ao invocarmos esta infância, é o homem ante o reconhecimento do arbítrio que é pretendido, “homem/criança” em perpétuo estado de negação do reconhecível e do determinado, alegre para o mundo e que se abre à sua existência, pois antecede a qualquer transmissão mesma do saber ou de uma específica tradição - urge que homem necessariamente transmita sua própria distração, o “inútil” que lhe é indispensável, distração que se espraia nas dimensões da infância enquanto um movimento anterior ao que se consubstancia mesmo enquanto linguagem, sendo ela a própria força da negação312.
O “gaguejar” na própria língua313 é a voz desobrigada de sentido; é postar-se à escuta do “ser”; é linguagem não condicionada pela lei da palavra, livre que não se quer imitação de um gênero natural para transmitir valores codificados e pétreos314, e é justo neste “gaguejar” que reside a infância, nesta “antecipação”, que antes do adulto, conhece a linguagem e somente a ela, criança, que é dada a faculdade de aprendizado da fala. A in-fância da experiência se posta no limiar entre presença e ausência, entre o articulado e o esquecido, em um jogo perpétuo de criação do recomeço, potência inventiva que lança a própria criação no
311
Cf. AGAMBEN, G. A idéia de prosa. Lisboa, Cotovia, 1999, p. 91.
312
Ibidem, Idem.
313
Cf. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Kafka, por uma literatura menor. Rio de Janeiro, Imago, 1977.
314
espaço da gratuidade em concomitância com o presente da voz315. A tradição e as formas de cultura cristalizadas buscam a perpetuação: é reatividade, conservação enquanto propriedade e memória da evolução, sua primazia, cuja repetição corrobora na solidificação do sistema. O “tradicional” é revestido de lembranças que impulsionam o “não-lembrar”, eis a sua distinção para o gérmen que a fundou, pois é nele que verificamos a construção figurativa da linguagem, que engloba o agente de invenção e recomeço, de morte e finitude e não enquanto “ente” coincidente e de reconhecimento próprio da tradição – é este jogo, esta flexibilidade do
gérmen, sua figuração, que mantém aberta a “latência do inultrapassável”, onde a insistência
na universalidade sustentada pela errância da tradição apenas interdita; talvez seja ele (o
gérmen) o mais profícuo, pois é gerado na própria distração, no momento anterior dos lábios,
ou do gesto internalizado. O privilégio da distração, sua transmissibilidade, o paradigma do jogo em uma in-fância da experiência, não tem por fim a concretude dos conceitos, mas sua
permanente suspensão, dada as potencialidades do jogador e do jogo.
As diversas n ações e as muitas línguas históricas são as falsas vo cações, com as quais o homem tenta responder à sua insuportável ausên cia de voz; ou se quisermos, as tentativas, fatalment e cond enad as ao fracasso, de torn ar apreensível o inapreensív el, de tornar adulta a eterna crian ça316.
Cabe-nos dissertar ainda que a infância aqui discutida, que se põe na exterioridade da língua, da autoridade do código, ou da lei da palavra, é experimentum linguae, e ao afiançarmos tudo o que ela deixa de ser, salientamos seu caráter de experimentação da linguagem enquanto tal, na pura “auto-referencialidade”, sem buscar seu limite ou esgotamento em um fora na direção de sua referência – infância como um “entre”: espaço
movente entre experiência e linguagem. Tal experiência aqui pontuada não recorre aos
procedimentos científicos usuais, mas compete a uma “ciência sem objeto”, à previsão do encontro com o sensível para uma formulação que forneça compreensão e articulação ao objeto em linguagem: experiência transcendental317 na apreensão que a razão pura318 está na
315
Cf. AGAMBEN, G. A idéia de prosa. Lisboa, Cotovia, 1999, p. 94.
316
Ibidem, Idem.
317
O transcend ental que se encontra na experi ência é o a priori subjetivo, comum a todos os sujeitos, e anterior às coisas; necessária ao desen cad eamento do conhecimento. Destarte, nosso conh ecimento s empre transcende a coisa em si, e sem a coisa em si não haveri a nada a ser transcendido. Uma vez que o verd adeiro ser das coisas é inatingível, toda representação trans cend e a coisa em si. Ao fal armos em experiênci a transcendental, comungamo-nos com Wittgenstein na “ experiência de ver o mundo como um milagre”, e que no limiar entre experiên cia e linguagem, mora a fabulação, talvez nossa distração fund amental. Cf. SEDLMAYER, S.; GUIMARÃES, C.; OTTE, G. O comum e a experiência da linguagem. Belo Horizonte, UFMG, 2007.
318
“ [...] o experimento da razão pura não pode s er outro senão o exp erimentum linguae, que se funda somente
na possibilidade de nominar tais objetos transcendentais por meio do que Kant chama de ‘conceitos vazios sem objeto’, ou seja, como diria a lingüística contemporânea, termos que não tem nenhuma referência”.
própria dimensão da linguagem, preservando o vazio da voz humana319 como potência e possibilidade. A infância encarada como experimentum linguae e perpetuada fora da supremacia cronológica, rompe com qualquer dogmatismo do pensamento e põe o domínio das definições, das classificações, hierarquizações, conceitos e significados em uma lógica do não-identitário, assumindo uma singularidade, possibilidade pura e vazio, “um qualquer” que exerce uma negatividade por não se situar na determinação ou na indeterminação – infância que é eventualidade, um acontecimento320...
Ratificamos que inexiste qualquer oposição entre vida e saber, experiência e conhecimento. Tendemos a aceitar facilmente que exista qualquer conflito fundamental entre vida e saber, gerando as aversões recíprocas conduzindo ao aniquilamento da vida pelo conhecimento e ao rebaixamento do conhecimento pela vida. A prática científica nos deixa evidente a profunda cisão entre conhecimento e experiência, transformando esta em metáfora ou método para chegar àquela. A ciência moderna marca em definitivo o projeto de expropriação da experiência; é gesto de recusa do seu primado, marcando no experimento uma profunda dissociação com o humano, pondo-lhe na condição de fantasma cuja utilidade é minimamente reconhecível, perdendo assim sua concretude e sua potência para concretizar. Tal “preponderância cientificista” se dá no ideal de certeza, na própria comprovação científica da experiência que se efetiva via experimento; na tradução das impressões sensíveis em uma “imagem de exatidão” das determinações quantitativas que auxiliam derradeiramente em previsões futuras – experiência que acaba por ser transferida para fora do homem, em
instrumentos e números321. É neste quadro de cientificismo exacerbado correspondente a mais uma imagem dogmática do pensamento, que a experiência é legada paradoxalmente às esferas do impreciso, do desconhecido – a própria “impossibilidade de fazer experiência”, uma vez que o narrador desta é deslocado do centro e sem agentes a ciência moderna verte-se a um discurso histórico, onde tudo é conhecido em um cotidiano administrado e repetido.
A comprovação cienti fica da experiência que s e efetua atrav és do exp erimento – permitindo traduzir as impressões sensíveis na ex atidão das determinações quantitativas e, assim, prever impressões futu ras – responde a esta perda d e certeza trans ferindo a exp eriên cia o mais completamente possível p ara fora do homem: ao s instrumentos e aos números. [...] a experiên cia é incomp atível com a certeza, e um a experiên cia que se torn a cal culável e certa p erde imediat amente sua auto ridade. Não
319
“ O espaço entre voz e logos é um espaço vazio, um limite no sentido kantiano. Somente porque o homem s e
encontra lançado na linguagem s em ser aí levado por uma voz, somente porqu e, no exp erimentum linguae, el e se arrisca, sem uma ‘gramática’, nest e vazio e n esta afonia, algo como um ethos e uma comunidade s e tornam para ele possíveis”. AGAMBEN, G. Infância e história. Belo Horizonte, UFMG, 2005, p.16.
320
SEDLMAYER, S.; GUIMARÃES, C.; OTTE, G. O comum e a experiên cia da linguagem. Belo Horizonte, UFMG, 2007, p. 18.
321
se pode fo rmular uma máxima nem contar um estória lá onde vigora uma lei cientí fica [...] A trans formação d e seu sujeito não deixa imutável a experiên ci a tradicional. [...] uma vez referida ao sujeito da ciência, que n ão pode atingir a maturidade, mas apenas acrescer os próprios conhecimentos, a experiên cia tornar-s e- á, ao contrário, algo de essencialment e infinito, um conceito ‘assintótico’, como dirá Kant, ou seja, algo que se pod e somente fazer, jamais ter; nada m ais, precisament e, do que o processo infinito do conhecimento322.
A problemática da experiência aqui levantada, onde situamos a infância precisament e neste lugar lógico do “entre” junto à linguagem, marca o momento discriminatório para o “eu penso”, razão pura, e o “eu o existo”, empírico, no movimento que vai contra um gradiente de substancialização do sujeito num único “eu psíquico”. Colocarmo-nos ao pertencimento de uma infância, é retomar o “eu empírico”, singularidade em si dispersa e sem relação com qualquer identidade, alocando o “eu penso” na unidade sintética originária de toda consciência, cujo somente posso atribuir a um idêntico eu a multiplicidade de minhas próprias representações. Sem tais pontos de transcendência doutrinária nos pináculos da ciência moderna, a experiência reaquista sua concretude, não é mais conhecimento, nem metáfora, mas rapsódia de percepções, onde o sujeito transcendente não conhece o objeto, mas apenas o pensa, já que a consciência não é uma representação que distingue um objeto, mas sim uma forma da representação geral, pois dela se pode dizer somente que, por suas vias, podemos pensar toda e qualquer coisa323. Tal enredo rapsódico perceptual do “eu empírico” verte-se em fonte de experiência autêntica e suas aproximações rumam à infância; o limite não esbarra na primeira pessoa, o sujeito, mas na terceira pessoa, o aquilo, que significa que devemos por nosso turno decifrar os caracteres de uma nova experiência324, não mais preterida enquanto tateio às cegas que deve se esquivar a toda custa em prol de um ideal de certeza.
Enquanto uma realidade lingüística, o ego cogito cartesiano, é índice de que o sujeito se dá na linguagem, sendo seu lugar e origem; o eu, instância exclusiva do sujeito na linguagem, é referente ao ato individuado do discurso no qual é pronunciado, e denuncia seu locutor, sua realidade remetida é a do próprio discurso325, assim substituímos o “transcendente” pelo “lingüístico”, onde o “eu penso” é constituído pela realidade da expressão discursiva impregnado pelo sujeito que é apenas locutor – sujeito da linguagem
fundamentalmente como a base da experiência e do conhecimento.
No capitalismo cognitivo a experiência é obtusa, cortada de sua potência de elaboração, cuja contemplação da “aura”, da multiplicidade contida em uma singularidade é
322
AGAMBEN, G. Infância e história. Belo Horizonte, UFMG, 2005, p. 26-32.
323 Ibidem, p. 41. 324 Ibidem, p.51. 325 Ibidem, p. 57.
abandonada para a estrita contemplação alienada da mercadoria...; o conhecimento não passa de vertiginosa acumulação desmesurada. A fantasia, a fabulação, e mesmo a abstração encontram-se impedidas pela ciência moderna, pela máquina capitalística, e são tidas como fatos de um subjetivismo, um fantasma, onde pairam a alucinação e a alienação mental: pura desvinculação da imaginação com o “real”, legando-a a categorização de irrealidade, aquém, além do real, o impossível, desta forma, suspensa de se legitimar enquanto conhecimento. É justo na lacuna deixada pela imaginação no campo do “real” que faz irromper o fantasma: onde havia o sujeito da experiência, agora há o sujeito da alienação mental, das visões e fenômenos mágicos, ou de tudo aquilo que fica fora da experiência autêntica. O fantasma resguarda o intelecto e o sensível sem aporias, onde toda autenticidade da experiência necessita de prova, daí que o desejo é encarado como residual da fantasia, não é ativo, e representa a impossibilidade de experiência, não estando na coisa sensível, mas em sua imagem. O fantasma faz-se sujeito e põe-se no limiar entre o tênue interstício que afasta o “sujeito da experiência” e o “sujeito do desejo”, sendo ele agora “sujeito-fissura”, o que cindi em prol da idealidade da certeza e verdade, extinguindo qualquer fantasia, que factualmente propulsionaria o transformacional326.
É pertinente que rememoremos que o homem pertence a uma infância, seu corpo carrega os traços fetais, como a concha de sua orelha, e que ele fratura a língua para se pronunciar sujeito da linguagem, para poder dizer “eu”, logo o transcendente não está além, a imaginação é fonte de conhecimento, senão o único; fabular, fantasiar é criação e resistência, é produção de diferenças que dão sustentação da tensão de um limiar, conferindo a presença na travessia, no fluxo da vida.
Somente porque existe uma infân cia do homem, somente porque a linguagem não se identifica com o humano e há uma di ferença entre língua e discurso, entre semiótico e semântico, somente por isto existe história, somente por isto o homem é um ser histórico. Pois a pura língua é, em si, anistórica, é considerada absolutament e natureza, e não tem necessidad e alguma de uma história. Imagine-se um homem que nascesse já provido d e linguag em, um homem que fosse já semp re falante. Para tal homem, sem infância, a linguagem não seria algo pré-existente, da qual seria precis o apropriar-se, e não haveri a, para ele, nem fratura entre língua e fala, nem devir histórico da língua. Mas um tal homem seria, por isso mesmo, imediatamente unido à sua natureza, seri a já sempre n atureza, e nela n ão encontraria em parte alguma, uma descontinuidade e uma di ferença nas qu ais algo como uma história, poderi a produzir-s e. [...] É a infân cia, a exp eriên cia trans cend ental da di feren ça entre língu a e fala, a abri r pela primeira vez à história o seu esp aço. Por isso, [...] a saída da pura língua edêmica e o ingresso no balbuciar d a in fân cia (quando, dizem -nos os lingüistas, a criança fo rma os fon emas de todas as línguas do mundo), é a origem transcend ental da história. Experen ciar signi fica, necess ariament e, neste sentido, reentrar na in fân cia como pátria trans cend ental da história. O mistério que a infânci a institui para o homem pode de fato ser solucionado somente na história, assim como
326
a experi ência, enquanto in fân cia, e pátria do homem, é algo de onde ele desd e sempre se en contra no ato de cai r na linguagem e n a palavra. Por isso a história não pode ser o progresso contínuo da humanidade fal ante ao longo do tempo linear, mas é, na sua essên cia, intervalo, descontinuidade, epoch é. Aquilo que tem na in fân cia a sua pátria originári a, rumo à infância e atrav és da in fân cia, deve manter-se em viagem327.
A infância como “experimento”, restitui ao homem a “abstração” - sua espinha dorsal da percepção do mundo - provendo-lhe com uma linguagem que é antecedente e exterior às formalizações da subjetividade no penso logo existo. É na infância, na própria palavra da criança que encontramos a possibilidade do jogo que vem profanar o rito, que constrói o intervalo, a passagem, o próprio vazio do signo. Retomemos aqui o jogo etimológico prenunciado no primeiro parágrafo deste subtópico, pois buscar a etimologia é ir ao gérmen da tradição incrustada na palavra para daí liberá-la: “inventar” vem de invenire, onde in é prefixo privativo ou negativo e marca as palavras que compõe a ausência, ou a não existência do que o radical significa, e venire, é vir; o significado de coisa feita previamente “não- existente” oriunda do século XVI328...; a “fantasia” remonta ao grego phos, luz, através do verbo phaínen - fazer aparecer -, onde “fantasma” segue a mesma origem...; já a “fábula”, oriunda do latim fabulari, conversar, e fabulosus é relativo àquilo de que se conversa329. Criar