Para Pargament os problemas de amplitude e de profundidade espiritual podem ter muitas causas: falta de familiaridade com os recursos da tradição religiosa, uma mistura de crenças, práticas, relações, emoções e experiências ou uma atitude passiva na qual o indivíduo não consegue internalizar e adaptar ensinamentos à sua própria vida e outros.
Os clientes que associam a espiritualidade a crenças e práticas religiosas podem ser encorajados a explorarem novamente as práticas e os lugares em que já experimentaram o sagrado, buscando integrar essas experiências a suas vidas.
Outras pessoas descobriram caminhos não tradicionais para o sagrado, como a música, a arte, a fotografia, e podem explorar a sua espiritualidade de modo mais profundo nessas fontes.
O terapeuta pode ainda ajudar o cliente no desenvolvimento de mais abertura e intimidade em suas comunicações com Deus e, em seguida, ajudá- lo a aprofundar as relações com as pessoas de sua rede social. Como ritual a oração pode tornar-se pro forma para muitas pessoas, por ser composta de recitações que mantêm pouca ligação com o mais profundo sentimento do cliente ou da relação com o sagrado. O desafio nesses casos é estimular a mudança de um monólogo espiritual para um diálogo espiritual, e esta é uma mudança não só para falar com Deus, mas também para imaginar e esperar a resposta de Deus.
O terapeuta pode ajudar o cliente a desenvolver uma perspectiva espiritual mais profunda e diferenciada, que aumente a sua capacidade de lidar com os desafios da vida. Seu papel neste processo não é criticar, condenar ou fazer proselitismo. Debates sobre a veracidade das afirmações religiosas devem ser evitados, pois o terapeuta não tem conhecimentos privilegiados quando se trata de assuntos específicos das religiões.
A regra clínica – comece com a abordagem menos intrusiva – aplica-se especialmente bem ao domínio espiritual. O trabalho do terapeuta é criar um ambiente no qual o cliente possa explorar com segurança todos os temas, inclusive o espiritual. É conveniente fazer perguntas reflexivas, que explorem os pontos espirituais sensíveis e aumentem as perspectivas; contrabalancear a
alternativa e sugerir novas leituras sobre o tema e experimentar com a mudança são alguns dos métodos clínicos que auxiliam no aprofundamento das vias espirituais do cliente. Mas eles serão eficazes apenas com clientes que têm algum grau de flexibilidade espiritual.
Pargament também volta sua atenção ao problema espiritual da continuidade e da mudança, centrando-se em um aspecto particular: a rigidez espiritual.Vários métodos podem ser úteis no processo de dissipação de medos subjacentes, pois o medo está na raiz da rigidez espiritual. O medo é, em parte, psicológico, especialmente diante da incerteza, da confusão e da desorientação. Esquemas espirituais rígidos oferecem uma resposta a esses temores. O terapeuta não será bem-sucedido se não reconhecer que a mudança espiritual pode representar tanto um benefício quanto uma ameaça psicológica e espiritual para a pessoa. Por esta razão, deve lidar com o problema da rigidez com muito cuidado.
Os terapeutas devem, demonstrar sensibilidade e respeito pelos assuntos sagrados como um prelúdio para qualquer conversa sobre mudança espiritual. Deve ficar claro para o cliente que o objetivo do diálogo não é diminuir ou eliminar crenças e práticas, mas enriquecer o lugar do sagrado em sua vida. É preciso transmitir uma apreciação pela necessidade do cliente de obter respostas para as suas dúvidas e a sua estrutura de vida. É importante assegurar que as discussões sobre as mudanças não visam a tornar seu mundo um caos, mas permitir a ele responder de modo efetivo às reviravoltas que fazem parte da vida de qualquer um. A mensagem fundamental é que a flexibilidade espiritual complementa a necessidade de estabilidade e estrutura,ao invés de se opor a ela.
A biblioterapia é um recurso poderoso para os clientes que têm dificuldade em visualizar as crenças espirituais e as práticas a partir de diversos pontos de vista.O terapeuta bem familiarizado com as tradições de seu cliente pode recomendar livros que o ajudem a abrir-se para vários níveis de significados em textos religiosos e ensinamentos. Nesse sentido, o cliente pode também escrever suas próprias orações, ou encontrar orações e meditações na sua tradição religiosa que o apóiem. O terapeuta precisa assegurar ao cliente que, apesar das mudanças da vida, algumas coisas
permanecem mesmo em meio à transformação, e o sagrado continuará a ser uma constante.
Muitas vezes, no entanto, pode ser necessário desafiar a rigidez espiritual de modo mais incisivo. Pargament ressalta que muitos terapeutas são relutantes em agir de modo assertivo na terapia, pois têm receio de interferir diretamente no modo que o cliente escolheu para viver sua vida. Ele lembra que até mesmo as habilidades terapêuticas mais básicas, como a escuta, a empatia e o reforço positivo podem influenciar o cliente. O desafio é encontrar um meio de confrontar seus clientes respeitando a autonomia e a responsabilidade sobre suas próprias vidas. É preciso compreender também, que os problemas espirituais podem ter consequências graves, especialmente quando o cliente adere rigidamente a extremismos. Tal como acontece com outras formas de tratamento, há momentos em que o desafio é um elemento necessário da terapia espiritual integrada.
Pargament apresenta algumas formas de desafiar o cliente. Apontar para a inconsistência espiritual é uma forma de desafio que estimula a flexibilidade. Oferecer alternativas de citações bíblicas é uma outra forma de desafiar a rigidez espiritual. Embora o cliente possa se sentir provocado ele entenderá que é a sua interpretação que está sendo questionada, e não a sua religião. O mais importante é que cada um desses desafios seja realizado de uma maneira que transmita respeito aos textos sagrados e ao compromisso espiritual do cliente.
Segundo Pargament, uma maneira de desafiar a rigidez espiritual merece especial consideração: o uso do humor. Ele diz:
(...) por humor, não me refiro a rir do cliente, da sua situação, ou da sua fé. (...) os terapeutas, que usam mal o humor, perderão a oportunidade de ganhos com o cliente.Se corretamente utilizado, o humor pode descontrair os clientes que parecem estar espiritualmente congelados e pode ser especialmente útil para desafiar as resistências espirituais do cliente, mas o bom humor cria possibilidades de mudança em situações aparentemente insolúveis, inclusive espirituais. (PARGAMENT, 2007, p. 304-305).
Sem um certo grau de flexibilidade espiritual o cliente não pode adaptar- se às mudanças dos tempos e das circunstâncias, não pode crescer na compreensão do sagrado e não pode ampliar e aprofundar seus caminhos
espirituais. Ajudá-lo a enfrentar a inflexibilidade espiritual é um elemento chave na psicoterapia espiritualmente integrada.
Um último grupo de problemas que deve ser abordado na terapia é o dos problemas de ajuste. Pargament considera algumas estratégias para melhorar o ajuste, com especial atenção para os problemas de conflitos espirituais entre o indivíduo e o sistema social. Os conflitos espirituais devem ser abordados de frente.
Eles devem ser explicitados ajudando na construção de um discernimento maior, promovendo a tolerância espiritual e explorando novos nichos.
Para realizar todo este trabalho, o psicólogo deve receber um preparo adequado, pois, assim como com as outras facetas da clínica psicológica, um bom processo terapêutico não ocorre sem um bom terapeuta.